                                               Sussurros  Robin Jones Gunn

Sussurros
CAPTULO UM ....................................................................................................................... 7
CAPTULO DOIS .................................................................................................................. 10
CAPTULO TRS .................................................................................................................. 16
CAPTULO QUATRO ........................................................................................................... 22
CAPTULO CINCO ............................................................................................................... 27
CAPTULO SEIS.....................................................................................................................31
CAPTULO SETE .................................................................................................................. 36
CAPTULO OITO ................................................................................................................. 41
CAPTULO NOVE ............................................................................................................... 46
CAPTULO DEZ .....................................................................................................................51
CAPTULO ONZE ................................................................................................................. 57
CAPTULO DOZE................................................................................................................ 60
CAPTULO TREZE................................................................................................................ 65
CAPTULO CATORZE .......................................................................................................... 71
CAPTULO QUINZE............................................................................................................. 77
CAPTULO DEZESSEIS ........................................................................................................82
CAPTULO DEZESSETE .......................................................................................................87
CAPTULO DEZOITO ..........................................................................................................92
CAPTULO DEZENOVE ...................................................................................................... 96
CAPTULO VINTE .............................................................................................................. 102
CAPTULO VINTE E UM ................................................................................................... 106
CAPTULO VINTE E DOIS ................................................................................................. 112
CAPTULO VINTE E TRS .................................................................................................. 117
CAPTULO VINTE E QUATRO .......................................................................................... 123
CAPTULO VINTE E CINCO ............................................................................................. 129
CAPTULO VINTE E SEIS ...................................................................................................134
CAPTULO VINTE E SETE .................................................................................................. 141
CAPTULO VINTE E OITO ................................................................................................ 144
CAPTULO VINTE E NOVE ............................................................................................... 149
CAPTULO TRINTA ........................................................................................................... 154
CAPTULO TRINTA E UM ................................................................................................. 160
CAPTULO TRINTA E DOIS .............................................................................................. 165
CAPTULO TRINTA E TRS .............................................................................................. 170
Receitas Sussurradas ............................................................................................................ 173

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                            Wendy Lee Nentwig,
                           Uma amiga de verdade
             Com quem eu dividi meu quarto e meus sonhos,
                  Oraes e lgrimas, roupas e amigos,
        Risadas, e a lista de palavras para soletrar da minha filha.
                         E foi s a primeira dcada.




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               Sussurros  Robin Jones Gunn




          Mas o Senhor no estava no vento.
        Depois do vento, veio um terremoto, mas
          O Senhor no estava no terremoto.
         Depois do terremoto, veio o fogo, mas
             O senhor no estava no fogo.
        Depois do fogo, veio um sussurro calmo.
                     1 Reis 19:11-12




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CAPTULO UM

Teri jogou os cabelos castanhos para trs dos ombros e olhou atravs da multido de
turistas em Maui pegando sua bagagem na esteira. Ela esperava ver Mark entre os
habitantes locais, mas foi a voz de sua irm que a saudou.

- Teri, aqui!

Anita correu at ela com um lei de plumrias brancas pendurado em seu brao.

- A est voc! Disse Anita, sem flego, abraando Teri  Desculpe no ter chegado mais
cedo. Aqui, estas so para voc. Ela colocou a cheirosa lei em volta do pescoo de Teri. 
Dan est estacionando o carro. Nos atrasamos. Desculpe.

- No se preocupe, disse Teri, levantando as flores para sentir seu perfume. Uma dzia de
memrias de seu vero anterior na ilha encheu sua mente. Ela olhou atrs de sua irm e
com um sorriso tmido perguntou  Mark no pode vir?

- No. Ele vai jantar conosco, eu acho. Voc est tima! Disse Anita, balanando o brao
de Teri.  Perdeu uns quilinhos, ?

Vendo que a sua irm estava olhando para suas coxas, Teri disse:

- No, no...

Teri sentiu um desconforto familiar. Ela nunca pde vestir uma cala jeans tamanho 36
como sua irm mais velha  talvez nunca pudesse.

- Voc tambm ta tima, disse Teri  Amei seu cabelo desse jeito. Nunca pensei que voc
um dia cortaria to curtinho. Ficou uma gracinha.

Anita passou os dedos em seu cabelo escuro, na altura do pescoo.

- Gostou? Cortei faz uma semana. Ainda estou me acostumando, mas acho que ficou
legal. Dan gostou.

Nesse exato momento, Dan apareceu. Ele era da mesma idade que Anita, vinte e sete.
Mas seu curto cabelo escuro e ondulado o fazia parecer um adolescente.

- Como foi o voo? Disse Dan, dando a Teri um abrao, fazendo gesto com a cabea para
irem pegar as malas na esteira.

- Foi tudo bem. Sem surpresinhas.

- No pense nem por um minuto que as suas prximas cinco semanas sero sem
surpresinhas, disse Anita  Ns vamos nos divertir muito! Eu tenho um monte de coisas
planejadas.

Teri imaginou se Anita tinha includo Mark nesses planos.

- Aquela  minha mala, disse Teri.


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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

Dan alcanou a mala e a levantou facilmente. Ele tinha experincia com bagagem j que
trabalhava como carregador de malas no Halekualii, um dos resorts mais caros no lado
oeste de Maui.

- S essa?

- S, disse Teri.

- Veio com bagagem leve dessa vez, hein? Parece que voc aprendeu que tudo que
precisa trazer para Maui  sua roupa de banho, disse Dan, levando-as para o lugar onde
estacionara o carro.

- Uma roupa de banho e toda moedinha que eu puder juntar, adicionou Teri. Ela
novamente se inclinou para cheirar as flores ao redor do pescoo, enquanto saam da
rea de bagagens. Um forte vento balanou seus cabelos, secando tambm o suor de suas
roupas.

- Ah! Suspirou Teri, cumprimentando a brisa da ilha com os olhos fechados.  
maravilhoso estar de volta. Sabe quantas vezes eu sonhei com esse momento? Eu aqui,
parada, sentindo o vento nos meus cabelos, sentindo o cheiro das flores. Ela
impulsivamente abraou Anita.  No acredito que to aqui!!!

- Por que no vem pra ficar? Perguntou Anita.

- Bem que eu gostaria, disse Teri.

- Srio, Teri. Por que no se muda pra c?

- Bem, um probleminha  como me sustentar na ilha.

- Sempre precisam de professores, disse Dan.  O salrio no  l essas coisas, mas voc
pode fazer como quase todo mundo e servir mesas nos finais de semana.

- Acho que no deve ter muita demanda pra professores de espanhol, disse Teri.

- Sempre tem algum que precisa, respondeu Dan. Ele destrancou o porta-malas do seu
pequeno carro branco e colocou a mala de Teri l dentro. O carro tinha sido de aluguel
antes de ele comprar de um amigo por uma bagatela porque a porta traseira do lado
direito estava amassada. Eles ainda no haviam consertado a porta. Teri percebeu que
tinha se formado ferrugem na rea batida. No estava assim no ano anterior. Ela entrou
no carro pela outra porta, pensando consigo mesma que, mesmo os dois trabalhando em
dois empregos, ele no conseguiram consertar o carro. Como ela poderia se sustentar
num lugar com o custo de vida to alto?

- Sei l. Disse Teri.  Tenho uma vida bem confortvel no Oregon. Maui  um timo local
pra se passar as frias, mas no sei se poderia viver aqui.

- Claro que pode, disse Anita.

Dan pagou o estacionamento e entrou no trfego.



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                               Sussurros  Robin Jones Gunn

- D pra esperar um pouco pelo jantar ou ta morrendo de fome? Acho que vai demorar
uma hora pra gente conseguir chegar do nosso lado da ilha, e mais uma meia hora pra
comer.

- Meu estmago pode esperar, respondeu Teri. O que no podia esperar eram seus olhos.
Eles esperaram ansiosamente para apreciar esse paraso encantado. Com todas as janelas
abaixadas, Dan dirigia pela via rpida que ligava os dois lados da ilha. Anita tagarelava
enquanto eles seguiam, Teri ouvia mais ou menos o que ela dizia. Ela estava quase
completamente absorvida pela paisagem.

Primeiro foram os campos de cana-de-acar no vale central.  esquerda estava
Haleakala, o grande vulco cercado por nuvens que pareciam formar um halo  sua volta.
A estrada continuou pela borda externa do oeste da ilha, passando por rochas vulcnicas
e baas de areia  sombra de palmeiras.

Teri estava embebida pela beleza do oceano azul e pela vista imponente da ilha vizinha,
se destacando no Oceano Pacfico: Hahoolawe, Lanai, e o verde gigante dorminhoco de
Molokai, h apenas 14 km da pequena casa de Dan e Anita. Ela esperara um ano na
chuvosa Oregon para ter essas sensaes, um ano cheio de sonhos romnticos e
especulaes esperanosas. Agora Teri Angelina Raquel Moreno estava quase vendo seus
sonhos se tornando realidade.




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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

CAPTULO DOIS

- Pensei que estivssemos indo pra sua casa primeiro, disse Teri, quando Dan anunciou
que estavam quase chegando ao restaurante.

- No d tempo, respondeu Anita  Alm do mais, o Leilani's  aqui do lado, nossa casa
fica mais dez minutos pra cima.

- Por que no d pra ir em casa primeiro? O que so mais dez ou vinte minutos?
Perguntou Teri, tentando manter a voz em um tom sereno.

- A gente combinou com o Mark a essa hora no restaurante. Ele j deve estar esperando.

- Mas eu no estou vestida para o jantar, disse Teri, sentindo-se frustrada  Queria trocar
de roupa.

- Pra ir ao Leilani's? Disse Anita.  Ta bem desse jeito. Voc no quer parecer um haole,
toda arrumada pra jantar.

- Um o qu?

- Haole.  `turista' ou `estrangeiro' em havaiano.

Dan acrescentou:

- A traduo literal  `estranho'. Os locais no costumam ficar se arrumando muito.
Aninha ta certa: voc ta bem desse jeito.

Teri no se sentia bem. Ela se sentia desarrumada, ainda mais depois de mais de cinco
horas de voo.

Sua cala jeans parecia meio quente, e sua blusa branca de algodo estava meio
amarrotada. Ela queria estar e se sentir bem quando visse Mark de novo e tinha separado
dois vestidos para ter certeza de que estaria.

Ela estava to nervosa quanto no ano anterior, quando Dan e Anita marcaram para eles
um encontro s cegas.

- Voc me levou nesse restaurante ano passado? Perguntou Teri, tentando lembrar que
tipo de lugar era esse.

- Acho que no. Ns fomos s no que o Dani trabalha.

-  mesmo, disse Teri, recordando.

- O Leilani's fica aqui no Kaanapali. Anita mostrou pela janela aberta enquanto Dan
dirigia passando por um campo de golfe  direita e virava  esquerda entrando em um
enorme resort com belos jardins bem tratados e uma longa fila de edifcios ao longo da
praia.

-  um dos nossos lugares preferidos, disse Anita, sorrindo para Dan.  Quando
conseguimos sair,  pra c que vamos.

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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

Dan dirigiu para um estacionamento e logo encontrou uma vaga. Eles estacionaram e
entraram no Shopping Center Vila Whaler, onde um monte de turistas entravam e saam
das lojas.

Teri seguiu sua irm e Dan descendo pela passarela de cimento at a praia. Quanto mais
perto eles chegavam do restaurante, mais insegura ela se sentia. Eles viraram  esquerda,
depois de passar por vrias tochas havaianas, em direo ao Leilani's Restaurante, onde
Dan abriu a porta para Anita e Teri entrarem.

Teri prendeu a respirao. Ela podia sentir seu corao pulsando, no s pela caminhada,
mas tambm pela ansiedade para ver Mark.

Ela se lembrou de ter se sentido totalmente indefesa na primeira vez em que eles se
encontraram. No que Mark tivesse aquele visual perfeito. Ele tinha o nariz largo, a boca
grande e o queixo quadrado. Mas, de alguma forma, tudo isso junto dava a ele uma
aparncia legal. Ele no abria a boca quando sorria, apenas os cantos se curvavam para
cima. Para Teri, a expresso era misteriosa e confortvel, um belo contraste com seu
sorriso escancarado que mostrava todos os dentes de uma s vez.

Alguma coisa aconteceu entre eles na primeira vez em que se viram. Seria isso o amor 
primeira vista? Ela no iria to longe. Mas houve fogos de artifcio o bastante para que
ela ficasse pensando nele por doze longos meses.

Assim que eles entraram no restaurante, Teri olhou rapidamente para todas as pessoas
na rea de espera at encontrar Mark. Ela manteve o olhar fixo nele quando seus olhos se
encontraram e seus lbios se curvaram em um sorriso. Mas ele no se moveu.

Em que ele est pensando? Ser que ele tambm tem ouvido fogos de artifcio? Ser que
algum deles foi por mim? Sei l... Ser que eu devia ir l dar um abrao nele? Por que ele
no se mexe?

- Ali est o Mark, disse Anita, que s ento o notara. Ela avanou pelo caminho at ele, e
Teri a seguiu.

Mark abraou Anita primeiro, dando o tradicional beijo aloha na bochecha. Depois ele
fez o mesmo com Teri. Ela no sentiu nada. Parecia que seu interior estava fechado. Ser
que com tantos meses de ansiedade ela idealizou um relacionamento mais profundo do
que o que eles realmente tinham? E agora que eles estavam juntos Teri via seus reais
sentimentos, ou ela s estava atordoada?

- Que bom te ver, disse Mark. Ele estava com o nariz queimado pelo sol. Seu cabelo
castanho parecia ter mais mechas loiras do que ela se lembrava.

-  muito bom te ver! Disse Teri, animada.  Como voc ta?

- Bem, e voc?

- To legal. Quer dizer, to muito bem.  bom estar aqui de novo. Cara... Teri falava
consigo mesma Eu to falando igual um idiota. Por que isso  to esquisito? No  como eu
imaginei que seria.

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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

A recepcionista no balco anunciou:

- Hunter, grupo de quatro, por favor. Hunter.

- Somos ns, disse Mark.

- Parece que chegamos bem na hora, disse Dan, segurando a mo de Anita e seguindo a
recepcionista at a mesa deles. Mark fez sinal para que Teri fosse  frente dele, e depois
ele a seguiu.

Eles tinham um assento  janela no segundo piso do restaurante. Sem tela ou vidro para
bloquear a passagem, a brisa noturna refrescante vinha do oceano, h algumas centenas
de metros dali.

- Perfeito, disse Anita, enquanto Dan afastava a cadeira para ela.  Eu amo esse lugar. To
muito feliz que voc ta aqui, Teri.  uma boa desculpa pra gente dar uma saidinha.

Mark afastou a cadeira para Teri se sentar. Ela se sentiu meio boba, como se ela e sua
irm estivessem tendo um encontro de casais antes do baile de formatura ou coisa
parecida.

Ela observou Mark enquanto ele se sentava. Ela no saberia dizer o que ele estava
pensando; sua expresso era difcil de ler. Ele no tinha prometido nada,  claro, no ano
anterior. Os sete telefonemas e alguns cartes postais trocados foram o combustvel que
Teri usou para alimentar suas expectativas.

- Temos que guardar um espao pra Torta Hula, disse Anita, olhando o menu.

Teri abriu o cardpio tambm, contente por ter alguma coisa com que se esconder. Ela
olhou a lista de frutos do mar e imediatamente decidiu pelo mahi mahi. Mesmo assim ela
continuou com o seu muro de cardpio tentando organizar seus pensamentos e
emoes. Eles precisavam comear a falar naturalmente. Isso ajudaria.  claro que um
primeiro encontro  tenso no comeo. O que ela queria? Que ele pulasse de alegria
quando a visse? Mark era reservado. Ela sabia disso. Provavelmente ele estava to
nervoso quanto ela. Se Dan e Anita no estivesse ali, tudo seria como no vero anterior.

- J decidiram? Precisam de mais alguns minutos? O garom estava esperando pelo
pedido, e Teri no poderia mais se esconder por muito tempo atrs da sua parede de
papel plastificado. Ela abaixou o cardpio e fez o seu pedido, ordenando a si mesma para
relaxar.

- Ento, como vai sua pesquisa? Perguntou Teri a Mark assim que o garom saiu. Teri
sabia que o trabalho de Mark como bilogo marinho era a paixo de sua vida. Ela
imaginou que o assunto daria um bom incio de conversa.

- Est indo muito bem. Na verdade, ns mudamos o foco da pesquisa pros filhotes de
baleia. No lembro se te contei.

- No, disse Teri, sorrindo, na esperana de que Mark estivesse relaxado, mesmo ela no
se sentindo assim.  Voc no falou disso. Ento, o que vocs esto estudando, ou
pesquisando, sei l...
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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

Mark se inclinou sobre a mesa, falando aos trs:

- Basicamente, estudamos os bebs baleia desde o nascimento at que completem um
ano de vida.

- Algum est patrocinando isso? Perguntou Anita.

- A pesquisa  importante, disse Mark.  Voc sabia que as baleias sem dentes so as
nicas que saem de cabea ao nascer? As outras nascem pela cauda, assim como os
golfinhos.

- E qual  o motivo? Perguntou Dan.

- Ningum sabe.  o que estamos estudando. Sabe, o processo de nascimento pode
demorar horas. Como as baleias so mamferos, e,  lgico, respiram fora da gua,
poderiam se afogar se sassem de cabea. Mas essas baleias nascem de cabea, e no se
afogam. Isso  um mistrio.

- Eu no acredito que voc  pago para assistir o nascimento de bebs baleia, disse Anita.

- Voc j viu algum? Perguntou Teri.

Um leve sorriso curvou os lbios de Mark. Ele virou para Teri e disse:

- Dois. Fiz umas filmagens timas.

- Deixa eu ver se entendi, disse Dan  Voc entra no seu submarino, navega pelo oceano
com uma cmera de vdeo enquanto esses bebs baleia nascem, e as mes no esto nem
a pra voc? Pensei que elas fossem extremamente protetivas com suas crias.

- Geralmente so, disse Mark.  Mas Mabel e eu somos bons amigos. Eu j a acompanho
h quase trs anos, ento acho que ela no se importa de eu estar presente no parto.
Alm do mais, ela estava meio ocupada no momento. Acho que ela no prestou muita
ateno em mim. Pua e Nui estavam l.

- Pua e Nui? Perguntou Dan.

- Baleias, respondeu Mark, como se ele no tivesse que distinguir humanos de baleias
enquanto conversa.  So baleias azuis como Mabel. Um tipo de madrinhas. So quase
parteiras. Demorou quase uma hora, mas o pequeno Jonah nasceu cheio de sade, em
cada um dos seus sete metros e meio.

- Nasceu a cauda primeiro? Perguntou Teri.

- No. Primeiro a cabea. Ele  uma baleia sem dente.

- Pensei que fosse uma baleia azul, disse Teri, quando chegaram as saladas.

- Mas ele . Sabe, existem dois tipos de baleias. Com dentes e sem dentes. As baleias sem
dentes comem krill. Baleias azuis no tem dentes. Na verdade, trs tipos de baleias azuis
so do tipo rorqual. Mabel  uma baleia azul an.


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                                    Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri saboreou sua salada olhando em volta, tentando no parecer to confusa da forma
como realmente se sentia. Era como se Mark estivesse falando outra lngua.

- Os do tipo rorqual tem um triangulo nas costas, perto da cauda.  Mark apontou para
trs de seus ombros e ento olhou para Dan e Anita para ver se eles estavam
acompanhando.

- Ah... Disse Teri. Ela sorriu envergonhada e disse: - Acho que tenho muito a aprender
sobre baleias. Isso tudo  mio novo pra mim.

- No  to complicado como est parecendo, disse Mark.

- Queria sair com voc uma hora dessas, disse Teri.

Mark arregalou os olhos.

- Quer dizer, no seu barco, ou canoa, ou sei l o que. Teri riu de si mesma.  Nem sei
como  que se chama.

-  um barco, disse Mark.

- Bem, uma hora dessas, quando for conveniente, gostaria de ir com voc no seu barco
aprender mais sobre essas maravilhosas baleias azuis do tipo rorqual com tringulos nas
caudas.

- Na verdade  nas costas. Perto da cauda. Mark sorriu de volta. Mas ele no exatamente
confirmou o convite para Teri ir ao barco com ele.

Ela fez uma nota mental sobre o assunto, trazendo  tona mais tarde, quando ela e Anita
estavam sozinhas na sala de estar.

- Ele no parece meio distante? Perguntou Teri.  Ele no me convidou para ir ao barco
com ele.

- Isso no significa nada.

- Ta, mas ele parecia distante, no foi como eu imaginava. Acha que ele est tendo
dificuldades de se relacionar com humanos por passar muito tempo com as baleias?

- Que pergunta mais retardada.

- No  no! Mark ta diferente comigo. Muito diferente do que era no ano passado. Acha
que eu mudei muito?

- No.

- Ento  ele. Acho que ele est emocionalmente envolvido com outra pessoa.

- Por que  que voc ta pensando isso? Perguntou Anita.

Teri podia ouvir o zumbido baixo do ventilador de teto.

- Sei l. S no  a mesma coisa.

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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Por que voc est tirando concluses agora, Teri? Voc nem deu a ele uma chance
decente. Um jantar no  suficiente pra definir um relacionamento. Voc no sentiu
nada quando o viu?

- No como no ano passado. Mas ano passado parecia ser tudo recproco desde o incio.
Acho que eu estava meio contida hoje  noite, evitando sentir alguma coisa antes de
saber a posio dele.

- Quem sabe ele no estava fazendo a mesma coisa, disse Anita.  Vocs dois esto
complicando as coisas. Precisa esperar e ver o que acontece. Voc o ver de novo
amanh.

- Eu espero v-lo amanh. No ouviu o que ele disse? Se o barco ficasse no cais ele
poderia vir ao luau. Tive a impresso de que se ele fosse mostrar alguma coisa, o faria no
ltimo minuto. Ele parece no se comprometer com nada, n?

-  isso que voc est esperando? Um compromisso instantneo? Teri, voc est
analisando o romance do lado de fora. Voc sabe que tem mania de fazer isso. No
transforme isso em outro Luis da vida.

- No ! Disse Teri, na defensiva.

- Por que no vai dormir e esperar pra ver o que acontece amanh? Estou indo pra cama.
Anita a abraou antes de entrar no quarto, onde Dan estava quase cochilando.  Boa
noite!

Armando o sof-cama e se enfiando entre os lenis, Teri imaginou se Anita saiu rpido
porque no queria ficar falando de Luis. Teri ficou enrolando, enchendo sua mente com
as lembranas que tinha dele. Luis era um homem maravilhoso. Todos pensavam que
eles iam se casar. Eles tinham famlias semelhantes, foram aceitos nas mesmas
faculdades, gostavam das mesmas coisas, e namoraram por quase um ano. At que um
dia eles olharam um para o outro e decidiram terminar, mesmo que nenhum dos dois
pudesse explicar claramente o motivo para eles mesmos ou para os amigos e para suas
respectivas famlias. Todos ficaram chocados com a deciso.

Teri se lembrou de ter dito algo como eles precisavam casar ou terminar, mas no
podiam ir adiante do jeito que estavam. Era muito fcil, muito confortvel, e muito
chato. Eles pareciam mais dois primos em um acampamento de vero do que um casal
apaixonado. No tinha fogos de artifcio. Teri precisava de fogos de artifcio.

Desde que Teri e Luis terminaram no ltimo ano do colgio, no houve nenhum outro
homem marcante em sua vida. Agora, com a expectativa de um romance com Mark, Teri
imaginava se sua irm estava certa quando a ficar analisando o romance em seus
relacionamentos. Ainda assim, ela precisava de fogos de artifcio. Fato.




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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

CAPTULO TRS

Uma boa noite de sono e um demorado banho quente fizeram Teri se sentir melhor. Ao
meio-dia ela tinha melhores pensamentos quanto a ver Mark novamente. Ela estava
pronta pra passar esse tempo na ilha, deixando as coisas virem naturalmente.

A primeira coisa que veio foi uma companhia para o luau no Halekualii Resort.

- Vai ficar o dia todo? Perguntou Teri.  Ou precisa voltar pra casa pra adiantar algum
trabalho? Anita trabalhava em casa, no computador no canto do quarto. Ela realizava
uma variedade de tarefas administrativas, desde fazer currculos, traduzir histrias
infantis para o espanhol para uma editora crist no Arizona, e transcrever fitas de
medicina que chegavam pelo correio semanalmente para um grupo considervel de
mdicos em Honolulu. Anita tambm servia mesas nas noites de sexta-feira em um
pequeno restaurante.

- Estou bem adiantada. Posso terminar as fitas amanh. Mas eu vou aos correios mandar
algumas que terminei hoje de manh. Quer vir comigo?

- Acho que vou ficar por aqui.

- Vou passar no mercado tambm. Tem que levar uma salada pro luau. Volto em uma
hora, a ns vamos.

Teri se ocupou com trabalhos domsticos, arrumando o sof-cama, lavando alguns
pratos que estavam na pia, e varrendo o cho. Enquanto fazia, Teri descobriu uma
grande vantagem da pequena casa em que Dan e Anita moravam: fazer faxina demorava
menos de uma hora. Ela sentou no sof, ligou a TV em um canal de surf e aproveitou o
clima acolhedor. Acolhedor e relaxante.

Anita voltou e preparou uma salada rapidamente. Ento elas saram. Era mais um lindo
dia no paraso. Nuvens brancas estreitas vinham das montanhas ao oeste de Maui, o
oceano brilhava  esquerda, enquanto elas se dirigiam ao resort.

Halekualii fica em uma pennsula ao norte da ilha. O resort cinco estrelas ocupava mais
de 40 hectares, e tinha quatro piscinas, uma praia particular. S a elite podia pagar estes
luxos, "casa de reis", como diz o significado do nome.

Assim que elas passaram pelo caminho cercado por palmeiras que levava ao lobby, Teri
se sentiu um peixe fora d'gua. Ela tinha uma amiga no Oregon que era milionria, ento
no era como se ela nunca estivesse com algum que tem dinheiro. Mas Jessica nunca
ostentou sua riqueza. Na verdade, ela escondeu isso de Teri e de todos os outros nos
primeiros meses em que esteve na pequena cidade de Glenbrooke. Todavia, Teri sabia a
diferena entre os que tm e os que no tm. Dan  empregado aqui. Teri sentia que sua
posio estava bem clara, uma visitante, parente de um funcionrio.

- Isso no te incomoda? Ela perguntou a Anita quando elas desciam por uma estrada
lateral que levava ao estacionamento dos empregados.

- Como assim?

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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Ah, isso tudo  to extravagante. No sei se conseguiria trabalhar num resort desses. Eu
ficaria me sentindo uma servial o tempo todo.

- Eu no me sinto assim. Em Maui, tem os kamaainas e os haoles. Acho que temos
vantagem em ser os kamaainas.

- E o que  isso?

- Kamaainas? Os que moram aqui h bastante tempo. Somos os que moram aqui, no os
que vm para passar uma semana. Ento e da se temos que trabalhar servindo esses
turistas? Dani diz que ns temos sorte porque ainda estaremos aqui depois que eles vo.
Ele provavelmente ainda estar carregando malas quando eles vierem no ano seguinte. E
 a que est. Turistas vm e vo. Ns ficamos. Anita estacionou o carro e desligou a
ignio.  No, no acho que somos serviais. Somos kamaainas.

Teri imaginou se ela sentiria a mesma coisa se ela se mudasse para Maui.

- Pode levar o molho? Perguntou Anita.  Eu vou pegar as toalhas e a salada. Voc trouxe
roupa de banho, n?

- Claro. Vesti por baixo da roupa. Acho que vou me vestir assim as frias todas.

Anita guiou pelo caminho que levava a uma das piscinas, onde grandes mesas estavam
postas no gramado, entre coqueiros. Parecia uma foto de folhetos de agncias de viagens.
Elas adicionaram sua contribuio  grande variedade de saladas e sentaram com os
outros funcionrios.

Teri odiava esse primeiro passo das reunies sociais, ainda mais quando ela no conhecia
ningum. Ela era uma pessoa extrovertida, e se sentia  vontade para falar a um grupo.
Mas conversas de festinhas no era a dela.

- Quer ver onde eles assam os leites? Perguntou Anita.

- Ta brincando, n?

- No, eles constroem um forno especial. Chamam de imu. Eles assam os porcos  moda
antiga nos luaus que fazem aqui toda semana. Chamam de kalua.  meio assado, meio
cozido. Eles enchem o buraco com pedras quentes. E quando eu digo quente,  bem
quente! Da cobrem e colocam um bambu pra poder colocar gua, pra criar vapor l
dentro. O nosso luau  o mais autntico da ilha.

- Imagino! Vamos ter danarinas de hula tambm?

- Claro. E dana do fogo tambm. Ganhamos a programao toda.

- Ta brincando.

- No. Eles tratam os empregados muito bem aqui. Uma vez por ano, eles do uma
grande festa para os empregados experimentarem todos os luxos de um luau de turista. E
pra entrar, s precisa trazer uma salada. Nada mal, hein?



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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri balanou a cabea e tentou espiar o poo onde o porco estava sendo cozido. Estava
coberto com folhas de palmeira, o cheiro que saa de l era muito bom.

- Pobre porquinho, disse Teri.

- Ta cheirando, n? Eles cozinham com brasas de madeira kiawe havaiana. Como eu
disse,  tudo autntico. Anita passou os dedos no cabelo curto.  Vou encontrar o Dani e
dizer que j chegamos. Ele deve sair em uma horinha.

Teri viu um homem a alguns metros da piscina. Ele estava sozinho com uma lata de
alguma coisa na mo, olhando a multido como se procurasse algum. Algo familiar nele
perdeu o olhar de Teri.

- Quer vir comigo?

- No, acho que vou ficar por aqui, disse Teri.

- Ento te encontro aqui em vinte minutos. Vai ficar bem sozinha?

Teri fez uma cara de dor.

- Ta bom, ta bom! Eu s perguntei. Eu sei que voc no gosta dessas festinhas onde no
conhece ningum. Toma, encontra uma espreguiadeira perto da piscina pra colocar
essas toalhas.

- Claro, disse Teri, pegando as toalhas de Anita e arrumando-as debaixo do brao.  Vou
encontrar um lugar pra sentar e apreciar a paisagem. Ela tentou no olhar para o homem
enquanto dizia isto.

- Ta. At mais.

Teri viu sua irm sair, e ficou ali estudando os movimentos daquele homem. Ningum
tinha se juntado a ele. Ningum o cumprimentava. Era como se ele fosse um estranho,
um haole como ela, que no conhece ningum nesse piquenique para funcionrios do
hotel e amigos. Algo nele intrigava Teri.

Ele penteava os cabelos loiros para trs, e tinha o bronzeado de um salva-vidas,
combinando com o seu porte fsico. Ele parecia uma estrela de cinema do tipo lindo-
demais-pra-ser-verdade, mas ao mesmo tempo, parecia acessvel.

Teri olhou sobre seu ombro, para ter certeza de que Anita tinha ido, e ento, segurando
as toalhas, ela seguiu para a piscina, em direo ao homem misterioso.

Ela estava desenvolvendo um relacionamento com Mark, no estava? Por que ela
esperava que este homem a notasse?

Teri andou lentamente enquanto passava por ele. Ele olhou para ela, e ela deu um sorriso
amigvel e continuou andando. Agora ela tinha certeza de que j o tinha visto antes, mas
no sabia onde.

Talvez ele seja uma estrela de cinema, est hospedado aqui, e veio parar na rea dos
empregados.

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                                    Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri encontrou duas espreguiadeiras, e colocou uma toalha em cada uma delas. Ela
escolheu ficar de costas para o homem, para no ficar tentada a ver se ele tinha reparado
nela.

- Eu te conheo, disse uma voz grave atrs dela, que a fez pular de susto.

Teri no tinha percebido o homem se aproximando. Ela se virou e olhou para ele.

- Oi.

- Eu tenho certeza que te conheo, disse ele  mas eu no lembro de onde.

Eles ficaram sentados, examinando um ao outro. Teri vasculhou suas lembranas.

- Voc tambm me parece familiar. Mas no sei de onde nos conhecemos.

Algo dentro dela comeou a soltar fogos de artifcio.

- Meu nome  Scott Robinson, disse ele.  Nos conhecemos em Trujillo?

- Trujillo?

- Peru. O stio arqueolgico da tumba do sacerdote guerreiro Moche?

Teri no pode segurar a risada. Scott pareceu surpreso.

- Vou te contar, disse ela, ainda rindo.  J ouvi cantadas criativas, mas essa ganhou o
prmio!

- Eu to falando srio, ele disse.

- No, eu nunca estive no Peru, disse Teri, tentando suprimir o riso.  Voc j?

- H uns trs ou quatro anos. Voc me lembra algum que trabalhou na escavao
arqueolgica.

- Te garanto que no era eu. Disse Teri, seu sorriso se recusava a ir embora.  Eu dei
aulas no Oregon nos ltimos trs anos. E nunca dei aula de arqueologia. Eu ensino
espanhol.

- Talvez eu tenha te confundido com algum, disse Scott, procurando uma desculpa.  
o seu cabelo. Um homem poderia se perder nessa tranas.

Dentro de Teri, fogos de artifcio estouravam em alta velocidade.

- Acho que nos conhecemos de algum lugar, disse Teri, achando que ele estava indo
embora.  Voc me parece familiar tambm. E eu reconheo seu nome, mas no lembro
de onde. Meu nome  Teri. Teri Moreno. Te lembra alguma coisa?

- Teri, ele repetiu. Ele tinha uma linda voz, voz de locutor de rdio.  Teri Moreno. Ele
disse mais uma vez com os olhos fechados, como se estivesse anunciando o nome de um
ganhador  Teri Moreno! Seus olhos se abriram, ele ergueu o rosto e disse  Kelley High
School, Escondido, Califrnia.

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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Isso! Voc era do time de futebol, estava um ano  minha frente. Scott Robinson, maior
pontuador do jogo em casa contra os Vista.

- E eu lembro do Rick Doyle anunciando seu nome na reunio de fim de ano quando
voc foi escolhida para ser lder de torcida.

Teri comeou a rir de novo.

- Scott Robinson. No acredito. Acho que no falei com voc nenhuma vez em todo o
Ensino Mdio, mas  claro que eu sabia quem voc era! Eu tenho uma irm que se
formou no mesmo ano que voc. Anita. Ela se casou com Dani Romero. Voc conhece?

- Dani Romero. Acho que sim.

- Eles esto aqui. Dan trabalha aqui no Halekualii. Estou de visita aqui no vero.

- Que maravilha! Disse Scott  Eu comecei a trabalhar aqui ontem. J pensou se eu e Dan
trabalhamos no mesmo turno? Isso seria interessante, hein?

Teri percebeu que Anita estava vindo pelo gramado. Teri acenou e gritou:

- Aninha, aqui!

Quando Anita se juntou a eles, ela olhou para Scott como se o reconhecesse.

- Oi, disse Scott.

Teri o cortou.

- No fala o seu nome. Vamos ver se ela adivinha.

- Voc estudou no Kelley, n?

- Muito bem, foi a primeira pista, disse Teri.  Prossiga.

- Voc era do time de futebol. Anita aprecia estar se esforando para se lembrar de um
nome.  E voc saa com Rick Doyle.

- Trs de trs, disse Teri.  Lembra o nome dele?

Anita mordeu os lbios.

- No, disse ela finalmente  Eu sei que deveria me lembrar, mas oito anos  muito
tempo para a minha memria.

- Scott Robinson, disse ele  E eu me lembro de voc. Anita Moreno.

- Anita Moreno Romero, ela completou.  Lembra de Dani Romero? Nos casamos depois
que nos formamos e nos mudamos para Maui. Dani vai chegar daqui a pouco. Espero que
vocs tenham tempo de se encontrar.

- Na verdade, acho que trabalhamos juntos, disse Scott  Comecei ontem.



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- Que beleza, n? Disse Teri  irm.  E olha essa aqui: antes de vir pra c ele estava
escavando algumas runas maias no Peru. Quase divertido se comparado aos velhos
tempos em Escondido!

- Na verdade, eram as runas Mochica no norte de Trujillo. E isso foi h alguns anos. Eu
vim pra c de San Diego com Bob Newcomb. Lembra dele? Ele estava dois anos na minha
frente no Kelley.

Teri e Anita balanaram as cabeas.

- Acho que isso  velho demais pra mim, disse Teri.

- Espero que eu no seja, disse Scott, olhando para ela com seus olhos acinzentados.

Anita pigarreou e deu um passo para trs.

- Acho que vou conversar com uns amigos ali. Quando Dani chegar eu te procuro, Scott.
Ele vai gostar de ver voc. Anita pediu licena, lanando a Teri um olhar que dizia `trs 
demais aqui'.

Teri se sentiu confusa. Ela no podia negar ou ignorar os fogos de artifcio que se
acenderam dentro dela. Apesar de minsculos, eles existiam. Mas e o Mark?




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CAPTULO QUATRO

- J desceu ali na praia? Perguntou Scott depois que Anita saiu.

- No, quer ir l andar um pouco? Teri se surpreendeu ao se ouvir to atrevida, mas ela
no queria que ele fosse embora. Ela queria ficar conversando com ele, testando as guas
para tentar medir a profundidade. Na noite anterior com Mark, ela se sentiu navegando
em guas rasas, e que a relao que mal comeara estava prestes a bater contra as rochas.

- Quem  que est jogando cantadas agora, hein? Provocou Scott.

- Pensei que seria divertido conversar um pouco. Se estiver tudo bem pra voc...

- Ta mais do que bem, disse Scott.  Como Bob  a nica pessoa conhecida nessa ilha
toda, sua amizade  super bem-vinda.

- Voc conhece Dan e Anita, disse Teri enquanto eles andavam juntos na passarela que ia
para a praia.

- Ta, ento so quatro pessoas.

Eles passearam na praia por mais de uma hora, o assunto da conversa ia de um para o
outro, como um jogo de pingue-pongue. Scott contou sobre como seus quatro anos de
graduao no tiveram acontecimentos interessantes, e como ele se formou em histria.
Ele participou de uma tripulao de cruzeiro por dois anos e acabou no Peru, onde
trabalhou em uma escavao por quase trs anos. Ele voltou  Califrnia, tentando fazer
valer o seu diploma, mas desistiu. Parecia que a melhor coisa a fazer era navegar at as
ilhas com Bob, e foi o que ele fez. Eles vieram no veleiro de Bob, chamado Moonfish. A
viagem durou cinco semanas, sem muitos imprevistos.

- Parece ter sido uma bela experincia. Meus ltimos oito anos no foram to excitantes,
disse Teri, e comeou a falar sobre sua graduao em uma faculdade crist, com
licenciatura, e a mudana para Glenbrooke, Oregon, onde esteve nos ltimos trs anos. 
Eu estive no Mxico vrias vezes, em projetos missionrios., disse Teri, - E eu vim passar
uma semana aqui em Maui ano passado. E essas foram as minhas viagens internacionais.

- Deixa eu contar, disse Scott  Maui no ka oi.

- Eu s falo espanhol e ingls, disse Teri.  Voc vai ter que traduzir do havaiano pra
mim.

-  um ditado popular aqui. Nunca ouviu? Significa "Maui  o melhor".

- Eu tenho que concordar. Amo isso aqui, disse Teri.  O Peru tambm parece
interessante.

Eles pararam de andar e ficaram um do lado do outro, olhando para o mar com os
mastros dos veleiros brancos em contraste com o cu azul.

- Gosta de velejar? Perguntou Scott.


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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Nunca fui.

- Voc tem que velejar, disse ele  Que vai fazer na sexta de manh?

- Sei l, Teri no tinha certeza de como responderia o que ela sabia que ele perguntaria
em seguida.

- O Moonfish est aqui perto. Posso pegar quando quiser. Amanh eu trabalho, mas eu
queria velejar com voc na sexta de manh.

- Ta, disse Teri, sem hesitar.

- Seis horas  muito cedo?

- No, no... Quer que eu te encontre no cais?

- Eu pego voc em casa. Onde sua irm mora?

- Napili. Sabe onde fica?

Scott sorriu.

- Eu moro l.

Eles compararam os endereos e descobriram que moravam a trs quadras de distncia
um do outro.

- Isso facilita as coisas, disse Scott, enquanto eles subiam a trilha em direo ao grupo de
funcionrios do Halekualii.  Vou te contar que eu to gostando disso aqui. Ele passou o
brao pelos ombros de Teri, apertou, e soltou.

Ela se sentiu acolhida e comeou a pensar como seria velejar com Scott Robinson. A Teri
olhou para cima e gelou. Mark estava com Anita a poucos metros dali. Ele estava
observando Teri e certamente o viu abra-la.

Ai, no! O que o Mark vai pensar? E o que Scott vai pensar quando eu o apresentar a Mark?

Scott viu Anita e perguntou:

- Aquele perto da Anita  o Dan?

- No. Aquele  Mark Hunter. Ele  um bilogo marinho. Mora num barco em Lahaina.
Se voc j viu uma baleia de perto, vocs tm algo em comum.

- Vrias vezes, disse Scott.

Agora eles j estavam chegando perto, e Scott sorriu para Anita e estendeu a mo para se
apresentar a Mark:

- Ouvi dizer que voc sabe alguma coisa sobre baleias, disse ele.

- Acho que sim, disse Mark. Ele olhou para Teri.



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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

- Anita te disse que ns trs estudamos no mesmo colgio? Teri esperava que Mark no
enxergasse as coisas como realmente tinham sido. Ento ela desejou que Scott entrasse
na competio, assim Mark definiria onde ele estava. Ele queria um relacionamento com
Teri, ou no?

- O Dan ta por ai? Perguntou Scott.

- J jogando vlei pra l, disse Anita.

- L onde exatamente?

Anita olhou para Scott, depois para Teri e Mark. Teri tentou subliminarmente dizer Por
favor, me deixa sozinha com o Mark. Leva o Scott daqui.

- Eu to indo pra l, disse Anita.  Vem comigo?

- Claro. Scott virou-se para Teri. Ele a olhou de um jeito mais doce do que se olharia para
uma mulher que  apenas uma velha conhecida.  Te vejo mais tarde, disse ele, e seguiu
Anita at a quadra de vlei.

- Ento voc conseguiu vir, disse Teri assim que ficaram a ss. Ela andou at as cadeiras
onde deixara as toalhas e se sentou. Ela queria parecer casual e natural, no confusa
como realmente se sentia.

Mark sentou na cadeira ao lado e no disse nada.

- Bonito esse resort, n? Disse Teri, tentando engajar uma conversa.

Mark acenou.

- Sabe quando vo comear a servir a comida?

- Daqui a pouco.

- Ah, que bom, disse Teri. Essa conversa no vai pra frente nem pra trs. O que ta
acontecendo? Ano passado a gente tava tudo indo to bem. No entendo o que est
havendo.

- Preciso voltar logo, disse Mark.  Creio que nos veremos na igreja domingo.

Teri respirou fundo e disse:

- Domingo?

Por que Mark esperaria tanto para v-la? Ela colocou Scott no cenrio. Faltavam quatro
dias para o domingo. Seria bom que ela definisse algumas coisas at l, especialmente se
ela fosse passar um tempo com Scott na sexta.

- Ta, domingo, ela concordou.

Eles conversaram pouco, por uns dez minutos. Desconfortavelmente.



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- Acho que j vou, disse Mark, depois de mais uma de suas pausas estranhas.  Ento, a
gente se v. Ele sorriu, levantou da espreguiadeira, e disse  At domingo.

Fechando os olhos num suspiro fundo, Teri silenciosamente orou. Pai, o que est
havendo? Nada est acontecendo como eu imaginei. O que o Mark tem? E por que Scott ta
entrando na minha vida assim de repente? No sei o que o Senhor quer fazer. Eu no vim
aqui pra caar homem. Ou vim? Me sinto como uma adolescente. Minhas emoes esto
todas desordenadas. Talvez nenhum deles seja o homem certo pra mim. Oh, Pai, me
mostra o que fazer?

Antes que ela pudesse sussurrar seu `amm', Teri sentiu um jato gelado em sua perna. Ela
deu um salto e deixou sair um gritinho de surpresa.

- Opa, desculpa a! Disse um homem, enquanto tentava pegar os cubos de gelo e por de
volta no copo de plstico. Tinha derramado Coca Cola em sal perna e na toalha de praia.

- Eu no estava vendo pra onde ia, disse ele, com um sotaque bem caracterstico.
Australiano, talvez.

- Tudo bem, murmurou Teri, chutando os cubos no cimento.

- Espero que no se no se importe com o que vou dizer, mas parecia que voc estava
orando, disse o homem.

Teri olhou para ele, protegendo os olhos do sol com o brao, e respondeu:

- Eu estava.

Seu rosto, bronzeado como o de um caador ou aventureiro, tinha o semblante de
algum que confrontara um leo e fugira. Teri presumiu que ele fosse um pouco mais
velho que ela. Seu cabelo castanho estava partido de lado, mas alguns fios caiam em sua
testa larga. Era difcil dizer a cor de seus olhos, porque seus olhos se estreitaram quando
ele sorriu, mostrando marcas ntidas de ps de galinha ao lado dos olhos. E era isso o que
ele estava fazendo, estava parado, sorrindo para Teri.

- Gordon, disse ele estendendo a mo a Teri.  Gordon Allistar. Prazer em conhec-la.

Teri no sabia o que fazer com o cara. Ele tinha derramado a Coca s pra ter uma
desculpa pra se apresentar?

- E qual o seu nome? Perguntou ele, sentando na cadeira ao lado dela sem ter sido
convidado.

- Meu nome? Teri no pde evitar, mas seu lado brincalho falou mais alto.  Desculpe,
no est na lista. Assim como o meu telefone.

Gordon deu uma gargalhada. Teri ficou pensando se as pessoas estavam olhando, porque
ele estava rindo alto mesmo. Ela sequer pde evitar o riso. Quando ele riu, deu vontade
de rir junto. Seus olhos estavam fechados e seu rosto inchado. Ele parecia uma criana de
trs anos no meio de uma guerra de ccegas.


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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

- Acho que voc no est acostumada a ser cantada, como dizem.

- No, disse Teri, o mais firme que conseguiu.

Gordon se levantou para sair. Teri se sentiu orgulhosa por ter lidado com esse `rei da
cantada'. Ele piscou para ela e disse:

- Voc poderia facilmente ser a mulher.

- Que mulher?

Ele passou por ela, ainda com seu sorriso idiota. Tudo o que disse foi:

- At.

- Maluco, murmurou Teri, olhando em volta para ver se algum estava assistindo.
Ningum. Pelo menos no parecia. Ela manteve os olhos em Gordon enquanto ele
voltava ao bar e parava para conversar com o bartender.

Ela ainda estava acompanhando os movimentos dele quando Anita e Dan retornaram
com Scott.

- Mark j foi? Perguntou Anita.

- Mark? Ah, ta. Mark. , ele j foi. Teri focou em Scott, jogando pra longe da sua mente a
experincia com o australiano esquisito.  J d pra comer?

- Sim, por isso a gente veio te chamar, disse Anita.  Voc ta bem? Parece meio
atordoada.

- Eu? Ah, no, to bem. Foi s um idiota que derramou coca-cola na minha perna. Ela se
virou para Scott e disse  Ento, lembra do Dan no colgio?

- Sim, a gente estava no time de luta, disse Scott. Ele era to alto que ela tinha que olhar
pra cima. Ele certamente era um homem lindo e poderoso.

 Dan e Anita comearam a falar sobre o time, e Scott ofereceu a mo para Teri se
levantar. Ela aceitou e ficou de mos dadas. Depois, repentinamente tomando
conscincia do toque, ela o soltou.

Os quatro andaram para a fila da comida. Em um impulso, ela olhou para trs sobre seu
ombro, em direo ao bar. Gordon ainda estava La, s que ao invs de conversar com o
bartender, estava apoiado em um brao, olhando para Teri. Quando percebeu que ela
olhava para ele, levantou o copo de coca, em um cumprimento.

No acredito nisso! At parece que eu ca numa reedio do "Barco do Amor". Trs homens
interessados no mesmo dia. Quer dizer, Mark no est nessa lista, ento so dois homens
interessados. Um cara estranho vindo de sei l onde, e um homem incrvel ao meu lado.




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CAPTULO CINCO

- Eu tenho mesmo que ir andando, disse Scott, se levando na varanda de Dan e Anita 
Foi um timo dia. Acredita que somos praticamente vizinhos?

Teri sabia que j devia ser por volta da meia-noite. Eles se divertiram tanto que ela no
queria que esse dia terminasse. Os quatro ficaram juntos durante todo o luau no
Halekualii. Eles se sentaram em tapetes de palha e comeram o porco assado em uma
espcie de folha larga. Dan e Anita trataram Scott e Teri como se fossem um casal que
visitava a ilha deles, at ensinaram a eles como comer o tradicional poi, pegando a
comida cinza e pastosa com os dedos. A vieram os danarinos de hula, inclusive os
kahiko, danarinos mais velhos, e depois os danarinos do fogo taitianos. No por do sol,
teve o soprar da concha e o acender das tochas tiki.

Eles terminaram voltando para a casa de Dan e Anita para um caf e mais conversa.
Anita pegou os velhos anurios, e os quatro olharam as fotografias antigas contando
histrias do colegial. Teri percebeu que ela e Scott conheciam as mesmas pessoas, e
mesmo assim seus caminhos nunca se cruzaram.

Scoot parou e se alongou. Ele ainda parecia uma estrela do esporte, mesmo sua face
sendo agora de um homem maduro. Nos anurios ele parecia uma criana tentando
provar alguma coisa.

- Te vejo no trabalho amanh, Dan, disse ele  E mais uma vez, o convite est aberto,
Anita. Se quiser vir velejar com Teri e eu na sexta, ser muito bem-vinda.

- No, eu preciso mesmo trabalhar. Mesmo assim, obrigada.

Scott se virou para Dan.

- Temos que ver um dia de folga pra todo mundo. Seria timo ter vocs todos no
Moonfish.

- Parece timo mesmo, disse Dan.  Eu tenho economizado minhas frias para um
acampamento. Vamos escalar o vulco Haleakala, daqui duas semanas. Esperei quatro
anos na reserva.

- Reserva pra qu? Perguntou Scott.

- Alguns chals ficam dentro da cratera. So trs. Foram construdos nos anos 30, cabem
vinte pessoas. Nos ltimos anos vm se tornando muito populares, a administrao do
parque faz um sorteio entre os nomes para decidir quem vai pra esses chals. Meu nome
foi sorteado esse ano.

- Ta brincando! Scott disse.  Quer dizer que voc vai andar dentro da cratera?

- . Disseram que  diferente de qualquer lugar onde voc j esteve. Um pessoal l do
trabalho tem se inscrito no sorteio nos ltimos dois anos. Pode crer, nada vai me impedir
de ir nesse acampamento!

- Todos os vinte lugares esto ocupados? Perguntou Scott.
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- Na conta. Quer entrar na lista se algum desistir?

- Claro! Scott acenou, parecendo que Dan tinha oferecido a ele entradas para o Super
Bowl.  Pode por o meu nome. Fico na espera se um dos caras desistir.

- Sem problema, disse Dan.  Vou ver isso amanh no trabalho.

- Estarei l. Disse Scott.  To na lista hein. Ele virou para Teri e disse  E ns temos um
encontro marcado na sexta de manh no Moonfish.

Teri sorriu.

- Nos vemos l.

Scott saiu. Dan e Anita olharam para Teri.

- Que foi? Ela disse.

- Muito interessante, disse Dan.  Voc tem Mark na linha e Scott na rede. No sabia que
voc estava em uma competio de pesca.

- Ah, ta! Como se eu estivesse procurando pelo Scott. Aconteceu que a gente se esbarrou.
Ns viemos da mesma escola, tambm, n.

Anita aprecia preocupada.

- O que voc vai fazer com Mark?

- Como assim? Por que eu tenho que fazer alguma coisa com Mark? Ele disse que nos
veremos no domingo. Ento, eu o verei no domingo. Enquanto isso, vou velejar com um
velho amigo na sexta. H alguma antiga lei havaiana que diz que eu no posso fazer isso?

- Acho que voc tem que conversar com Mark antes de sair pra velejar, insistiu Anita.

- Por qu?

- Pra saber onde  que vocs esto.

Dan ouvia as duas com um sorriso malicioso no rosto.

- Eu no sei se quero ou se preciso saber onde Mark e eu estamos, respondeu Teri,
nervosa  Ele no  de falar muito, se voc no percebeu.

- Mais uma razo pra voc ir falar com ele, disse Anita  Ele viu voc com Scott hoje. Ns
dois vimos Scott te abraando quando vocs estavam voltando da praia. O que mais ele
faria?

- O que voc quer dizer com isso? Teri devolveu.  Ser que no posso aceitar as coisas
conforme elas vm?  da minha vida que estamos falando, lembra? Que diferena faz pra
voc se eu sa com dois homens na mesma semana? Isto , se voc considerar o jantar
ontem  noite um encontro. Parecia mais que vocs dois estavam tomando conta da
gente. Talvez eu precise ficar sozinha com Mark pra saber o que h. E talvez eu precise


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ficar sozinha com Scott pra ver se h alguma coisa.  meio difcil pra mim descobrir
alguma coisa com vocs me vigiando.

- Ah, me desculpe! Disse Anita, saindo da varanda em direo a casa em passos firmes. 
Quer ficar sozinha? Pois bem. Vou deixar voc sozinha. Boa noite!

Teri estava furiosa. Por que ela e Anita brigaram desse jeito? Uma hora elas estavam
completamente ligadas, como dois olhos de uma mesma cabea, outra hora elas eram
completamente opostas, vendo as coisas de ngulos completamente distantes.

- Vocs duas me deixam maluco, disse Dan depois de um tempo.  Nunca vou saber
como duas pessoas podem ser to iguais e to diferentes ao mesmo tempo.

- Ela fica querendo mandar na minha vida, disse Teri.  Ns nos daramos muito bem se
ela no quisesse bancar a chefona. Ou a minha me. Ou o que quer que ela esteja
tentando ser.

- Ela est tentando ser sua irm mais velha.

- Por que no pode s ser minha irm? Disse Teri, olhando para cima, procurando
alguma resposta no rosto de Dani.  Ela  s catorze meses mais velha. Por que tem que
ficar tentando mandar em mim?

- Sei l. Ordem de nascimento, eu acho. Por que voc tem que ficar o tempo todo se
defendendo? Voc provavelmente no vai querer ouvir isso, mas posso te dar um
conselho de irmo mais velho?

Teri olhou pra ele desconfiada.

- Vai com calma, Teri. Do que eu conheo do Mark, ele  um cara cabea, cristo de
verdade, e tem tima reputao. Agora tudo o que eu sei do Scott  a reputao que ele
tinha no colegial. Ns dois sabemos que no  l aquelas coisas. Ento, se as coisas
comearem a andar muito rpido com Scott, pode me fazer um favor e diminuir o passo
at conhecer ele melhor?

Teri no respondeu. Ela no gostava que Dan ficasse dando sermes, ainda mais depois
dos comentrios maternais de Anita. Mas ela tambm no queria ser uma fedelha
implicante. Ela queria ser bem esclarecida e racional, para aceitar o conselho de seu
cunhado com a maturidade de uma mulher de vinte e seis anos. Infelizmente, ela sentia
como se tivesse treze.

- Deus tem o homem certo pra voc, Teri, disse Dan antes de levantar e sair. Com um
bocejo, ele abriu a porta de vidro e acrescentou  Seja paciente, espere pelo cara certo.

Teri j tinha esperado. Enquanto ela esperava, assistiu o caso de amor de Dan e Anita
durante dez longos anos.  claro que Dan podia dizer "Deus tem o homem certo pra
voc". Ele e Anita se conheceram ainda no colgio. Eles se apaixonaram e casaram duas
semanas depois da formatura. Nenhum dos dois sabia nada sobre encontros s cegas ou
sobre ficar sentada em casa sozinha fins de semana seguidos. Nenhum dos dois sabia a
dor de terminar com algum depois de um relacionamento de quase um ano.

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                               Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri mexeu na borra do caf frio no fundo da xcara. Ela se irritava quando algum usava
respostas crists para situaes delicadas. "Deus est no controle". "Deus est
trabalhando". "Espere no Senhor". Teri conhecia todas. E ela sabia que, enquanto eles
guardavam essas verdades importantes, muitas vezes elas s significavam uma resposta
simples pra uma situao complexa.

Teri tinha que admitir que tambm usava isso, e muito. Ela e Anita aprenderam isso
enquanto cresciam como filhas do pastor de uma grande igreja hispnica no norte do
Condado de San Diego. Mas quanto mais velha Teri ficava, mais difcil era para ela
explicar as decepes em sua vida. Ela no podia acreditar que Deus poderia
caprichosamente escolher abenoar algumas pessoas em sua vida amorosa e ignorar
outras.

Olhando para o cu, ela notou vrias estrelas piscando.

- Ok, sussurrou  Estou esperando.




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CAPTULO SEIS

Na manh seguinte, Teri e Anita agiram como se no tivessem brigado na noite anterior.
Anita no estava se sentindo bem, o que a fazia se parecer mais com um gatinho do que
com um tigre. Ela trabalhou silenciosamente em seu quarto, e Teri se passou o dia lendo
na varanda, ou `lanai', como Dan e Anita chamavam, e assistindo televiso. Finalmente,
ela decidiu agir para a meta de praticar exerccios durante todos os dias em suas frias.
Ela j tinha enrolado demais com essa histria.

- Vou fazer uma caminhada, gritou Teri para Anita, que estava com a porta fechada.  Se
eu no voltar em uma hora pode chamar a polcia.

Anita no respondeu. Teri silenciosamente abriu a porta do quarto e viu que Anita estava
encolhida na cama, cochilando. Seu computador estava ligado. Parecia que as ltimas
noites em claro finalmente a levaram a nocaute. Teri andou na ponta dos dedos at a
escrivaninha, escreveu um recado em um post-it e colou na tela do monitor. Depois ela
saiu do quarto e fechou a porta.

L fora uma dzia de crianas brincava na rua. O cu estava coberto de finas nuvens cor
de rosa, entrecortadas por flashes brancos da luz solar. Teri andou em direo  praia.

Ela sabia que era quase um quilmetro at a areia, mas ela no se importava. Ela estava
em Maui. O que era um quilmetro de caminhada para ir  praia e voltar? No Oregon ela
levaria mais de duas horas dirigindo at a costa, e quando chegasse, estaria to frio que
ela mal poderia caminhar na areia. As areias quentes de Maui convidavam seus ps a se
abrigarem ali naquela tarde, e ela obedeceria.

O vento a acompanhou enquanto ela andava a passos largos enquanto ela andava no
bairro residencial em direo  estrada.  sua frente, a majestosa Molokai, a ilha vizinha,
surgia em grande e verde resplendor. Parecia estar to perto, como se ela pudesse chegar
l nadando.

Ela j tinha ouvido de praticantes de wind-surf atravessarem os 15 quilmetros entre o
Canal Pailolo em Maui a Molokai em um dia de bastante vento. Ela imaginou se algum
estaria tentando fazer isso hoje. Parecia estar ventando bastante de onde ela estava.

Quando Teri atravessou a rua principal, o vento diminui consideravelmente, barrado
pela continuidade das construes  condomnios, hotis, resorts. Eram como uma
extensa barricada que no s bloqueava o vento, mas tambm impedia a passagem de
Teri at a areia.

Ela atravessou os jardins de um dos hotis e se dirigiu  praia. Tirando os chinelos, ela
mexeu os dedos na areia quente e branquinha. Fechou os olhos e apreciou o momento.

Ento, ao invs de caminhar na costa, Teri encontrou um lugar para se sentar na areia.
Ela ficou olhando as pessoas. Alguns metros  direita, um pai com uma barriga que saa
pra fora do calo gritava comandos para seus dois filhos tentando `surfar' uma ondinha
numa prancha de isopor. A garotinha parecia estar quase chorando, quando o pai disse:


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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Vai, tenta de novo! Dessa vez olha pra cmera e acena pro papai. Isso! Vai pegar essa
onda, querida!

Uma mulher em frente a Teri vestia um minsculo biquni. Sua pele era de um vermelho
forte. Ela estava deitada de bruos com culos de sol, apoiada nos cotovelos, enquanto
lia um romance bem grosso. Teri percebeu que ela passava as pginas rapidamente,
como se tivesse hora pra terminar a leitura.

Casais passeavam e criancinhas cavavam a areia com pazinhas de plstico. Todos
pareciam estar ocupados em suas frias, querendo ansiosamente relaxar. Teri prometeu a
si mesma que iria descansar. Ela iria levar tudo em um ritmo mais lento, saboreando
cada momento.

Ela tentou no pensar em casamento, ou em sentar na praia um dia olhando seus filhos
brincando. Mas era impossvel. A viso e o som de famlias, crianas e casais estavam em
toda parte.

Engraado, mas ela no se sentia to sozinha enquanto trabalhava. Sua vida em
Glenbrooke era muito cheia e rica. At agora essas frias, que supostamente seriam para
ajud-la a relaxar e voltar renovada, s trouxeram confuso sobre Mark e esperar pelo
casamento. No era uma combinao interessante.

Teri andou de volta. Ela sabia que as respostas para o seu corao no eram simples.
Casar-se com a pessoa certa no quer dizer que sero sempre felizes e que todos os
sonhos de algum sero realizados.

At sua irm passava por turbulncias. Anita abortou duas vezes. Se passaram muitos
anos desde que ela perdeu seu ltimo beb, e Teri sabia que Anita tinha medo de tentar
novamente.

Como seria melhor, Teri pensou, se eu pudesse estar contente em qualquer situao.

Decidida a descobrir um nvel mais profundo de contentamento, Teri se concentrou em
sentir o cheiro das flores na sua caminhada de volta pra casa. Ela ouviu cada pssaro e
brincou com a ideia de mudar-se para a ilha. Hoje parecia uma boa ideia.

Seu bom humor continuou na manh seguinte, quando ela se encontrou com Scott. O
caminho para Maalaea Harbor era lindo, Teri suspirava com a vista, os sons e os
perfumes por todo o caminho.

- Acho que poderia viver aqui, disse ela.

- Meu plano  ficar um bom tempo aqui, disse Scott  No me importaria nem um pouco
se voc estivesse nele.

Teri no estava esperando essas palavras. No que Scott estava pensando? Eles tinham se
conhecido s h alguns dias.

- Vai procurar emprego por aqui? Disse Scott.

- Ah, sei l. Ainda no amadureci a ideia.

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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Tenho pensado muito no futuro nesses ltimos dias, disse Scott.  O engraado  que
voc  o centro da maioria desses pensamentos.

Teri no olhou pra ele. Ela no tinha certeza de como deveria encarar seus comentrios.

- Chegamos, disse Scott, entrando no cais.  Voc vai amar o Moonfish. Pode pegar as
toalhas no banco de trs? Vou pegar a caixa trmica e a mala de lona ali atrs.

Teri seguiu Scott at o deque, onde ele apontava para o branco veleiro.

- Ali est ela. No  uma belezinha?

O barco parecia igual a qualquer outro para Teri, mas ela no estava mesmo criando
expectativas sobre o que veria.

- No acredito que voc veio de San Diego pra c nesse barquinho.

- Tem tanta gente que atravessa em veleiros menores que esse...

- Moonfish  o nome de uma espcie de peixe de verdade? Perguntou Teri quando eles
entraram a bordo.

Scott ofereceu sua mo a ela e disse:

- Sim.  um peixe comprido, fino e prateado. A primeira vez que eu vi um foi no Peru.
Eles tem olhos bem grandes e a boca deles  bem engraadinha, com os cantos pra cima.

- Nunca ouvi falar, disse Teri. Mas ela no entedia nada de vida marinha mesmo.
Descobriu isso rapidamente enquanto Mark falava sobre baleias.

Pensar em Mark foi engraado. O oceano era o domnio de Mark, mas Teri estava indo
ao mar com outro homem. Isso era esquisito. Por um momento, Teri pensou na chance
bizarra de se encontrar com Mark no meio do mar.

- Aqui, segura isso aqui, ta bom? Disse Scott, levantando uma corda grossa.  Vou
precisar de uma ajudinha pra sair do cais. Eu vou falar o que voc tem que fazer e voc
tenta ser bem rpida, ta?

- Sim, senhor capito!

Scott riu do bom humor de Teri, e quando ele passou por ela, esbarrou o brao em seu
ombro. Teri no conseguiu evitar imaginar se ele notara a qumica que eles tinham. Isso
a intrigava, pois a fazia se sentir um tanto fragilizada.

Pelos prximos vinte minutos, Scott gritou algumas ordens, tentando dar um curso
rpido a Teri sobre a dinmica de um veleiro e como control-lo. Eles chegaram em alto
mar sem problemas. Logo eles estavam deslizando no oceano azul profundo, sentindo o
spray salgado em seus corpos.

- Voc estava certo, gritou Teri atravs do vento  Eu to amando isso aqui!




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Scott sorriu de volta, parecendo satisfeito. Ele esteve o tempo todo ocupado, controlando
a vela, enrolando uma corda ali, fazendo qualquer coisa ali.

- Vamos mais pra frente?

- Diminui um pouco, gritou Teri de volta.  Vamos relaxar um tempinho.

Scott abandonou sua batalha contra o vento feroz e folgou as velas. Quase que
instantaneamente, o barco diminuiu a velocidade, e tudo em volta parecia silencioso.
Eles ainda estavam se movendo, flutuando no oceano, e o vento ainda soprava os cabelos
de Teri. Mas estava mais calmo. Devagar. Do jeito que ela queria passar o tempo em
Maui.

- Ta com fome? Disse Scott. Ele foi para onde Teri estava sentada, na frente do Moonfish.
Ela estava com os ps em cima da caixa trmica.

- Com sede, disse ela, mudando de posio para que Scott abrisse a caixa.

- Framboesa ou cereja? Perguntou ele.

- Framboesa ta bom. Quando ele estendeu a ela uma garrafa de vinho, ela perguntou. 
No tem outra coisa?

- No, s framboesa e cereja.

- To falando tipo suco ou refrigerante. Eu no bebo lcool.

Scott olhou para ela como se no acreditasse no que acabara de ouvir.

- Por que no?

- Bem, porque... Porque no. Nunca bebi.

- Nunca?

- No, nunca.

- Nunca tomou uma cervejinha?

- No.

- Uma taa de vinho ou champanhe? Nem em um casamento?

- No. Nunca.

- Ento como voc sabe que no gosta?

- Eu no disse que no gosto. Eu s no bebo.

- Mas por qu? Perguntou Scott, tomando um gole da garrafa.

Agora Teri estava atordoada. Ningum a tinha desafiado assim antes. No colgio, quando
ofereciam bebidas alcolicas, ela tinha vrias razes as quais seus amigos sempre
respeitaram  seus pais no deixavam, ela era menor de idade, ela era crist, e por isso

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no bebia. Agora o nico motivo que ela tinha era o fato de ser crist. Mas mesmo assim,
ela tinha um monte de amigos cristos que bebiam, e eles pareciam ser cristos de
verdade, com um grande e forte relacionamento com Deus.

-  uma escolha minha. Pra mim no  certo porque eu sou crist. No quero dizer que
cristos no possam beber com moderao se eles quiserem, mas eu no quero.  isso.
Escolhi assim.

Scott estendeu a garrafa em brinde a ela.

- Uma mulher virtuosa, disse ele.  Mais uma razo pra eu ter voc por perto. Voc seria
uma tima influncia pra mim.

Ento, antes que Teri pudesse perceber o que estava acontecendo, Scott se inclinou e a
beijou.




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CAPTULO SETE

- E a? O que voc fez? Perguntou Anita, olhando para a irm enquanto ela relatava os
acontecimentos desta manh.

- Primeiro eu congelei. No conseguia me mexer. Eu mal conseguia respirar! A ele veio
pra me beijar de novo, e eu desviei.

Anita esperou. Ela estava com seu uniforme de garonete  camisa branca e saia preta,
parecendo uma advogada.

- Eu disse a ele que isso estava acontecendo rpido demais, e eu precisava levar as coisas
mais devagar. A ele disse que gostava disso em uma mulher e terminou de tomar o
vinho.

- Foi s? Disse Anita  No aconteceu mais nada?

Teri parou.

- No, ns s conversamos por uma hora, por a... Da a gente arrumou as velas de novo e
voltamos. Ele me convidou para jantar no domingo  noite.

- E voc disse sim? Perguntou Anita.

- Mas  claro que eu disse sim!

Anita olhou para o teto da cozinha e balanou a cabea.

- Que foi?

- Voc confia nele?

- Claro que confio! Por que no? Ele me respeitou hoje. At me chamou de mulher
virtuosa porque eu no bebo. Por que eu no deveria sair com ele de novo?

- Teri, quando  que voc vai ligar esse crebro? A gente ta falando de Scott Robinson.

- Do que voc ta falando? Acha que no sou boa o bastante para um homem como Scott
Robinson?

- Boa o bastante? Voc  boa demais pra ele! O cara  um conquistador. Ele joga um
verde e voc cai na dele! Eu no acredito nisso. No acredito nisso! Ainda mais quando
voc est se relacionando com Mark Hunter. Ele sim  um homem virtuoso.

- Ta. E por que esse homem virtuoso no me procura desde que cheguei, nem me
chamou pra sair, nem nada?

- Talvez porque ele viu voc com Scott no luau. Eu disse que voc tinha que falar com
ele. Anita estava com aquela cara de `eu avisei'.

Teri odiava quando sua irm dava uma de superior.



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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Sinceramente, no cabe a voc decidir com quem eu vou sair. Disse Teri, entre os
dentes.

Ela levantou do banco da cozinha, pronta pra sair pisando firme. O problema de uma
casa pequena  que no tem muito pra onde ir.

- S me responda uma coisa, disse Anita, elevando a voz.  Desde quando voc sai com
caras que no so cristos?

Teri se virou para ela.

- Quem disse que ele no  cristo?

- Ah, e por acaso ele ?

- Voc o ouviu falando aquele dia. Ele ia  igreja com Rick Doyle e os outros rapazes no
colgio. Da na faculdade ele se distanciou. Mas agora ele est voltando.

- Ele andou afastado muito tempo, disse Anita.

- Sabe qual  o seu problema? Voc fica julgando as pessoas, disse Teri.

- Ah, ? Bem, eu adoraria ficar discutindo isso aqui com voc, mas tenho que trabalhar.
Conversamos mais tarde, Teri.

- Voc no  minha me! Teri gritou nas costas de Anita enquanto ela saa pela porta da
frente. A porta bateu forte, e Teri soltou um frustrado "Grrr!". Era ridculo brigar com sua
irm desse jeito.

Teri percebeu que, como ela e Anita cresceram juntas, desenvolveram padres de
comportamento ao interagir uma com a outra. Desde que Anita se mudou para Maui,
elas se viram muito pouco. As duas no sabiam como se relacionar como duas adultas.

Teri foi at a geladeira procurando algo para beber. Ela viu uma garrafa de gua com gs.
Framboesa. Parecia com a garrafa de vinho com framboesa que Scott oferecera a ela
naquela manh.

Por que Scott no podia ter levado gua com gs? Isso teria eliminado o conflito pela
raiz. Tirando a tampa da garrafa, Teri foi para o lanai.

A rea coberta era separada da rea de jantar por uma porta de vidro de correr. Por todo
o lanai, arbustos de hibiscos estavam cheios de flores vermelhas, e uma rvore de
plumrias florescia ali perto. A vegetao fazia uma barreira natural entre os vizinhos e
proporcionava uma vista maravilhosa. Nesta noite, os hibiscos deixavam sua fragrncia
pela brisa fresca.

Teri mentiu para Anita. Quer dizer, no exatamente mentiu. Ela fez o incidente no
veleiro parecer inofensivo, como se tivesse suavizado as coisas. Terminou assim, mas o
que Teri omitiu na verso que contou a Anita foi a discusso que Scott e Teri no
conseguiram resolver.



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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri no sentiu que deveria contar os detalhes do encontro com Scott a Anita. Anita s
iria dar um sermo, e ela no precisava disso. No de um sermo. O que ela precisava
mesmo era de tempo para pensar, para resolver as coisas. Ela estava contente porque
Dan e Anita estavam trabalhando em restaurantes esta noite. Precisava ficar sozinha.

Agora, no frio da noite, Teri estava sentada no lanai, tentando entender o que tinha
acontecido entre ela e Scott. Quando ele ia dar um segundo beijo, ela se esquivou e disse
"Est acontecendo rpido demais, Scott. Podemos ir mais devagar?". Isso no foi menos
de vinte minutos depois de ele ter dito que gostava disso em uma mulher e terminar seu
vinho.

Depois de ela ter dito a ele que as coisas estavam indo rpido demais, ele a chamou para
sentar e conversar. Ela se sentou de frente pra ele, na caixa trmica, com as mos no
ventre.

Teri disse que no gostava que tirassem vantagem dela e ela sentiu como se ele estivesse
tentando fazer isso. Scott ficou na defensiva e disse que ela precisava refrescar a cabea,
que era rgida demais.

- Eu sei que seu pai  pastor e que voc cresceu com esses princpios. Eu acho isso timo.
Srio mesmo., disse Scott  Mas acho que o que me incomoda em alguns cristos  que
eles esto to trancados em seu modo de ver o mundo que no tm uma viso clara da
realidade. Eles acham que todos deveriam ser como eles, mas isso no acontece. Eles se
distanciam do resto do mundo, sentam, e condenam a todos que no so como eles.

- Eu no sou assim, disse Teri.

- Eu no to falando que voc . S to dizendo o que eu penso. Seus princpios so
timos. Admirveis. Honrosos, at. S que o resto do mundo no tem esse mesmo ponto
de vista.

- Bem, mas deveria. Despejou Teri, e imediatamente desejou no ter sido to brusca. Sua
resposta foi exatamente o que Scott estava dizendo: tendenciosa, julgadora, rgida. 
Quer dizer, o mundo no seria mais seguro se todas as pessoas tivessem valores morais
mais elevados?

- Claro. Mas eu acho que voc no deveria esperar que o mundo todo vivesse sob suas
regras.

- Agora voc  quem est julgando! Respondeu Teri.  O cristianismo no se baseia em
um monte de regras.  um relacionamento vivo e crescente com Cristo.

- E todas as regras que os lderes cristos impem sobre voc, como a de no ingerir
bebida alcolica.

Teri no respondeu imediatamente. Scott tinha um ponto.

- Acho que preciso pensar nisso. Ainda estou decidindo o que  certo pra mim.

- Ento toma um vinho comigo. Como voc pode decidir sem experimentar?


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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- No quero, disse Teri.

- Por que no? Scott parecia irritado.

- Preciso pensar mais nisso, disse Teri defensivamente.  Pode me dar um pouco de
tempo e de espao pra pensar?

- Claro. Scott a olhou gentilmente.  Ns temos tempo. Pode ter todo o tempo que
precisar.

Teri apertou as mos sobre seu ventre. Ela ergueu o queixo e deixou o vento soprar em
seu rosto.

Scott sorriu para ela.

- Eu gosto que voc tenha valores morais bem fortes e seja zelosa com suas crenas. Voc
poderia mesmo ser uma tima influncia pra mim. E quem sabe, eu poderia ter uma
pequena influncia sobre voc.

Por que Scott disse que ela seria uma boa influncia pra ele? Ser que ele, o homem que
viajou pelo mundo, precisava ser fortalecido? Que tipo de coisas ele experimentara? O
que o fez se afastar do cristianismo, e o que o trazia de volta agora? Ser que ele estava
certo sobre ela ser rgida demais? Ser que ela julgava os outros de um padro injusto e
irreal? Ser que ela tem vivido dependente de um monte de regras que precisam ser
readequadas?

Antes que pudesse chegar a alguma resposta, Teri sentiu seu estmago vazio. De repente,
ela teve um desejo de comer pizza, e tinha que ser agora. Deixando de lado seus
pensamentos sobre Scott, vinhos, beijos e regras, ela encontrou a lista telefnica e
encontrou uma pizzaria que anunciava entrega grtis.

- Sim, vou querer com bacon canadense, abacaxi e azeitonas.

- Ok. Fica pronta em mais ou menos meia hora. Preciso de seu nome e endereo.

Teri deu a informao e desligou pensando `No posso esperar meia hora!'. Ela foi 
geladeira novamente esperando encontrar alguma coisa pra distrair o estmago. Na
geladeira tinha meio mamo, um resto de salada, uma fatia de po e sete ovos. Na parte
de cima tinha uma cenoura e ela decidiu que era o melhor que ela poderia encontrar no
departamento de enganadores de estmago.

Ela tentou assistir televiso enquanto esperava. Logo que o primeiro programa acabou,
ela olhou o relgio. Tinha passado quase meia hora que ela ligara. Por que estava
demorando tanto?

O programa seguinte comeou e a distraiu por mais meia hora. Agora ela estava
intrigada. Qual era o problema? Ela foi at o telefone e comeou a procurar na lista o
nmero da pizzaria quando a campainha tocou.

Teri foi  porta murmurando:


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- At que enfim.

Ela abriu a porta e deu de cara com o cara que tinha derramado coca-cola nela no luau.

Ele parecia estar to surpreso em v-la quanto ela. Ele olhou para o pedao de papel no
topo da caixa de pizza com um enorme sorriso na cara.

- Teri, disse ele com sotaque australiano.  Ento, seu nome  Teri? Ele comeou a
gargalhar alto, como se no tivesse mais nada nesse mundo. Teri imaginou se os vizinhos
estavam indo at as janelas para ver o que estava acontecendo.

- Quanto eu devo? Disse ela categoricamente, nada emocionada em ver que essa pessoa
em particular agora sabia seu nome.

- Teri cinquenta e sete. Ele parecia estudar o seu rosto enquanto ela buscava o dinheiro
no fundo da bolsa.  Irm da Aninha, certo?

Teri olhou para cima, surpresa por ele conhecer Anita. Mas a comunidade ali era
pequena. Talvez ele j tivesse entregado pizza pra Dan e Anita. Ela acenou
obrigatoriamente e lhe estendeu o dinheiro. Ela tinha includo um dlar de gorjeta.

- timo! Obrigada, Teri, disse ele, pegando o dinheiro e entregando a ela a caixa de
pizza. E ficou l, rindo pra ela.

- Ta... ento... obrigada. Disse Teri. Ela ia fechando a porta, parou faltando poucos
centmetros. Ele ainda estava l, olhando para o nada como se fosse cair na gargalhada
outra vez.  Algo errado? Perguntou ela educadamente, olhando para ele.

- Nem um pouco. Tudo to certo quanto poderia estar. Ele ainda estava l, parado.

- Que bom. Agora usando a palavra dele, ela disse  Certo. Agora boa noite.

- At, disse ele, e correu at o carro, que ele tinha deixado ligado. Teri percebeu que ele
se atrapalhou com as prprias pernas e quase tropeou no meio-fio.

- Bizarro, disse ela, balanando a mo e fechando a porta. Ela se certificou de que estava
trancada. Ento, sentando no sof-cama em frente  TV, ela tirou o primeiro pedao de
pizza. Mas antes que ela pudesse dar uma mordida, a imagem do risonho entregador de
pizza veio a ela, e ela no pde deixar de rir. No era como se ele estivesse rindo dela.
Nem era uma risada de doido. Era desse homem, que se aproximava da meia idade, que
estava to cheio de alegria que explodia para fora dele, na forma de uma enorme
gargalhada.

Teri mordeu a pizza, e ainda tinha um sorriso em seu rosto. Ela repetiu a frase em seu
sotaque de mentira "To certo quanto poderia estar!", e caiu na risada, percebendo que
no tivera muitos motivos para sorrir hoje. De um modo estranho, aquele risonho a
confortara.




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CAPTULO OITO

Domingo de manh chovia. No muito, era uma chuva fina, como se Deus estivesse
usando um spray gigante para borrifar nesse terreno tropical. A umidade fez o cabelo de
Teri ficar cheio de volume. Ela queria poder prender o cabelo atrs ou em cima, mas o
volume fazia parecer impossvel qualquer coisa que no fosse deix-lo solto sobre suas
costas e ombros. S um faco poderia domar essa juba hoje.

- Ta pronta? Gritou Dan pela porta fechada do banheiro.

Teri saiu e disse:

- To pronta. Cad Aninha?

- Voltou pra cama. No est l aquelas coisas.

- Ela ta bem?

- Vai ficar. Na volta me lembra de parar pra comprar 7-Up e biscoitos, disse Dan.

Eles dirigiram ao norte do Resort Halekualii.

- J veio na nossa igreja?

- No.

-  diferente do que voc ta esperando. Ns amamos.  uma pena que as pessoas do
continente no se sintam assim.

- Quer dizer que ns haoles no nos encaixamos na sua igreja?

Dan parecia surpreso e um tanto satisfeito de que ela tivesse lembrado da palavra
havaiana.

- No. Quis dizer que no  como voc est acostumada. S isso.

Quando eles estacionaram no ptio da igreja, Teri achou o prdio encantador. A
aparncia os convidava a entrar, com uma torre alta e muitas rvores em volta. Pintada
de branco e verde escuro, a estrutura era de uma das igrejas construdas pelos
missionrios a mais de cem anos. Dezenas de cristos se reuniam no tapete de grama em
volta da igreja.

Ela notou vrias senhoras na porta da frente com vestidos soltinhos com estampas
havaianas, com cheirosos leis de plumria em seus braos. Ela imaginou que aquelas
eram as recepcionistas. Tambm imaginou que aquela igreja deveria ser meio tradicional.
Talvez parte do culto fosse em havaiano.

Dan cumprimentou alguns amigos enquanto eles caminhavam pelo gramado, passando
por grupos de adultos que conversavam e crianas correndo pra l e pra c. Ningum
parecia estar com pressa. Quando eles chegaram  escada, a mulher  direita
cumprimentou:


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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Bem-vindos. Aloha.

Ela colocou o lei no pescoo de Teri e a beijou na bochecha.

- Obrigada, disse Teri.

Dan estava atrs dela, e cumprimentou com um beijo no rosto cada uma das mulheres.

Teri entrou na igreja, esperando alguma msica suave e mulheres de cabelos brancos
orando nos bancos. Ao invs disso, as pessoas estavam conhecendo a igreja, enquanto
um pequeno coro infantil cantava ao piano. Foi quando ela ouviu de novo  a peculiar e
jovial risada do entregador de pizza.

- Ei!, disse Dan.  Gordon voltou! No acredito, ele convenceu Kai a vir  igreja! Olha l.
Kai  o bartender do bar da piscina no Halekualii.

Teri olhou para Gordon e para o bartender. Ela pensou ter visto Kai no luau. Ele tinha
um lei como Teri, prova e que ele, assim como ela, era um visitante.

- Voc tem que conhecer o Gordon, disse Dan.

- J nos conhecemos, disse Teri cuidadosamente. Ela olhou para longe antes que Gordon
a visse, e propositadamente ficou de costas para ele. Ela no se sentia nem um pouco
melhor em saber que aquele maluco era amigo do Dani.

- Onde voc conheceu o Gordo?

- Gordo? Teri repetiu   assim que vocs o chamam? Ela no notou que ele estava atrs
dela.

- Sim, o pessoal me chama de Gordo, disse ele.  Sabe de algo que eu no sei? Seus olhos
se apertaram enquanto ele sorria para Teri. Ele parecia um pouco diferente de quando
entregou aquela pizza. Talvez mais jovem. Ou limpo. Ou sei l.

-  que `gordo'  uma palavra em espanhol, disse Teri com cuidado. Ela se sentia
encurralada.

- Acho que j ouvi isso antes, disse ele.  O que significa?

Teri olhou para Dan esperando ajuda. Ele ficou em silncio.

- Quer dizer gordo, disse ela, em voz baixa.

A risada de Gordon preencheu todo o ambiente.

- Bem, talvez um dia possa ser, disse ele  mas no por enquanto. Ele bateu na barriga e
estendeu a mo para cumprimentar Dan.  Que bom te ver, Dan. Conhece Kai, n? E Kai,
esta  Teri.

- Eu lembro de voc naquele dia do luau. Disse Kai a Teri. Ele tinha um sorriso no rosto,
como se soubesse de algo que ela no sabia.

- Onde est Aninha? Perguntou Gordon.

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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- No estava se sentindo bem.

Gordon sorriu.

- Ah, claro. Enjo de grvida.

Teri olhou para ele. Que piada cruel. Como esse cara podia dizer uma coisa to
impiedosa, sabendo que Dan e Anita tentaram tantas vezes ter um beb?

- No, disse Dan rapidamente  Ela no est grvida.

- Tem certeza? Gordon fez uma cara de `duende'.  Eu tenho pedido a Jesus para tocar
seu ventre. No me surpreenderia se ele os desse esse prazer agora enquanto a irm dela
est aqui. Ele olhou para Teri. Seus sinceros olhos azuis encontraram os dela, e ele
permaneceu a olh-la.

Teri desviou o olhar, e quando o fez, notou Mark chegando da porta dos fundos. Ela
acenou com avidez, convidando-o a se juntar a eles. Depois das apresentaes feitas, Dan
sugeriu que eles encontrassem um lugar para se sentar antes que os bancos enchessem.
Teri seguiu seu cunhado e os quatro homens e Teri se sentaram em um banco de
madeira escura. Ela no se deu conta na hora, mas acabou se sentando entre Mark e
Gordon. Mark a fazia se sentir segura, mesmo com essa relao incerta deles. Mas se
sentar ao lado de Gordon, ela se sentia constrangida, como se ele estivesse invadindo seu
espao de alguma forma.

As crianas na frente terminaram o ensaio e correram para se sentar perto de seus pais.
Em poucos minutos, a igreja estava cheia. Mais duas pessoas se sentaram no banco onde
eles estavam, o que fez Gordon chegar ainda mais perto dela. Ela tentou deslizar pra
mais perto de Mark sem encostar demais nele.

Nessas horas Teri detestava suas coxas. Elas eram bem grandes comparadas ao resto do
corpo. E quando ela se sentava elas se espalhavam, ficando ainda maiores. Ela olhou pra
baixo e percebeu que suas coxas eram bem maiores que as de Mark. Ser que ela poderia
confiar em um homem com coxas mais finas que as dela? Ela no se sentia assim com
Scott. Scott era um homem grande, o que a fazia pensar que ele era exatamente o seu
nmero. Ela queria que ele estivesse sentado ao seu lado ao invs de Gordon, ou mesmo
de Mark.

O que aconteceria com seu relacionamento com Mark? Teri esperava que ele a
convidasse depois do culto para uma longa conversa a dois.

Um grande havaiano com camisa florida entrou pelo corredor central da igreja,
cumprimentando a todos no caminho.

- Este  o dia que fez o Senhor, disse ele em sua voz rica e cheia.  Alegremo-nos e
regozijemo-nos nele!

Logo que ele chegou  frente da igreja, a congregao ficou em p e algum comeou a
tocar um cntico animado ao piano. Bateria e guitarra acompanharam.



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                               Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri no tinha percebido todos esses instrumentos antes, no lado esquerdo da igreja. O
som era revigorante, nem muito alto, nem muito suave. Ela gostou.

Ento o homem  frente comeou a cantar e a congregao acompanhou. No tinha
nenhuma letra projetada ou impressa para acompanhar. A cano parecia espontnea e
alta.

Teri se lembrou de uma pequena igreja que ela ajudara a construir numa vila mexicana
chamada Nueva. Ali as pessoas cantavam com o mesmo fervor, o mesmo amor a Deus.
Pondo de lado todas as preocupaes sobre Mark, Gordon ou mesmo sobre suas coxas,
Teri fechou os olhos e cantou.

Depois do culto, todos permaneceram no gramado, prestigiando a sombra fresca. O
perfume das plumrias ao redor do pescoo de Teri enchia suas narinas e a fazia sorrir.
Ela j tinha dito a Dan e a outras pessoas que amou a igreja deles. Kai era reservado em
seus comentrios, dizendo que esse negcio de igreja era uma experincia nova para ele,
mas ele queria voltar na prxima semana com sua namorada.

Agora Teri esperava que Mark dissesse alguma coisa. Tudo o que ele tinha que perguntar
era "Teri, quer ir almoar?" ou "Teri, podemos conversar a ss um instante?". Qualquer
coisa para iniciar uma conversa. Mas ele no falou nada. Ele nem mesmo parecia querer
dizer alguma coisa. Teri no podia entender como algum poderia ser to tranqilo,
especialmente quando para ela eles obviamente precisavam testar esse relacionamento,
pra ver se saa algum cachorro desse mato.

Anda, Mark. No me faa tomar as rdeas!

Eles andaram todos juntos at o estacionamento. Mark se despediu, pegou o carro e foi
embora. Agora Teri estava furiosa. Como ela deveria interpretar essa atitude? Se ele
queria namorar com ela, bem. Agora, se ele no queria v-la enquanto ela estivesse aqui,
ela poderia viver com isso. Mas esse silncio era ridculo. O que quer que tenha
acontecido entre Teri e Mark no vero passado, definitivamente desaparecera. Puf! Foi-
se! Ao menos era o que ela estava pensando. Era difcil fazer um julgamento desses
quando eles sequer se falaram cara a cara.

Teri deu um aceno meio sem vontade a Gordon e Kai. Gordon sorriu para ela e disse seu
"At!", e Teri se jogou no assento do passageiro do carro de Dan. Qual  o problema com
Mark? Tem outra mulher na jogada? timo! S me avisa. Ser que  comigo? Ele mudou de
idia desde quando me escreveu aqueles cartes dizendo que gostou de estar comigo e
esperava pelo meu retorno neste vero? Como  que ?! Vou ficar maluca esperando ele
falar comigo. Assim que a gente chegar em casa, vou ligar pra ele. Ns vamos ter uma
conversa ntima e acertar as coisas.

Sentindo-se decidida a ligar para ele imediatamente, Teri se frustrou quando Dan parou
em uma loja de convenincias no caminho pra casa. Havia um monte de turistas dentro
da loja. Teri j podia identific-los facilmente. Eles tinham uma aparncia de
deslumbramento e todas as suas roupas pareciam novas. Dan pegou alguns 7-Up e
bolachas de gua e sal, e depois foi at o setor farmacutico. Teri pegou alguns cartes


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postais e olhou alguns cocos na porta. Havia um aviso dizendo como os cocos poderiam
ser mandados pelo correio.

- Pronto? Perguntou Dan, chamando Teri a juntar-se a ele na fila. Ela foi at ele e olhou
para a pequena caixa que ele segurava. Um teste de gravidez caseiro.




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CAPTULO NOVE

Teri ficou ao telefone e esperou o longo bip da secretria eletrnica.

- Oi Mark,  a Teri.  uma tarde de domingo, e eu apreciaria se voc me ligasse.
Obrigada. Tchau.

Teri estava ansiosa para conversar, o que fez ainda mais frustrante ser recebida pela
secretria eletrnica. Quem sabe quando Mark ouviria aquela mensagem? Ela ficou
segurando o fone, deixando escapar um suspiro. Dan e Anita estavam no quarto com a
porta fechada. Ela podia ouvi-los discutindo. Imaginou que eles discordavam quanto a
usar o teste de gravidez.

Os homens podem ser to insensveis s vezes. O que eles sabem sobre gravidez? Esse cara-
Gordo sugere que  um bom tempo pra Aninha ficar grvida e Dan vai correndo comprar
um teste de farmcia. Muito cientfico. Homens so to sem desconfimetro!

Ser que  esse o problema do Mark? Ele no me liga ou conversa comigo porque 
naturalmente sem desconfimetro?

Nesse exato momento o telefone tocou e Teri atendeu, esperando que fosse Mark.

- Ei, gracinha, se importa se eu te pegar mais cedo para o jantar de hoje  noite? Eu saio
do trabalho em meia hora.

- Scott? Disse Teri.

- Sim, tava esperando algum?

Ela rapidamente limpou seus pensamentos.

- Voc. Estou esperando pra te ver. Hoje  noite.

- Ento, posso pegar voc daqui uma hora, se estiver bem pra voc.

- Claro, seria timo. Nos vemos. At!

Teri desligou e ignorou seus sentimentos confusos sobre Scott. Ela queria jantar com
Mark hoje  noite. Ela se sentiria melhor se pudesse resolver esse relacionamento antes
de passar para o prximo.

Para distrair seus sentimentos, ela se concentrou no que vestiria. Ela ainda estava com a
saia reta e camisa creme de malha que tinha usado na igreja. Ser que era muito formal?
Talvez ela devesse mudar para um jeans. Ou shorts. Ela no queria se parecer com um
turista. Mas tambm, se Scott a estivesse levando para um lugar mais chique, ela no
queria se sentir casual demais. Ela conseguiu uma combinao que lhe agradasse, depois
de muitas trocas de roupa na frente do espelho de corpo inteiro do armrio do corredor,
que era confortvel e bonito, e o melhor de tudo, ela j estava pronta.




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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

A discusso entre Anita e Dan diminuiu, e Dan foi irritado para a sala murmurando para
Teri alguma coisa sobre mulheres serem irracionais. Ele se jogou em frente  TV e ligou
em um jogo de vlei.

Teri ficou pensando se ela deveria ir falar com Anita ou deix-la sozinha. Ela finalmente
decidiu que, se estivesse no lugar de Anita, gostaria de ter uma irm por perto para
consol-la.

- Sou eu, disse ela, batendo na porta do quarto, ignorando a irritao de Dan.  Posso
entrar?

- Claro, disse a voz calma atrs da porta.

Teri entrou e se sentou no canto da cama. Anita estava encolhida enrolada no lenol. Seu
cabelo curto estava preso, e seus olhos pareciam vermelhos de chorar.

- Voc ta bem? Perguntou Teri.

Anita acenou que sim, mas no disse nada.

- Posso fazer alguma coisa? Perguntou Teri, se inclinando para abraar sua irm.  Quer
comer alguma coisa?

- No, eu to bem. No sei o que eu tenho de errado. Eu queria que ns duas fssemos a
um monte de lugares e fizssemos um monte de coisas juntas.

- Eu sei. E ns vamos. Voc s precisa acabar com esse mal-estar. Temos bastante tempo.

Anita se ajeitou na cama.

- Dani pensa que esse mal-estar  um beb. Voc sabia que ele comprou um teste de
farmcia?

Teri acenou que sim.

- Eu estava com ele.

- Eu no vou fazer essa idiotice. Sabe quantos desses eu j fiz? Um monte! Quando eu
estiver, e se eu estiver grvida de novo, eu saberei.

- Dani provavelmente s estava pensando do jeito estranho que os homens pensam. Mas,
se faz alguma diferena pra voc, no foi idia dele. Aquele cara na igreja, Gordo, foi
quem sugeriu. Acredita que as pessoas chamam ele de Gordo?

O semblante de Anita se animou.

- Dani no me disse que Gordo tinha chegado. Como ele ta?

- Bem, eu acho. Ele  uma figura, n?

- Ele  nico, certamente. Meio palhao, meio pioneiro, meio santo. Uma pessoa
fantstica. Sabia que ele  pastor?


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- Ta brincando.

- No,  serio. Ele est indo para o seminrio no continente. No Texas, eu acho. Quando
se formar, volta pra c pra comear uma igreja em Maui, disse Anita.

- Ento porque ele veio aqui entregar pizza sexta-feira?

- Dinheiro  difcil pra quase todos que moram aqui, disse Anita.  Gordo  como a
gente. Ele trabalha duro pra ganhar a vida e confia em Deus para fazer a diferena nesse
meio tempo.

- No consigo me acostumar a ouvir voc chamar um homem crescido de "Gordo", disse
Teri.  Na verdade, eu o conheci no luau. Lembra quando eu disse a voc que algum
retardado tinha derramado coca cola em mim? Era ele.

Anita sorriu.

- Esse  o defeito dele. Gordo  a pessoa mais desastrada que eu j conheci. Uma vez ele
estava ajudando a servir a ceia na igreja, e tropeou com uma bandeja de po em uma
mo e uma bandeja de suco na outra. Os bancos da frente ficaram pegajosos com
migalhas de po e suco de uva por meses!

Teri no podia imaginar seu pai tropeando enquanto servia a ceia.

- Mas isso foi um horror, hein?

Anita comeou a rir.

- No com Gordo. Ele caiu na gargalhada, e a igreja toda no agentou. Ele disse que o
anjo da guarda dele deve t-lo feito tropear porque as lagartixas de igreja estavam sem o
que comer ultimamente.

- Lagartixas de igreja?

- Sabe como as pessoas falam de ratos de igreja? Nas ilhas temos as lagartixas de igreja.
So uns lagartos bem pequenos e verdes com ventosas pequenininhas nos ps. Gordo
disse que a gente devia deixar a ceia derramada pra que elas lambessem. Na hora foi
engraado.

- Acho que  um bom modo de quebrar um clima no meio de uma formalidade, disse
Teri.

- Pra falar a verdade, foi a melhor ceia que eu j participei. Com certeza a mais
significante. Como o Gordo tinha derramado o po e o suco, ele perguntou se algum
tinha alguma coisa pra usar no lugar. Ele passou a bandeja e coletou desde pacotinhos de
biscoito at balinhas. Algum tinha meia garrafa de suco de laranja pra contribuir, e
voltamos  ceia. Quando ele deu graas e repartiu os biscoitos e as balas, falou sobre
como Deus  criativo, que fornece o que a gente necessita. Ele disse que temos que
aprender a viver no ritmo natural da graa1. Nunca vou esquecer.


1
    No orignal, unforced rhythm of Grace. Quer dizer um correr fludo, natural.
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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri olhou o relgio no criado-mudo.

- Acho que tenho que ir. Scott ligou dizendo que vai passar aqui em alguns minutos. Se o
Mark ligar, diga que eu quero muito conversar com ele.

Nessa hora, o telefone tocou, e Anita pegou a extenso perto da cama.

- Fala voc, disse ela, estendendo o telefone a Teri   o Mark.

- Oi.

- Oi, disse ele.  Recebi a mensagem que voc me ligou.

- , queria ver se podemos conversar uma hora dessas. Eu sei que voc est ocupado
saindo com as baleias...

Anita deu um tapinha na perna de Teri.

- Ops, no saindo com baleias. Quis dizer indo pro mar ver as baleias. Ela olhou para
Anita. Isso estava horrvel.

- Na verdade, disse Mark, as baleias s vem pra c no inverno. Eu estou colocando em
ordem as pesquisas que fiz no ltimo inverno.

- Ta, eu s to dizendo que, quando voc puder, que queria conversar.

- Que tal hoje  noite? Disse Mark.

- Hoje a noite? Teri olhou em pnico para Anita. Anita deu de ombros e no ofereceu
nenhuma sugesto.  Tenho um compromisso hoje  noite. No pode ser amanh ou
tera-feira? Qualquer hora pra mim ta bom.

- Amanh cedo...

- Certo, disse Teri rapidamente.  Que horas? s dez pode ser?

- Eu quis dizer de manh cedo, disse Mark.  Tipo seis, sete horas.

- Ah! Ta, seis ou sete horas. Tipo tomar um caf juntos em algum lugar?

- Quer vir no Lahaina? Perguntou Mark.

- Acho que posso pegar o carro emprestado, disse Teri, olhando para Anita, que estava
mostrando a ela nove dedos.  Tenho que voltar antes das nove para que Dan possa ir
trabalhar.

- Ento por que no nos encontramos no Pioneer Inn para o caf? Eles abrem s 6:30.

- Certo. No Pioneer Inn s 6:30. timo! Nos vemos amanh.

- Aguardo ansioso, disse Mark.

- No foi to ruim assim, foi? Perguntou Anita assim que Teri desligou.


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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Ele disse que aguarda ansioso. O que isso significa?

- Acho que quer dizer que vocs dois precisam conversar, e ele est ansioso para isso.
Pssimo voc fazer planos com Scott para hoje. Mark estava de folga hoje. Vocs dois
poderiam ter passado o dia todo juntos ao invs de um cafezinho rpido.

- Acho que  melhor assim, disse Teri, levantando da cama e olhando seu reflexo no
espelho.  Verei como as coisas vo com Scott hoje e depois avali-las de acordo com o
que acontecer amanh de manh com Mark.

- Isso se o Scott no te magoar no caminho.

Teri virou os olhos. Ela estava muito irritada com aquele comentrio para responder,
ento deixou que seus olhos furiosos falassem por ela.

- Ah, me desculpe por ter uma opinio sobre o cara com base na nossa ltima conversa!

- Pode simplesmente me tratar como algum igual a voc, Anita? S por algumas
semanas, me deixa ser adulta, como voc, e no simplesmente a caulinha que no
consegue decidir sozinha. Me trate como uma amiga. Algum como voc. Me oua, me
respeite, me encoraje.  tudo o que eu te peo. Ser que  demais pra voc?

Anita olhou para baixo, para a roupa de cama, e no se mexeu. Quando levantou os
olhos, tinha uma expresso gentil.

- Eu posso fazer isso.

- Claro que pode. E eu preciso disso.

- Tudo bem.

Teri olhou para o relgio mais uma vez. J fazia quase uma hora que Scott ligara. Ele
deveria chegar num minuto. Talvez tivesse parado em casa antes. Ela podia esperar. O
que era esperar um pouquinho? Ela estava no tempo de Maui. Em cmera lenta.
Relaxando. Curtindo.

Teri esperou por Scott at as 9:30 Ele no veio. Ele no ligou.




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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

CAPTULO DEZ

Exatamente s 9:31 Teri ouviu algum bater  porta da frente. Dan e Anita tinham ido
dormir, e Teri j estava com sua camisetona amarela de dormir. Ela correu  porta.

-Me perdoa? Perguntou Scott, segurando uma rosa vermelha em um vaso branco.

Teri percebeu que o arranjo foi comprado no mercado. Ela no sabia como responder.
Ela usou toda a sua raiva, frustrao e mgoa nas ltimas seis horas.

- Devia ter ligado, disse ela em voz branda, sem nenhum tom de condenao ou auto-
piedade.

- O orelho na sala de emergncia no estava funcionando.

Teri involuntariamente procurou nele sinais de ferimentos.

- O que aconteceu? Perguntou ela, sentindo as emoes aflorarem.

- A enfermeira disse que umas crianas andaram brincando com o telefone e eles no
puderam chamar algum pra consertar ainda.

- No com o telefone! Quero saber o que aconteceu com voc!

- Nada. Disse ele com um sorriso malicioso nos lbios.  No vai me convidar pra entrar?

Teri abriu a porta e fez um gesto com a mo para que ele entrasse. Sua histria devia ser
interessante.

- Onde esto Dan e Aninha?

Teri apontou para a porta fechada do quarto.

- Por que no vamos para o lanai?

Teri se sentia meio desconfortvel andando por a de camisola. Mas se sentou na cadeira
da varanda, cruzou os braos e, erguendo uma sobrancelha, esperou pela explicao dele.

- Um dos outros mensageiros caiu de costas em cima da mala de um artista de cinema.
Eu levei ele de carro pro outro lado, demorou mais do que eu pensava.

- No tem hospital desse lado da ilha? Perguntou Teri.

- Deve ter sim, mas o cara queria ir para o Wailuku por causa do plano de sade dele.
Da, disse Scott, batendo as mos uma na outra  A noite  uma criana. Que tal ir dar
um role? Ta com fome?

Teri no estava a fim de esquecer e perdoar. Ela no podia simplesmente deixar tudo pra
trs, especialmente porque tinha planos de se encontrar com Mark s 6:30.

- Podemos fazer alguma coisa outra hora, sugeriu ela  Ta ficando tarde e...



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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

- Ah, vamos l... Nem  to tarde. Se voc quiser, a gente pode locar uns filmes e voltar
pra c. Eu conheo uma tima pizzaria. A gente podia ligar pra l e quando voltarmos
com os filmes a pizza j estar chegando. Que tal?

- Scott, Teri achou difcil dizer no a esse homem lindo, loiro, bronzeado quando ele
estava sentado a poucos centmetros dela, parecendo super a fim de estar com ela. 
Acho que no  uma boa ideia, Dan e Anita acabaram de ir pra cama.

- Ento a gente pode ir l em casa. O Bob no vai ligar. No deve nem estar l. A gente
no tem que fazer aquele programa, sabe. Vamos pegar s um filme. Na verdade, eu devo
ter algum por l pra gente ver. E a Kahana Pizzas entrega na minha porta to facilmente
como entregaria na sua.

Teri pensou em Gordo chegando com a pizza na porta de Scott com ela de camisola.
Gordon provavelmente teria um ataque de riso e derrubaria a pizza como fez com as
badejas da ceia.

- Acho que no, Scott. Vamos marcar outra hora.

Ele parecia uma criana que foi interrompido na hora do gol da vitria.

- Quer vir jantar amanh  noite? Teri se sentiu responsvel por transformar isso num
ganha-ganha.

- Tenho compromisso.

- Ento tera ou quarta?

- Eu te ligo, disse Scott, e ento se levantou para sair.

Teri quase disse: "Ah, ta, seria alguma mudana", mas ao invs disso, disse:

- Ta. Pensa nisso. Qualquer noite essa semana. Vou fazer pra voc minhas premiadas
tamales2. Antiga receita de famlia.

Ela estava indo com Scott at a porta, se sentindo ridcula por tentar impression-lo
prometendo comida. Scott se virou e sorriu.

- Tera, disse ele.  Chego aqui l pelas sete.

- Certo, disse Teri com um sorriso.  Tamales Teresa a las siete a Martes.

- Tamales da Teri s sete na tera, decifrou Scott.  Bueno. E no me faa lembrar mais
espanhol que isso!

- Te vejo na tera, disse Teri, abrindo a porta pra ele.  Obrigada pela flor.

2
 Tamales  parece uma pamonha, s que no  s de milho. Pode ser tambm de arroz, coco,
batata, semente de abbora, frutas... E sempre tem um recheio. Enfim,  uma comida
empacotadinha. Fotos:
Fechadinho: http://alaeh.files.wordpress.com/2007/05/mel-tamales.jpg
Por dentro: http://www.saborcontinental.com/wp-content/uploads/2009/02/tamales.jpg
De manga: http://www.champagnemango.com/recipesimages/Recipe_Sweet_Mango_Tamales.jpg
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                                   Sussurros  Robin Jones Gunn

Scott passou pela porta, ficando a poucos centmetros dela. Olhou em seus olhos e disse:

- Ento estou perdoado?

Teri fez que sim.

- Bueno. Ele se inclinou como para beij-la. Ao invs disso ele sussurrou  Tera-feira.
Ento tocou sua bochecha suavemente e saiu.

Teri se sentia hipnotizada. Toneladas de fogos de artifcio explodiram dentro dela
quando ele se aproximou. Ela fechou a porta e deslizou para a cama embaixo do
ventilador de teto. Tudo estava quieto e tranqilo. Tudo, exceto os fogos em sua cabea.

Por que Scott fazia isso com ela? Por que ela nunca se sentiu assim com Luis? Teri podia
dizer a si mesma que Scott no era o cara certo pra ela, comeando com os sermes de
Anita sobre ele no estar levando a serio seu compromisso com Cristo. Se Scott no era
capaz de manter as promessas que fez a Deus no colegial, como poderia manter
promessas de encontros com Teri? Mesmo assim, Scott a fazia sentir emoes que j
experimentara antes, mas no todas de uma vez no mesmo relacionamento. Ela ficava
derretida com ele. E onde quer que ele a tocasse, havia fogos de artifcio.

Agora Teri se perguntava mais uma coisa: Ela sentiu esses fogos de artifcio com Mark no
vero passado? Se sim, por que eles sumiram? Era algum tipo de encanto que acontecia
nessa ilha paradisaca? Ela caiu no sono enquanto pensava.

Na manh seguinte, s 6:10, Teri estava ainda mais convencida de que estava no paraso
enquanto dirigia at Lahaina. O sol estava quase saindo de trs das montanhas a oeste de
Maui, acompanhando-a na estrada. Ela passou pelo Kaanapali Resort e pensou na sua
primeira noite na ilha, quando eles jantaram no Leilani's. Mark disse a ela que havia um
esqueleto de baleia a mostra na Vila das Baleias. Eles no viram naquela noite, agora ela
estava pensando se ele no a levaria at l outra hora.

Qu que eu to fazendo? Estou esperando que Mark agende encontros comigo. Isso 
loucura! No h mais nada entre ns. Ou h? Por que eu tive que passar meses  meses
no, anos!  sem nenhum relacionamento a vista, e agora eu estou aqui, comeando
alguma coisa com Scott e mantendo uma cosia mal resolvida com Mark? Terrvel. Terrvel,
terrvel, terrvel.

Teri estacionou em frente a uma enorme Banyan e caminhou ao Pioneer Inn3. Tinha
bastante gente pra uma hora dessas. Uma mulher com chapu de palha estava com uma
mangueira na passarela em frente s lojas atrs do Pioneer Inn. Ela estava com um
vestido com estampa havaiana bem folgado, e tinha um cigarro nos lbios. Teri imaginou
que essa mulher tinha visto muita coisa ao longo dos anos no porto de Lahaina.

Logo  frente do Pioneer Inn havia um estaleiro cheio de barcos de todos os tipos e
tamanhos. Alguns deles j abrigavam passageiros, que se dirigiam para velejar at a
vizinha Lanai, ou ao lugar favorito para mergulhos, Molokini.

3
    Pioneer Inn http://www.pioneerinnmaui.com/images/AerialPioneerInn.jpg


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                               Sussurros  Robin Jones Gunn

Ela encontrou o restaurante na frente do Pioneer Inn, de frente para o estaleiro e o
convidativo Oceano Pacfico. Teri tomou caf da manh com Mark ali no ltimo vero.
Ela lembrou dele falando que at a dcada de 50 o restaurante e o hotel eram as nicas
acomodaes para turistas deste lado da ilha. Parecia difcil acreditar que em menos de
cinquenta anos houvera tanto desenvolvimento do lado oeste de Maui.

O prdio parecia autenticamente de poca, com paredes pintadas de verde escuro,
telhado vermelho e detalhes em branco brilhante, as quais deveriam ser suas cores
originais. Ela sabia que o Lahaina foi um porto importante por volta de 1800. Se fosse se
encontrar com um homem aqui h 150 anos, ele provavelmente seria um caador de
baleias ao invs de estudar para preserv-las.

- Vim encontrar algum, disse Teri assim que a garonete lhe estendeu o menu na
entrada. Ela vestia um vestido com motivos havaianos e seu cabelo preto estava preso
com vrias plumerias rosas e brancas.

- Quer esperar ou sentar? A jovem perguntou na entrada.

- Vou sentar, disse Teri, olhando entre as mesas sem encontrar Mark. Ela foi levada a
uma cabine nos fundos da pequena rea, onde sentou em uma cadeira de madeira com
espaldar alto.

- Caf?

- Sim, por favor. Teri olhou o cardpio enquanto a mulher retornava com um pote de
caf Kona fresco. Fechando os olhos, Teri mergulhou nos aromas e sons desta manh em
Lahaina: o rico aroma do caf, o meldico soar das sirenes dos navios que chegavam ao
porto, e a mistura dos cantos dos pssaros que tinham como lar a banyan ao lado da rua.
Ela se deliciou ainda com outro cheiro, o bacon fritando na cozinha logo atrs dela.

Olhando em seu relgio, Teri decidiu fazer o seu pedido, pois Mark estava atrasado. Ela
pediu ovos, bacon e uma pequena pilha de panquecas de macadmia com calda de coco.
A comida chegou antes de Mark, e ela comeou a comer. Tudo estava saborosamente
perfeito.

Ela viu um pequeno japons parar na passarela e se inclinar sobre o corrimo de madeira
para cumprimentar um amigo. Sem janelas, o ambiente era todo aberto, acolhedor e
amigvel.

O bambu cortado fazia sombra na rea aberta para bloquear o feroz sol matinal. Teri se
lembrou que Mark a dissera no ano anterior que lahaina significa sol cruel. Faz sentido,
j que desde as sete da manh o sol j era bem quente.

Mark finalmente chegou e se sentou na cadeira  frente dela.

- Desculpe, estava preso em uma ligao. Ele olhou para o prato dela  Provou as
panquecas de macadmia?

- Sim, com calda de coco. So muito boas!



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                                   Sussurros  Robin Jones Gunn

O rosto de Mark se suavizou em um de seus sorrisos de lbios fechados enquanto ele
olhava para Teri.

- Lembra de quando viemos tomar caf aqui no ltimo vero?

Teri acenou afirmativamente.

- Foi a primeira vez que eu provei os bolos de macadmia. Fiquei viciado. E toda vez que
eu peo um, penso em voc.

Teri no esperava palavras to meigas vindas de Mark. Ela pensara que o encontro deles
seria frio e seco: a emoo acabou, no h nada que nos mantenha juntos, vamos ser
apenas amigos. H cinco minutos ela estava pensando em Scott e nas tamales que
serviria a ele amanh  noite. Como ela podia mudar assim e pensar em Mark? Ela tinha
que fazer isso. Ele finalmente estava se sentando com ela. Estavam s os dois ali, e eles
poderiam conversar.

- Queria ter tempo para comer, disse Mark  Recebi uma mensagem da Claire hoje de
manh. Eu te falei da Claire?

Teri se segurou. Era isto, a outra mulher. Era por isso que Mark se mantivera afastado
desde a sua chegada. Claire.

- Claire  minha colega de pesquisa. Ela disse que temos que assinar alguns papis hoje
de manh para que ela mande via fax para DC4.  para a extenso da nossa bolsa. Esses
federais so muito rgidos com prazos. J  quase fim de dia em DC. Ele olhou para o
relgio.  Detesto ter que fazer isso com voc. Sei que voc quer conversar, eu tambm
quero. Podemos marcar outra vez?

Teri se sentiu derrotada. No podia ser to difcil simplesmente conversar. Talvez ela
estivesse considerando demais essa coisa toda com Mark. Talvez Anita estivesse certa.
Ela tem tendncia a analisar o romance externamente ao relacionamento. Este
certamente foi analisado.

- Quer saber de uma coisa, Mark? Disse ela.  Eu no quero que esse encontro seja uma
longa e enrolada reunio. Eu pensava que quando eu voltasse voc e eu continuaramos
de onde paramos no ltimo vero. No parece que isso est acontecendo. Ento no
vamos ficar complicando as coisas tentando resolver nosso relacionamento. Vamos
simplesmente admitir que no deu certo e tocar a vida. Eu estarei por aqui. Se tiver
algum tempo livre e quiser passar um tempo, beleza. Se no, bem tambm. D pra ser
assim?

Mark manteve sua expresso firme-como-uma-rocha. Ele no parecia aliviado ou
surpreso.



4
  DC  a abreviatura de distrito de Columbia. Se refere  capital dos EUA, que tem o mesmo nome
de um estado que fica do outro lado do pas  Washington. A cidade e o distrito so coexistentes,
tipo Braslia e o Distrito Federal. Fica entre os estados de Maryland e Virgina. Quase perto de New
Jersey.
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                                    Sussurros  Robin Jones Gunn

- Caf? Perguntou a garonete a ele enquanto enchia a xcara de Teri. Mark demorou
algum tempo para responder.

- No, obrigado. Eu j estou saindo.

- Vou querer a conta, disse Teri.

A jovem tirou do bolso e colocou na mesa.

- Mahalo, disse ela, e se foi.

Teri tomou um gole do caf quente e olhou para Mark. Sua mente e seu corao estavam
cheios de dvidas. Ela queria dizer que foram muito brusca e rgida em sua abordagem.
Ela nem mesmo deu a ele a chance de dizer o que pensava. Talvez porque ela no queria
ouv-lo.

Melhor que ela o rejeitasse do que se ele a rejeitasse.[i] Somos diferentes demais[/i], ela
de justificou. Ele tinha a vida dele no mar com as baleias e eu tenho, bem, eu acho que
no conseguiria viver em um barco. Ele  silencioso e reservado. Eu sou to enrgica.
Acabaria dominando a relao... exatamente como agora.

- Bem, disse Mark devagar.  Farei isto. Te ligo qualquer hora. Agora ele parecia
magoado. Teri quis poder consertar as palavras que dissera e comear esse encontro todo
de novo. Ela odiava quando sua irm a dominava, e agora ela estava dominando o Mark.

Ele levantou do banco conjugado e sorriu para Teri.

- Aloha, disse ele, e seguiu passando pelo labirinto de mesas at a sada.

Teri deixou sair um `hunf' e sentiu o cheiro do caf em seu hlito. Seu estmago tinha
dado um n, e ela estava com uma profunda dor de remorso. Talvez ela nunca mais o
visse. Quem sabe na igreja. Mas ela jamais saberia dos seus sentimentos. Ela no dera a
ele a oportunidade de dizer qualquer coisa.

Suas emoes iam e voltavam como ondas durante todo o caminho para a casa de Dan e
Anita. Ela no pode evitar, mas imaginou ter tomado a deciso correta. Dan estava
esperando por ela para poder ir trabalhar com o carro.

Ele parecia especialmente animado ao sair.

- Aninha? Chamou Teri enquanto a porta de correr batia atrs dela.  Voc ta bem?

Teri entrou no quarto e encontrou sua irm sentada na cama, com uma expresso
diferente em seu rosto.

- Deu positivo, disse Anita.




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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

CAPTULO ONZE

- Do que voc est falando?, perguntou Teri, se ajeitando no canto da cama.

- O teste de gravidez, disse Anita  Deu positivo. Estou grvida.

Ela ainda tinha um olhar assombrado.

- Parabns, Aninha! Todas os problemas de Teri desapareceram.  O Dani j sabe? Claro
que sabe. Fantstico!

Anita acenou que sim.

- Parece que o Gordo estava certo.

- Eu acho que o Gordo no tem nada com isso, disse Teri.  Voc vai ter um beb! Ela
jogou os braos em volta de sua irm  Por isso que no estava se sentindo bem, n?
Quer que eu pegue alguma coisa pra voc? Ch, suco, alguma coisa?

- No, ta muito cedo pra pensar em por alguma coisa no estmago. No acredito nisso.
Estou grvida.

- Voc no parece muito empolgada.

- Eu estou com medo, Teri. Se eu perder outro beb, meu corao vai se despedaar
completamente.

- Vamos orar, disse Teri.

- Eu tenho orado.

- No, estou falando pra orar juntas. Agora. Teri chegou mais perto e colocou as mos
sobre a barriga de Anita. Juntas, as duas mulheres pediram em meio a lgrimas a
proteo de Deus sobre essa minscula vida. Quando as irms Moreno se uniam para
alguma coisa, nada poderia segur-las.

- Amm, amm. Disse Teri. Ela se inclinou, limpando as lgrimas de sua irm, e em um
sussurro exultante disse  Vou ser titia!

Depois da orao, Teri decidiu passar o dia na praia para deixar Anita trabalhar. Mais
tarde, quando Teri voltou para casa, estava ainda mais convencida de que tinha agido
corretamente com Mark. Aquele relacionamento estava destinado a no ir a lugar algum.
Os fogos de artifcio do ltimo vero se apagaram, e no tinha mais como reacend-los.

Com aquele relacionamento acertado, ela tinha mais liberdade para pensar em Scott. Foi
assim que ela passou o dia na praia  sonhando acordada com o lindo, loiro e alto que s
pode ter sado de um sonho. Quando Teri saiu de casa pela manh, Anita estava
trabalhando em vrios prazos apertados. Ela ainda estava no computador quando Teri
chegou.

- Terminou tudo o que tinha para hoje?


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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

- Quase. Liguei pra mame. Disse a ela que estou grvida, e sabe o que ela disse?

Teri sentou na cama e tirou os chinelos.

- Deixa eu adivinhar.  nossa me, certo?

- Certo. A doura super-protetora em pessoa.

- Ela provavelmente disse que voc deveria ir para a cama e ficar l pelos prximos nove
meses. E que deveria parar de tomar caf.

- Acertou! Disse Anita  Foi exatamente isso.

- E a, voc acha que ela est certa?

- Sobre a cafena, com certeza. Todos os livros sobre gravidez falam disso. Sobre ficar na
cama, acho que no ser muito prtico ou realmente necessrio.

- Ta, mais no vai doer se voc pegar leve nos prximos meses. Voc no perdeu os
outros dois l pelos quatro meses?

- No terceiro ms, disse Anita.

- Ento qual o problema em pegar leve nos prximos trs meses?

- J falei que voc est comeando a falar como a mame?

- E eu j te falei, devolveu Teri, que voc est ficando cada vez mais teimosa?

- No vou discutir com voc, Teri. Anita tinha em seu rosto uma expresso serena. 
Voc est certa, eu tenho que pegar leve. Eu disse pra mame que iria. S que vocs duas
agem como se fossem as nicas responsveis por este beb. Eu  que perdi dois bebs.
No foi voc, nem a mame.

- A mame perdeu seus primeiros dois netos. J pensou nisso? Doeu em todas ns,
Aninha. Voc no est sozinha nessa. Estarei aqui nas prximas semanas, e estarei a um
telefonema de distncia durante o resto da sua gravidez. De repente Teri pensou no que
Gordon disse sobre o Senhor permitir que Anita ficasse grvida enquanto Teri estava no
Hava. Pela primeira vez, ela percebeu a sensibilidade do comentrio, especialmente para
um homem. Talvez Gordon fosse um profeta. Ele tinha jeito de algum que ouvia vozes
do cu.

- Acho que o acampamento na cratera no vai rolar, disse Anita.

- Tambm acho! No sabia que voc tava querendo ir.

- Dani queria muito que eu fosse. Eu tava at pensando nisso, mas no me importo se
ficar de fora.  uma aventura bem radical, pelo que ouvi. Quer ir?

- Deve ser legal, disse Teri, pensando em como seria um timo exerccio, somado 
possibilidade de estar com Scott.  Algum mais desistiu?

- Sei l. Parece que muda todo dia, dependendo de quem pode estar de folga no perodo.

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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Eu queria ir, mas a voc ficaria sozinha aqui. Eu acho melhor ficar com voc.

- No, voc tem que ir. Eu vou ficar bem.  uma oportunidade muito rara, Teri. Pode
usar minha mochila e tudo mais. Voc tem que ir, Teri. Anita deu um passo atrs e
acrescentou suavemente  Quer dizer, s se voc quiser. Voc  quem sabe.

Teri reconheceu o esforo de sua irm em no domin-la e sorriu apreciando o gesto.

- Por que no esperamos pra falar disso quando Dan chegar? Quer que eu faa o jantar?

- Eu posso fazer.

- Eu sei que pode. S estou me oferecendo pra te dar uma folga e fazer isso pra voc. Ou
pelo menos te dar uma mozinha. Ah, por falar nisso, chamei Scott pro jantar amanh 
noite. Disse a ele que faria tamales.

Anita ergueu uma sobrancelha.

- Tamales? Corajosa, hein? Quando  que voc vai fazer?

- Amanh. Posso pegar o carro emprestado pra ir ao mercado? Acho que vou fazer
tamales pro resto do ms.

- Claro, mas no vou poder te ajudar, disse Anita.  Tenho muito trabalho pra amanh.

- Sem problema, disse Teri, sentindo que ela e Aninha finalmente estavam
desenvolvendo uma relao equilibrada.  To de frias. Tenho todo o tempo do mundo.




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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

CAPTULO DOZE

Cozinhar deixava Teri cheia de energia, especialmente passando o dia inteiro na cozinha,
enrolando dzias de tamales. Isso trazia memrias maravilhosas. Desde quando ela era
uma garotinha, as mulheres de sua grande famlia se reuniam em um sbado trs ou
quatro semanas antes do Natal e passavam o dia todo fazendo tamales, centenas de
tamales. Elas pediam pizza para comer enquanto trabalhavam. Teri se lembrava de sua
tia Diane trazendo uma caixa trmica cheia de Coca Diet e tomando a metade sozinha.

No fim do dia, os homens ajudavam a lavar as enormes panelas, e todas as tamales eram
divididas entre as famlias e depois congeladas. Na famlia de Teri, at a primavera, ainda
tinham tamales.

Uma de suas tias, Yolanda, era solteira e no gostava muito de tamales. Ela dava a parte
dela de presente no Natal todo ano. Quando ela mudou de emprego, seu antigo chefe
perguntou se podia pagar para ficar na lista de tamales dela, pois j tinha se tornado
tradio na famlia dele comer as tamales da Yo na Ceia de Natal.

A pequena cozinha de Anita era muito mais quente do que a de sua me jamais fora
durante as maratonas de tamale em dezembro. Teri estava suando, mesmo com um
enorme ventilador voltado para ela. Ela tinha muita coisa a fazer antes de poder parar.

- Teri, gritou Anita de trs da porta fechada de seu quarto, - Desculpa, mas eu no to
agentando. Vai demorar muito? Eu estou meio sensvel a esses cheiros fortes.

- Ainda estou na metade. Ser que voc tem outro ventilador a? De repente ajuda.

- Vou ver com os vizinhos. Anita saiu, e Teri pensou em como esse cheiro de tempero
picante poderia incomodar outras pessoas tambm. Para ela, era mais um dos
maravilhosos cheiros de Natal.

Alguns minutos depois, Anita voltou com um enorme ventilador.

- Aqui, disse Teri, correndo para perto dela  Deixa que eu fao isso aqui. No precisa se
estressar com nada no, ta?

- Meus vizinhos queriam saber o que voc est preparando. Eu disse a eles que daria
tamales amanh se eles emprestassem o ventilador.

- Boa troca, disse Teri, colocando o ventilador no quarto e ligando na tomada.  O cheiro
ta forte aqui. Ainda bem que tem esse ventilador. Como est indo o trabalho?

- Ta bem. Queria estar mais empolgada pra digitar todos esses jarges tcnicos. Me sinto
como uma mquina. No  exatamente o trabalho mais motivante do mundo, mas d
algum dinheiro.

- E voc pode ficar em casa com o beb, disse Teri.  Acho que eu seria capaz de encarar
um monte de chatice pelo luxo de ficar com meu beb.

Anita parecia um pouco hesitante.


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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Ainda est preocupada com essa gravidez?

- Claro que sim. Tenho certeza que no ficarei tranqila enquanto no v-la saudvel em
meus braos.

- Ento voc acha que  uma menininha?

Anita acenou e acariciou a barriga.

- Marquei uma consulta para semana que vem. Quero ter certeza de que o teste estava
certo e que est tudo bem. Quero saber tudo o que eles puderem me falar.

- Deve ser a sensao mais incrvel do mundo, disse Teri  Saber que tem uma pequena
vida dentro de voc antes mesmo de poder senti-la ou v-la crescendo. Mal posso esperar
pela minha vez. Quero ter uns quatro filhos. Talvez cinco.

- Te aconselho a se casar primeiro, disse Anita com um tom de humor seco em sua voz 
Primeiro as primeiras coisas, sabe.  sempre melhor que o pai das crianas tenha o
compromisso de estar sempre por perto por um tempo. Isso me lembra que voc no me
contou sobre o caf com Mark. Fiquei to atordoada com o beb que nem lembrei de te
perguntar. Como foi?

Teri mordeu o lbio inferior.

- Ah, no sei direito. Ele tava na correria, e eu soltei que se o sentimento no era o
mesmo para os dois era melhor desistir.

Anita parecia chocada.

- Voc no fez isso.

- Fiz.

- O que o Mark disse?

- Nada. S aloha. Tinha que encontrar a colega, Claire, para assinar uns papis.

Anita balanou a cabea.

- No balana a cabea pra mim!

- No entendo sua lgica, Teri. Voc desiste de um cara como Mark Hunter assim  e
estalou os dedos para dar nfase  e tem esse trabalho todo de fazer tamales pra um cara
como Scott Robinson.

Teri no queria ouvi-la.

- No vai ter tamales se eu no for l terminar. Espero que o ventilador te ajude aqui. Ela
saiu, fechando a porta atrs de si.

s 5:30 estava tudo pronto. As tamales extras estavam arrumadas no congelador de
Anita, mais ou menos uma dzia na geladeira esperando para serem cozidas pouco antes
de Scott chegar, e Teri estava pensando se primeiro tomava banho ou preparava o molho.

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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

Bem nesta hora Dan chegou.

- Ta um cheiro bom. Cad Aninha?

- L dentro. Eu a incomodei muito com cheiro de tamale hoje.

- Pra mim tem cheiro de casa. Faz mais de dois anos que eu no como uma tamale das
Moreno. Aninha no tem tempo de fazer.

- Scott est vindo pro jantar.

- Scott? Srio? Dan fez uma pausa e depois disse  Ah, qual for o motivo pra voc fazer
essas tamales, compensa pelo resultado. Ele desapareceu dentro do quarto.

Teri no tinha certeza do que Dan achava de Scott. Pra ela no importava. O importante
era o que ela pensava de Scott. O melhor dele vir essa noite  que ela sentia que sue
relacionamento com Mark tinha se resolvido. Ela poderia avaliar Scott melhor sem
pensamentos confusos sobre Mark.

Abandonando o molho na metade, Teri pegou shorts limpos e uma blusa de algodo do
closet e foi para o chuveiro. Ela podia terminar o molho antes de Scott chegar. S de
pensar no lindo e atltico Scott Robinson vindo para v-la e comer suas tamales Teri se
sentir poderosa. Scott chegou cinco minutos mais cedo, o que fez disparar a ansiedade de
Teri tentando sair do chuveiro mais cedo. Ele parecia excepcionalmente bonito esta
noite, tinha acabado de tomar banho, com seu cabelo loiro meio molhado penteado para
trs e o rosto bem limpo. Ele estendeu a Teri um buqu de flores esquisitas. Pareciam
feitas de plstico.

- So proteas, explicou Scott.  Me disseram que so nativas. No norte. A gente tem que
ver isso qualquer dia. Ouvi dizer que tem uma colnia de artistas l tambm.

- So demais! Disse Teri.  Obrigada! Ela gostou mais do que da rosa de supermercado
que ele trouxe ao pedir desculpas no domingo. A rosa murchou e secou antes mesmo de
abrir o boto. Ela pegou um vaso para colocar as proteas no balco.

- Tem alguma coisa com um cheiro muito bom aqui, disse Scott.

-Tomara que esteja com fome, disse Teri.

A porta do quarto se abriu e Dan e Anita saram.

- Como vai? Disse Dan. Os homens se cumprimentaram com um aperto de mos.  Voc
no tem ideia de que categoria de convidado de honra que voc . As Moreno no fazem
essas tamales pra qualquer um no, viu?

Scott se inclinou sobre o balco da cozinha e balanou a mo de Teri.

- Eu no sou qualquer um n, Teri?

Ela sabia que sua irm estava olhando para eles.

-  claro que no.

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Ela queria estar sozinha com Scott. A presena de Anita a constrangia, e Scott s estava
aqui h trs minutos.

- Quer uma ajuda a? Perguntou Dan.

- Pensei em comer l fora. Querem levar os pratos e essas coisas na varanda pra mim?

Dan, Anita e Scott ajudaram e em cinco minutos estavam se sentando em frente a um
monte de tamales quentinhas.

Dan e Anita, assim como Teri, tinham o hbito de orar antes de comer. Scott parecia
pronto para avanar quando Dan disse:

- Podemos orar primeiro?

- Claro, disse Scott.

- Quer orar pra gente? Anita perguntou a Scott.

- A casa  de vocs. Por que no ora, Dan?

Dan orou. Teri sabia que sua irm tinha feito uma nota em sua lista mental: `No ora'.
Teri j esperava ouvir sobre isso mais tarde e j estava preparando desculpas como `Isso
no significa que ele no ore na casa dele', ou `Ele estava apenas sendo educado na sua
casa'.

- Alguma coisa sobre o acampamento no Haleakala? Perguntou Scott a Dan.

- Na verdade, sim. Aninha no vai mais, voc pode ir no lugar dela.

- Est grvida, disse Teri suavemente, como se contasse a Scott um grande segredo.

- Parabns! Vocs estavam querendo uma criana, n?

- Sim, claro! Querendo muito, disse Anita.  Estamos esperando h muito tempo, por
isso vou pegar leve nos prximos meses.

- Que bom pra voc, e que bom pra mim tambm! Disse Scott.  Voc vai tambm, na?
Perguntou a Teri.

Ela estava quase respondendo que sim quando Dan disse:

-Bem, na verdade, eu dei a vaga dela. Eu no sabia que voc queria ir, Teri.

- Claro que ela quer ir, disse Scott.  Fala pro outro cara que voc se enganou, e que o
lugar no est vago, oras.

- Acho que ele vai entender. Ele j fez essa trilha, a eu pensei que seria bom ter um guia
extraoficial entre ns. Mas o Gordo  bem compreensivo, ele vai entender.

- Voc deu o meu lugar pra aquele Gordo?




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- . Dan pressionou sua mandbula na tamale quentinha e desembalada, dando a
primeira mordida. Ele fechou os olhos e saboreou.  Teri, disse ele ainda engolindo, - se
voc quer saber como ficar milionria,  s vender suas tamales. No tem nada igual em
toda a ilha.

De repente Scott parou de desembalar sua tamale e olhou nos olhos de Dan. Dan ficou
paralisado com a boca aberta para a prxima mordida.

- Ta pensando no que eu to pensando? Perguntou Scott.

Um sorriso surgiu no rosto de Dan.

- Vamos ficar milionrios, disse ele.




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CAPTULO TREZE

- Ta, pera, disse Dan, escrevendo alguns nmeros em um papel. Ele virou a folha para
que Scott lesse.

- Se a gente comprasse as cascas de milho a granel direto do continente,
economizaramos um monte. Elas no so perecveis, d pra estocar em um barco,
pechinchando um aluguel bem baratinho.

 - tima idia, disse Scott. Ele tomou a ltima gota de caf em sua xcara e se inclinou na
cadeira do ptio. - A chave do negcio  manter as tamales congeladas depois de prontas.

- A gente pode por um freezer aqui. Aqui fora. D pra construir um engradado pra
proteger o freezer, disse Dan, levantando-se e marcando o lado da parede abaixo da
janela da cozinha com os ps.

- Vocs me do licena... disse Anita, segurando um bocejo. - Estou muito cansada. Vou
dormir. Me conta o que decidirem amanh de manh, Teri.

- Ta, boa noite. Querem mais caf, meninos?

- Claro, disseram os dois.

Teri seguiu Anita para dentro da casa e disse em voz baixa:

- Aninha, obrigada por ficar at essa hora. Eu sei que est tarde. E obrigada por ser legal
com Scott e tudo mais.

Anita bocejou novamente e acenou com a cabea.

- Conversamos de manh, ta bem?

- Bons sonhos, disse Teri, e voltou ao lanai com a garrafa de caf.

- O maior problema, eu acho, disse Scott -  a Teri. Voc pode fazer tantas tamales? No
vai enjoar?

- Acho que de vez em quando sim. Mas eu amo fazer tamales.  uma terapia. E eu posso
ensinar algum a fazer tambm.

Dan segurou a xcara quente de caf com as duas mos.

- Tenho certeza de que no teremos problema com as vendas. Acho que essa ideia 
excelente, digna de um prmio. Mas fica a seu critrio. Quer comear um
empreendimento caseiro como esse?

- Como eu disse, nunca tinha pensado nisso. Vamos orar sobre isso primeiro.

- Isso faria com que voc ficasse em Maui, disse Scott - ento  a resposta s minhas
oraes. Ele se inclinou e acariciou a mo de Teri. Ela no se afastou, mas se rendeu ao
toque. Eles entrelaaram os dedos.


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-  uma coisa a se pensar, disse Dan, levantando e se espreguiando. - Vou para a cama
tambm. No esquece de pedir folga para o acampamento, Scott. E me lembra de ligar
pro Gordo amanh para dizer que o lugar no est disponvel.

Logo que Dan saiu, Scott segurou a mo de Teri e a trouxe para perto dele.

- Oi, linda, disse ele - Pensei em voc o dia todo. Quer descer at a praia? Encontrei
alguns fogos de artifcio que restaram do ltimo 4 de Julho. Pensei se ns poderamos
iluminar o cu hoje  noite.

O corao de Teri estava saltitante. Scott no precisava ser um gnio para saber que os
fogos de artifcio comearam a explodir dentro dela no momento em que ele tocou sua
mo.

- Claro, s vou ali pegar um casaquinho.

- No precisa... disse Scott - Eu te mantenho aquecida.

Ela no duvidou por um minuto sequer de que ele o faria. Mesmo assim, era uma
desculpa para pensar antes de sair. Depois de pegar o casaco no closet, Teri entrou no
banheiro, fechou a porta, e encarou seu reflexo no espelho.

Muito bem, crianona. Ta com medo de qu agora? Por que voc se transformou em uma
gatinha indefesa s porque um homem maravilhoso parece estar apaixonado por voc? 
isso? Voc est se apaixonando por ele, Teri? J imaginou o que  o amor? Por que est
questionando a se mesma ou a Scott? Por que voc sempre tem que analisar os seus
romances como se no fizesse parte deles? Para com isso! Voc vai  praia e vai se divertir
com esse homem. Vai se dar a liberdade de se apaixonar, certo? Certo!

Quando Teri saiu, Scott estava falando ao celular. Ela lavou a loua enquanto ele
terminava a conversa dizendo:

- Certo. Amanh  noite. Aham. Ta. Boa noite.

- Trabalho? perguntou Teri.

- Hein? Ah, . Trabalho. Ta pronta?

- S vou colocar esse molho na geladeira.

- Foi voc quem fez o molho tambm? disse Scott, rapidamente molhando mais uma
tortilha no molho antes que ela o colocasse na geladeira. - Sabe que a gente tambm
poderia vender o molho tanto quanto as tortilhas.

- O preo da pimenta aqui  muito alto, disse Teri.

- Talvez no se a gente comprar diretamente dos produtores em Kula. Vou perguntar pro
pessoal da cozinha do hotel pra ver o que eles acham.

Eles dirigiram por uma curta distncia pela costa at uma enseada que eles tiveram que
descer. Tinha outros carros estacionados l em cima, e o lugar era escuro e isolado, de
forma que Teri se sentiu como se estivesse invadindo uma festa particular. Scott estava

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levando uma toalha de praia e uma sacola cheia de fogos de artifcio. Eles discretamente
passaram por alguns casais e encontraram um canto mais sossegado na praia.

Scott estendeu a toalha para Teri se sentar. Depois alinhou todos os fogos na costa,
fixando-os na areia mida. Ele acendeu um por um, e Teri gritava `uhuul' enquanto os
pequenos foguetes subiam pelo ar. Um barulho estridente, uma exploso de luz, e depois
um chorinho vinha de cada foguete que encontrava sua sepultura 6 a 9 metros mar
adentro.

-  isso a. No foi to mal, hein? Disse Scott, se juntando a ela na toalha e a envolvendo
com um brao. - Est com frio?

- No.  uma bela noite. Olha aquela lua.

- Prefiro olhar pra voc, disse Scott suavemente em sua orelha. - Tem ideia de como voc
 linda? Ele beijou seu pescoo.

Todos os impulsos de Teri a diziam para se jogar em seus braos, se render aos beijos
intensos que Scott estava pronto a dar a ela. Mas bem no fundo, como um alarme de
incndio, alguma coisa alertava "Pare! Pare! Pare!"

S quando seus lbios estavam quase tocando os dela, Teri obedeceu ao alarme
intermitente e se afastou.

- No podemos s sentar aqui e ficar abraadinhos?

- Abraadinhos?

- , sabe... Abraados, assim.

Teri tentava ver a expresso de Scott na sombra. Ela imaginou que ele no estivesse
muito empolgado com a ideia.

- Ento vamos caminhar um pouco?

Ela se levantou e ofereceu a mo a ele.

- Voc quer caminhar.

- Vem! A gente pode ficar descalo e brincar de pega-pega nas ondas!

Scott se levantou perguntando:

- Ento este  seu lado brincalho?

- Ta uma noite to linda! Vamos curtir! Um passeio descalos na praia no te parece
romntico? Teri tirou os chinelos e os jogou na toalha. Scott fez o mesmo.

- O que voc quer mesmo  entrar na gua.  isso ou no ? Ele falou em tom brincalho
enquanto tomava posio de jogador de futebol americano pronto para enfrentar o
oponente.



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- No! Gritou Teri, correndo dele. Ela sabia que o esforo era intil; ela no podia correr
de Scott.

Seus ps descalos se mexeram na areia fofa, descendo para a gua onde ela poderia
correr mais rpido na areia molhada. Ela estava quase na beira da gua. Ela podia ouvir
Scott correndo atrs dela, quando de repente pisou em algo pontudo que a fez cair no
cho imediatamente.

- Ai! Gritou Teri, agarrando seu p. Scott a alcanou naquele exato momento e, sem
perceber que ela estava machucada, a agarrou e seguiu em direo  gua.

- Scott, disse ela  Eu estou machucada! Meu p!

Ele parou e a colocou no cho. Pelo reflexo da luz da lua na gua Teri podia ver uma
longa vara enfiada na planta do seu p. Ela comeou a chorar e se abaixou para tirar o
pau de um dos foguetes de Scott. Ela podia sentir o sangue quente escorrendo em seu p.

- O que aconteceu? Perguntou Scott.

- Os fogos de artifcio, disse Teri, tentando tomar flego e esconder as lgrimas.  Acho
que um deles me machucou.

Scott deu uma risadinha da piada enquanto ela lhe entregava o pau.

- Voc ta bem?

- Acho que sim.

-  melhor eu tirar o resto dos pauzinhos da areia antes que machuque mais algum.
Desculpa, Teri.

- Tudo bem, no se preocupa.

Scott a deixou por alguns minutos, e em um curto espao de tempo a dor aumentou ao
ponto de ela querer gritar. Tentando se controlar, Teri disse:

- Acho que quebrei alguma coisa. Ta doendo muito, Scott.

- Ento vamos. Vamos cuidar disso ai. Ele a pegou no colo de novo, dessa vez a carregava
de volta  toalha.  Quer que eu tente tirar?

- No tem luz aqui. Melhor a gente ir pra casa. A dor era incrvel. Teri no queria ir para
o pronto socorro, mas estava com medo de estar com algum machucado mais grave.

- Acha que consegue subir a enseada? No sei se consigo te levar.  muito ngreme. Scott
colocou o brao em volta da cintura dela, enquanto ela mancava com um p na areia.

O caminho parecia insupervel. Ela tinha calado o p bom, o que ajudava a passar pela
areia.

Mais de uma vez Scott a segurou antes que ela casse. Ela mordeu o lbio, tentou ser
corajosa, e deixou as lgrimas silenciosas correrem em seu rosto. Uma vez no carro, Teri


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comeou a chorar de verdade. Scott acendeu a luz e tentou examinar o seu p. Estava
coberto com sangue e areia.

- Melhor ver isso em casa. Fica melhor se deixar levantado? Ele enrolou a toalha e
colocou o p dela sobre o painel.

- Acho que sim, um pouco. Sei l. Ta doendo muito, Scott. Muito, muito, muito! Teri
deixou escapar mais uma onda de lgrimas.

- Ta bom, j sei! disse ele, e depois repetiu mais calmo, depois de ligar a ignio  Eu sei
que ta doendo. Vai doer mesmo. Estou te levando pra casa. S no me bota presso.

- Mas eu no to... disse Teri, bem baixinho. Teri engoliu as lgrimas e tentou controlar
seus lbios trmulos. A pacincia de Scott parecia estar chegando ao limite, e ela no
queria que ele ficasse bravo por sua causa.

Em casa, Scott a ajudou a ir mancando pela porta da frente, e a acompanhou at o
banheiro, onde ele ligou a gua quente da banheira.

- Pe o p aqui, disse ele, mais irritado que compassivo  Agora deixa ver o que voc fez.

Ele levantou o p e examinou o estrago.

- Ainda tem um pedao aqui. Quer que eu tire? Onde tem pina?

- Acho que na gaveta de cima, disse Teri.  Ta muito fundo? Ela tentou torcer o p para
cima, para que pudesse ver. No parecia nada bom.

- Ta, agora agenta firme, disse Scott, com a pina na mo.

Ele segurou o p bem firme e retirou o longo graveto. Teri deixou escapar um grito, o que
imediatamente levou Dan e Anita ao banheiro.

- Desculpa, desculpa, disse Teri, se sentindo uma idiota. As lgrimas caam novamente.
Ela estava com raiva de Scott por ser to rude.

Scott explicou a Dan e Anita o que aconteceu. Dan sugeriu que a levassem na clnica 24
horas em Lahaina.

- Eu levo, disse Anita, imediatamente tomando seu lugar de irm mais velha  Vou s
trocar de roupa.

- No, eu levo, disse Dan.  Voc volta pra cama, Anita.

- Eu posso lev-la, ofereceu-se Scott.

- No, Scott. Eu levo. Voc tambm tem que trabalhar cedo amanh.

- Se voc insiste...

- Insisto.



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Os dois homens levaram Teri ao carro de Dan. Ela se sentia ridcula. Mesmo assim, ela
estava com muita dor, e tudo o que importava agora era que algum tirasse aquela
porcaria do seu p. Escorregando no banco da frente, Teri ergueu o p enrolado na
toalha sobre o painel. Scott recuou e deixou Dan assumir.




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CAPTULO CATORZE

Pelos prximos quatro dias, Teri teve muito tempo para pensar. O mdico que removeu
os gravetos do foguete do seu p deixou com oito pontos, um vasinho de antibiticos, e
instrues severas para que descansasse o p por uma semana. Ela seguiu todas as
instrues e aplicou fielmente o gel da babosa de Aninha para ajudar na cura. Sua av
havia instrudo as duas sobre este velho remdio.

No que Teri mais pensou foi em Scott. Ele no veio na quarta-feira, o dia depois do
acidente. Primeiro, ela ficou chateada. Da se lembrou da conversa que ele tivera ao
telefone na noite anterior. El disse alguma coisa sobre trabalhar  noite s sete. J Dan
dissera a Scott que ele trabalharia logo cedo. Teri imaginou que ele estava trabalhando
dobrado e que ligaria ou que apareceria com um buqu de flores logo que pudesse. Mas
ele no ligou nem apareceu.

Teri finalmente teve notcias dele na quinta  noite, quando ele telefonou. Disse que
tinha marcado de velejar na sexta de manh, e que sabia que ela entenderia. Ela
entendeu. Ou quase isso. A vida de todo mundo no podia parar por causa da dela.

Anita no era a melhor das companhias. Ela estava lutando contra os enjos pela manh,
ficava exausta se no tirasse um cochilo todas as tardes. Entre uma coisa e outra, ela
estava trabalhando freneticamente nas teclas do computador, tentando cumprir seus
prazos.

Teri acampou no seu sof-cama e ficou bem arranjada com a variedade de programas de
TV durante as tardes. Na sexta  noite ela estava implorando para que Dani trouxesse
alguns filmes pra ela - um monto de filmes. Tudo o que Anita queria era comida
chinesa, de manh, ao meio-dia e  noite. Dan e Anita trabalhavam no restaurante nas
noites de sexta, mas Dani chegou mais cedo com comida chinesa e seis filmes.

- Meu heri! disse Teri, enquanto comia seu ltimo pedao de rolinho primavera. - Vou
ficar doida se continuar nesse cio. J li trs romances, dormi o suficiente para os
prximos dois anos e decorei todos os comerciais da ilha. Para provar, ela recitou o
slogan do Blackie's Bar com voz de pirata.

- Ta bom, ta bom, ns acreditamos, disse Anita, abaixando os hashis e indo  porta. -
Vamos, Dani, no quero me atrasar. At mais tarde, Teri. No precisa ficar esperando e
no deixe nenhum estranho entrar.

- No vou. Divirtam-se vocs dois tambm.

Eles saram rapidamente e Teri se sentou para assistir o primeiro filme. Era um filme de
luta sem enredo, do qual ela desistiu em menos de dez minutos.

- Eu devia ter imaginado que tipo de filmes Dan locaria, murmurou ela - Espero que no
sejam todos do mesmo jeito.




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Ela procurou entre eles e encontrou quatro "filmes de homem". Ento ela riu quando viu
A Novia Rebelde. Ela no via desde que era criana, e nem se lembrava se tinha assistido
ao filme inteiro.

Ela colocou o filme e se ajeitou enquanto Julie Andrews brincava pelos Alpes Austracos,
cantando com todo o corao. Quando a personagem de Julie Andrews, Maria, voltou
correndo ao convento, Teri percebeu que ela sentia falta de caminhar. E de correr. E de
se mexer.

Ela sentiu sono antes do fim do filme, e acordou quando Dan e Anita chegaram pouco
depois da meia-noite. Ela ficou instantaneamente desapontada. Scott no ligou nem
passou por l como ela pensava intimamente que ele faria. Depois que Dan e Anita foram
para a cama, Teri ficou acordada, pensando em como Scott tinha meio que a abandonado
na noite do acidente quando Dan a levou ao pronto-socorro. Parecia esquisito para ela
que Scott fosse at o outro lado da ilha para levar um colega de trabalho ao hospital duas
noites antes, mas que pudesse entreg-la a Dan sem sequer hesitar. Por que ele no
podia vir para v-la se ele morava a trs quadras dali? Quatro dias depois do acidente, a
nica coisa que ele fez foi ligar uma vez.

Teri ligou para Scott no sbado de manh. Mas ele j tinha ido e a secretria eletrnica
estava ligada. A mensagem dela foi bem simples. " a Teri. Me liga uma hora dessas".

Ele finalmente respondeu no sbado  noite.

- Que semana! comeou ele - Eu planejei ir a vrias vezes, mas no deu certo. Espero que
j tenha se recuperado, porque fiz uma reserva pra jantar.

- Scott, eu tenho que ficar em repouso por uma semana.

- E j passou quanto tempo?

- Quatro dias. Quatro longos e solitrios dias.

- E  por isso que voc precisa sair dessa casa. Vamos... Voc no tem muletas ou algo
assim?

- No.

- Ok, ento vamos ao plano B. Vou levar o jantar pra voc. Que tal?

Teri comeou a relaxar. Scott estava tentando ser legal.

- Qualquer coisa est bem pra mim. Eu aprecio seu gesto, Scott.

- Tudo bem. Dan e Anita esto em casa? Ser que  bom eu levar pra eles tambm?

- Seria timo. Aninha ta numa dieta de comida chinesa ultimamente.

- Ento ta fcil. Chego em uma hora.

Teri desligou o telefone lutando contra a apreenso que sentia. Da ltima vez em que ele
disse que chegaria em uma hora chegou quase seis horas depois. O que os homens como

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Scott tem que os exime das restries de tempo e compromissos a que todos esto
sujeitos? Teri no sabia bem se gostava disso. Mas era parte da pessoa dele. Talvez ela
estivesse julgando demais, como ele disse no veleiro.

Scott chegou em uma hora, cheio de comida chinesa, flores, filmes e uma caixa de
chocolate coberto com macadmias. A noite prometia ser divertida.

E foi. Scott foi encantador como sempre, ele e Dan conversaram sobre o negcio das
tamales, e at Aninha se rendeu quando ele a entregou seu ltimo desejo: camaro
agridoce. Tudo parecia normal, como na tera, quando comiam tamales. Teri eliminou a
raiva que sentira de Scott nos ltimos quatro dias.

- Acha que estar bem na sexta? disse Scott.

- Espero que sim. Tenho consulta tera-feira.

- Que tal se a gente velejasse de novo? Sexta  o melhor dia pra mim, desde que a gente
volte antes do meio-dia. Scott se sentou em uma cadeira perto do sof. Ele estava com
uma camisa branca e short roxo. Ele parecia  vontade, como se pertencesse a este lugar,
como se ele e Teri j fossem um casal e estivessem fazendo planos para a prxima
semana. Ela gostava disso.

- Ei, Dan, chamou Scott, Dan estava no canto da cozinha - te falei que consegui a folga
para o acampamento?

- Que beleza! disse Dan, colocando a cabea pra fora da porta. - Teri, acho que no te
disse, mas outro cara desistiu, da voc e Gordon podem ir.

- Posso fazer uma pergunta? disse Teri. - Eu sou a nica mulher da turma?

Dan parecia conferir uma lista mental.

- Acho que sim. Voc se importa?

- No sei. Vocs no esto planejando me fazer de cozinheira oficial e catadora de lenha,
ou algo do tipo, n?

- No. Todos os acampantes esto no mesmo nvel. Vamos todos trabalhar.

- Que bom, porque no estou interessada em ser mascote de ningum, no.

- Pode ser minha mascote, brincou Scott.

Teri olhou feio para ele.

Dani voltou  cozinha quando Scott falou:

- J pensou como nossas vidas seriam diferentes se tivssemos namorado no Ensino
Mdio?

Ela j tinha pensado nisso, s um pouquinho. Mas estava impressionada que Scott tivesse
pensado nisso tambm.


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- Primeiramente, o Ensino Mdio foi h muito tempo atrs. Alm do mais, acho que no
era o seu tipo, disse Teri.

- Claro que era. Por que est falando isso?

- Bom, primeiro, tem a coisa da cultura. No foram muitos caras brancos do time de
futebol que namoraram garotas latinas.

- Caras brancos? Voc me ofende com essa denominao.

Ela no podia dizer se ele estava realmente falando srio.

- Como quer ser chamado?

Scott pensou por um minuto, e com um sorriso no rosto disse:

- Pode me chamar como o treinador chamava a mim e Rick Doyle: po de queijo e queijo
minas5.

- Eu vou me lembrar disso, disse Teri. - Mas honestamente, voc no acha que todas as
suas viagens te deixaram com a mente mais aberta pra outras culturas? Eu no acho que
voc me namoraria no colgio.

- Claro que namoraria.

Teri balanou a cabea.

- Pense. Quantas garotas de cultura diferente voc namorou?

Scott pareceu demorar bastante para responder.

- Eu sei que  difcil pra voc. Admita, Scott. Eu estou certa. Voc sequer consideraria
namorar comigo.

- Eu ainda discordo, mas qual  o seu objetivo? Acha que eu tenho algum problema com
diferenas culturais? Eu amei suas tamales, no foi?

- Ah, no, nunca pensei nisso, disse Teri. A diferena cultural tinha sido um dos muitos
pontos em que ela pensou nos sues ltimos dias de invalidez. Dan e Anita pareciam dar
to certo por causa da sua semelhana cultural. Mark era to calmo que Teri nunca
chegou a pensar sobre isso com ele. Na verdade, ela sabia bem pouco sobre sua cultura e
seus ascendentes. Isso a fez pensar se por acaso algo que parecia normal e aceitvel para
Scott por causa de sua cultura poderia ser inaceitvel para ela.

A face de Scott tomou uma expresso mais sria.

- Teri, se voc est dizendo que somos incompatveis porque seu bronzeado ser sempre
mais escuro que o meu, acho que voc est meio 'disparatada'. Eu estou muito a fim de
voc. J percebeu isso?


5
 No original  Wonder Bread e Miracle Whip. Um po branco e um molho tipo requeijo q eu s
sei que tem pprica. Enfim, os dois so brancos e combinam. Como po de queijo e queijo minas.
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Ele fez aquilo de novo. Aquele olhar doce em seus olhos cinzentos, aquela voz grave
baixinha, e a sua mo que agora alcanava a dela. Tudo isso somado significava uma
coisa: ela foi fisgada.

- Temos muita coisa boa daqui pra frente, Teri. Se solta um pouco, ta bom? Vamos deixar
acontecer, ok?

Teri acenou que sim.

Na prxima sexta-feira, quando ela e Scott embarcaram no Moofish e prepararam as
velas para velejar pelo Maalaea, ela ainda se sentia fisgada por Scott. Ela ficou seis dias
pensando naquele passeio; Ela tinha visto Scott duas vezes naquela semana, durante uns
cinco minutos, quando ele parou para dar uma carona para Dan at o trabalho. Ela mal
podia esperar para estar bem de novo, e esta hora velejando era sua recompensa por
seguir to diligentemente s ordens mdicas.

Quando ele a examinou uma semana aps o acidente, ficou impressionado ao ver como
tinha cicatrizado rapidamente. Ela sugeriu que a babosa de sua av foi a principal causa.
O mdico sorriu e sugeriu que os pontos precisos e o milagre dos antibiticos modernos
a tinham curado.

Sentindo como se tivesse perdido uma semana inteira de suas preciosas frias, Teri
parecia aguardar por este dia velejando mais do que ela imaginava que Scott estaria.

- Muito bem, gritou Scott para ela da popa, enquanto ele ligava o motor. Ela ainda estava
no estaleiro.  Lembra do que tem que fazer agora? Voc solta o barco.

Teri pegou a corda que segurava o barco e desamarrou rapidamente. Ento, segurando
firme, ela desceu at o Moonfish que j estava saindo.

- Pula! Gritou Scott.

Ela pulou, e cravou com o p machucado. Um raio de dor subiu por sua perna.

- Ai!

- Voc ta bem?

- To sim, gritou ela de volta, brava consigo mesma por ser to infantil.

- Pode pegar as bias? A dos lados. Voc tem que coloc-las para dentro.

Teri foi ao trabalho, ignorando as pontadas desconfortveis em seu p e tentando fazer o
melhor para se lembrar de tudo que teria que fazer para que o Moonfish ficasse com as
velas cheias, uma vez fora do estaleiro. Ela trabalhou bem com Scott, e trabalhou duro.
Precisava de bastante fora nos braos para iar as velas, e embora ela no tivesse sido
molenga, tambm no estava em sua melhor forma.

Ela imaginou se seria capaz de agentar o tranco no acampamento com os rapazes. Eles
sairiam em dois dias, o que no era tempo suficiente para entrar em forma.



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O cu estava claro, e a brisa matutina estava mais quente do que da primeira vez em que
velejaram. Teri inclinou a cabea para trs e sentiu o vento contra seu rosto. Ela amava
essa sensao. No havia nada no mundo igual a isso. Da ltima vez em que saram, Teri
entrou em pnico quando o vento encheu as velas e virou o barco de tal forma que ela
pensou que iria cair se sasse do assento. Hoje ela andava mais graciosamente. A
sensao a fazia mais cheia de vida, ao invs de temerosa da morte.

Teri olhou para Scott. O vento balanava seu cabelo para todas as direes. O sorriso de
um aventureiro estava estampado em seu rosto.

Estou velejando em Maui com Scott Robinson. No acredito!  muito melhor do que nos
meus melhores sonhos.




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CAPTULO QUINZE

- Tem ideia, sussurrou Scott no ouvido de Teri  de como voc  linda?

O veleiro flutuava suavemente no mar calmo. A ilha de Maui parecia uma miniatura
enquanto eles deslizavam no mar azul, no meio do caminho para Lana'i. Teri se inclinou
para o peito de Scott e sentiu seus fortes braos bronzeados a envolverem. Ele afundou
seu rosto no cabelo dela e disse:

- Que cheiro gostoso. Eu poderia me perder nos seus cabelos, Julie.

Teri congelou. Ela se afastou repentinamente e olhou para ele.

- Julie?

- Julie? Repetiu ele, parecendo no fazer ideia do que ela estava falando.

- Voc me chamou de Julie.

- No chamei, no. Ele sorriu e estendeu os braos para que ela voltasse.  Eu admito que
 difcil para um homem formar palavras racionalmente quando est envolvido nesses
cabelos. Mas voc me ouviu mal. Scott parecia inocente.  Julie? Repetiu ele erguendo as
sobrancelhas.  De onde voc tirou isso?

Teri analisou sua expresso e decidiu que ou ele era um excelente mentiroso ou estava
falando a verdade. Nada em seu comportamento insinuava que ele cometera algum
deslize.

- Sabe, disse Scott, sentando-se   por isso que a gente vive tendo problemas n? Voc 
muito nervosinha.

- No sou, no.

- Olha, ajudaria se voc descobrisse qual  o seu problema.  como se voc no quisesse
que ns fiquemos juntos.

- No  isso, Scott.

- Ento qual  o problema? Sua voz saiu alta e imperativa, como no carro na noite em
que ela pisou no foguete. Suas lgrimas o tinham irritado naquela noite. Ela se recusava a
chorar agora.

- Eu sou cautelosa, disse Teri, tentando parecer forte e confiante.  Voc no tem
problemas com isso, tem? Scott passou os dedos pelos cabelos, sem responder.

Teri se sentia pssima. O clima romntico tinha se quebrado. Mesmo Scott parecendo
controlar sua raiva, ela via que ele estava bravo com ela. Ela sentia como se ele tivesse
um vulco em seu interior.

- Vamos voltar, disse Scott, bem firme. Ele se levantou e comeou a trabalhar nas velas
como se fosse um rob.


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- Desculpa, disse Teri.

Ele sorriu de volta, como se aceitasse as desculpas. Ela queria que ele voltasse para ela e a
abraasse, e que a fizesse ter certeza de que ela era a mulher que ele queria. A tenso era
horrvel. Como podia ser tudo maravilhoso e de repente ficar tudo pssimo em poucos
minutos?

Teri estava convencida de que era ela. Scott estava certo; ela julgava demais, era muito
rgida. Mesmo em um momento maravilhoso, ntimo, ela era desconfiada, sempre
ouvindo coisas.

 isso! Eu vou mudar. De agora em diante, eu serei mais aberta, livre e confiante. Da
prxima vez em que Scott me tomar em seus braos e me beijar, eu o beijarei de volta! Vou
mostrar pra ele que no sou nenhuma puritana nervosinha. Se eu deixar esse homem
escapar, no sei o que fao. Nunca mais terei outro homem como Scott Robinson na minha
vida!

Quanto mais Teri se convencia do seu plano, mais difcil se tornava entrar em ao. Ela
foi criada para ser cuidadosa e recatada com seu corpo e seus atos. Levaria algum tempo
para que todas as partes dela agissem conforme sua deciso.

O caminho de volta ao Maalaea foi tenso e silencioso. Ignorando o problema entre eles,
Scott comeou a falar sobre o trabalho enquanto iam para casa. Ele parecia bem 
vontade, e agia normal com ela, como se nada tivesse acontecido. Talvez no tivesse sido
to horrvel para ele como foi para ela.

- Quer ir  igreja comigo no domingo? disse Teri  Voc disse que queria voltar a ir 
igreja.

Scott olhou para cima, esperando o semforo acender a luz verde. Eles estavam em
Lahaina, prximos s enormes chamins negras das refinarias de cana-de-acar.

- Nesse domingo no. Quem sabe semana que vem.

- Como est sua escala? Tentou Teri novamente.  Quer fazer alguma coisa amanh ou
domingo  tarde?

- Vou ter que te ligar depois pra ver isso. O sinal abriu, e eles prosseguiram em meio ao
congestionamento no fim da manh, em direo ao norte de Napili.

- Eu queria muito que a gente tivesse um tempo pra fazer alguma coisa juntos, se estiver
tudo bem pra voc, disse Teri. Ento, deslizando o brao para o espaldar do banco dele,
Teri acarinhou sua nuca. Scott se encolheu com assim que ela o tocou.

-  o sol, disse ele.

Teri rapidamente tirou seu brao.

- Ai, desculpa.

- Por que voc faz isso?

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- Isso o qu?

- Fica pedindo desculpas o tempo todo. No  sua culpa que eu queimei a nuca. Voc no
tem que se desculpar por tentar fazer algo legal comigo, como fazer um carinho no meu
pescoo. Na verdade, eu fico feliz que voc esteja se soltando um pouco. Eu gosto
quando voc se aproxima de mim ao invs de eu ter que me aproximar de voc.

Teri guardou isso em sua mente. No minuto em que eles estacionaram em frente  casa e
Scott desligou a ignio, ela se inclinou e beijou sua bochecha.

- Obrigada pelo passeio, disse ela, olhando em seus olhos.  Eu amo estar com voc, vou
ficar aguardando.

Scott parecia satisfeito, como se esse fosse o tipo de tratamento que ele esperasse. Ele
ficou l, saboreando o momento.

- Voc estava certo sobre ser rgida demais, disse Teri, tentando fazer seus olhos
castanhos bastante expressivos  Vou trabalhar nisso, voc vai ver s. Ento ela inclinou
o queixo, como se o convidasse a beij-la. Foi um beijo recproco, ela voluntariamente o
beijou, e ele voluntariamente recebeu seu beijo. Nesse novo balano, Teri se sentia
poderosa. Nenhum dos dois poderia negar os fogos de artifcio que havia entre eles.

- Mais que isso, disse Scott, encostando o nariz no cabelo dela  Eu sabia que voc sentia
algo por mim. Por que no me beijou assim antes?

- Eu preciso ir devagar, Scott. Muito devagar. Entende o que eu estou dizendo?

- Claro que entendo. Mas por que voc no diz? O modo como voc me afastava, era
como se tivesse nojo de mim.

Teri se afastou e olhou para ele, chocada.

- Como pode pensar uma coisa dessas? Claro que no, Scott! Estou muito a fim de voc.
Desculpa se te fiz pensar o contrrio. Ele tocou seus lbios no momento em que ela disse
`desculpa'.  Ai, fiz de novo, n? Vou trabalhar nisso.

- Que bom, disse Scott se alongando.  Queria no ter que trabalhar agora. Te ligo
quando tiver folga.

- Ta bom, sussurrou Teri de volta. - Tchau, Scott. Ela se afastou e saiu do carro.

Ele acenou. Ela acenou. Seu corao ainda batia forte. Teri sorria enquanto se dirigia 
porta da frente. Assim que abriu a porta de correr, encarou sua irm com as mos nos
quadris.

- Ou, disse Teri carinhosamente, passando por ela em direo  geladeira em busca de
algo para beber.

Anita a seguiu. Levantando as duas mos, Anita olhou para o cho e disse:

- Eu sei que voc no vai querer ouvir isso.


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- Ouvir o qu? Teri abriu uma lata de refrigerante e seguiu a irm at o sof.

- Eu vi voc e Scott no carro agora h pouco, e fiquei preocupada.

- Por qu? No tem nada com o que se preocupar.

- Teri, quero saber o que h entre voc e Scott.

- No tem nada. Ns fomos velejar. Passamos um tempo juntos. A gente se gosta.

- Parece que vocs esto bastante envolvidos. Acha mesmo que  uma boa ideia, Teri? Ele
no  o cara certo pra voc. Como  que voc no v isso?

- Ei, eu no sei se ele  o cara certo ou o cara errado, mas eu tenho o direito de descobrir
isso sozinha, no tenho? Quantas vezes a gente tem que voltar nisso? Voc no  minha
me. Ta bom? Repita `Eu no sou a me da Teri'.

- Mas eu sou a irm da Teri, e como tal estou te falando que Scott Robinson no  o cara
certo pra voc.

- Ah, sim, e que autoridade voc tem pra falar disso? Conhece do assunto? Do que voc
est falando, Anita? Por acaso Deus fala com voc, e no comigo?

- Talvez.

- Voc est maluca.

- Ser? Ento me responde s uma coisa. Voc orou sobre Scott e pediu a Deus para te
mostrar qual  o melhor dele pra voc? Eu sei que voc assistiu um monte de filmes e leu
vrios livros enquanto esteve aqui, mas eu no te vi ler a Bblia. Voc costumava ser
aquela que nunca perdia seu tempo a ss com Deus. O que aconteceu com voc, Teri?

Teri podia sentir a raiva subindo por dentro.

- Eu no vou entrar no seu joguinho de culpa, Anita. Voc no  nem minha me, nem o
Esprito Santo. Quer que eu fique te perguntando quando foi seu ltimo devocional? Ou
quer que eu fique te acusando de no confiar em Deus para cuidar do seu beb? Voc 
muito rpida para julgar. Voc no  perfeita! Me deixa em paz, ta bom? Teri marchou
para a porta  Queria nunca ter vindo aqui!

Ela bateu a porta e desceu furiosa para a praia. Em todos esses anos, e de todos os
argumentos que ela e Anita j usaram, esses foram os piores. Ela nunca quis machucar
sua irm, e sentia que tinha feito isso agora.

Teri comeou a correr. Correu por quase quatro quadras antes de sentir que seu chinelo
estava esfregando na cicatriz em sue p, fazendo subir uma dor incmoda em sua perna.
Ela continuou a caminhar mais devagar, abrindo caminho na praia em direo a algumas
rochas vulcnicas que adentravam na gua. Ela podia ver algum vindo de outra direo,
parecendo seguir para o mesmo local.

Nem pense em ir pra l!  o meu canto. Achei primeiro! Teri acelerou o passo e chegou ao
lado mais baixo das rochas, ignorando a outra pessoa. Ela parou no topo, impulsionando-

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se para o lugar mais alto, provando a todos os que passavam que ela conquistara o local
para si.  claro que outros turistas continuariam andando. Ningum em s conscincia
ousaria enfrentar Teri no estado emocional que ela estava nesse momento.

- Dia, Teri, a alegre voz de Gordon veio de trs dela.  Olha s que coisa! Voc veio
justamente no meu cantinho de orao favorito.

Teri virou-se e lanou a ele um olhar que assustaria at um pirata. Mas ela nunca soube
se ele percebeu seu olhar ou no, pois nesse exato segundo, Gordon escorregou em uma
pedra molhada. Em um esforo para se segurar, ele agarrou o brao de Teri. Ela tentou
puxar o brao. Tarde demais. Em um tombo desajeitado, os dois capotaram na rocha e
caram na gua.




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CAPTULO DEZESSEIS

Teri emergiu desesperada por oxignio e cuspindo gua salgada. Gordon subiu um
momento depois, rindo, e se sufocando, e rindo mais um pouco.

- No tem graa! resmungou Teri bem no momento em que uma onda veio por trs dela
e a empurrou, deixando-a perto da costa. Ela meio se arrastou, meio nadou, o resto do
caminho, com Gordon vindo logo atrs. Vrias pessoas na costa viram o acidente, e
foram at l ver se estava tudo bem.

- Voc est bem? perguntou uma senhora gorda. - Posso te ajudar em alguma coisa?

- No, disse Teri, tirando o cabelo da cara. Ela ainda estava ofegante. - Eu to bem.

- Nenhum dano, ento? perguntou Gordon, se levantando e torcendo a ponta da sua
camisa havaiana.

Teri repetiu seu olhar ameaador para ele, s que dessa vez ela estava encharcada de
raiva.

Os curiosos se dispersaram. Gordon penteou para trs seus cabelos castanhos. Seus olhos
ainda estavam apertados, e ele estava sorrindo, s que no ria mais. Ele se ajoelhou na
areia perto de Teri e olhou gentilmente para ela. Ela nunca tinha notado que ele tinha
covinhas. Elas davam a ele uma feio infantil. Seus olhos, bem abertos e olhando
profundamente nos dela, eram azuis como o cu de Maui, ao fundo de sua cabea. A mo
de Gordon gentilmente pousou em sue ombro.

- Tem certeza de que est bem, Teri?

Ela continuou olhando para ele. Nada dentro dela dizia [i] V embora[/i], nada a fazia ter
medo daquele homem. Talvez sabendo que ele era um pastor, ou que planejava ser, a
fizesse menos temerosa perto dele. Tudo o que ela sabia agora  que ele tinha um
misterioso poder calmante sobre ela.

- Sim, estou bem.

- Bem, se  assim, ele tirou a mo e sentou-se perto dela. Ela olhou para o cho, ele
olhava para ela. - Se voc est bem, eu quero te pedir um favor.

- Um favor?

- Sabe, eu voltarei ao seminrio no outono. Eu sei que eles vo me pedir um relatrio, e
isso tambm vai ajudar na minha graduao, e tal.

Teri no fazia ideia sobre o que ele estava falando.

-  sobre as minhas funes como pastor. Ento, se no se importa em responder
honestamente, para o relatrio do seminrio e tudo mais... voc diria que esse batismo
foi um sucesso?

Um riso lento veio do interior de Teri, e ela riu como no fazia h dias, talvez semanas.

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- Eu vou registrar sua resposta, disse ele. Ento, levantando-se e tirando a camisa e os
tnis encharcados, ele ficou s de sunga e disse - Um pouco de natao cai bem agora,
no acha?

Teri no poderia recusar. Ela ainda estava com o mai que fora velejar pela manh, e
alm do mais, j estava molhada. Por que no mergulhar novamente com esse cara? Ela
tirou as sandlias.

Ele sorriu para ela e correu para a gua. Teri tirou a blusa e os shorts molhados e viu ele
mergulhar. Entrando devagar na gua, ela percebeu como o oceano estava quente. O jato
de gua tinha sido refrescante. Ela s tinha entrado na gua duas ou trs vezes durante as
frias, isso pra ela era um crime. Ela amava a gua. Ela amava nadar. Um mergulho
relaxante a ajudaria a abrandar um pouco antes de ver novamente sua irm.

Ela permaneceu na beira do mar, molhando os ps na areia quente e molhada, vendo
Gordon mergulhar como um golfinho sob a prxima onda. Seu corpo emergiu e correu
para a praia, onde segurou os tornozelos de Teri, usando seus dedos de ccegas para
persuadi-la a entrar na gua. De volta ao mar para perseguir outra onda, Teri entrou e
nadou atrs de Gordon.

- J viu dia mais lindo que esse? Perguntou Gordon. Ele ergueu a cabea para o cu azul
e, em voz mais alta que podia alcanar, gritou  Bom trabalho, Deus! Esse ganhou de
todos!

Teri pensou que Gordon era a pessoa mais peculiar e de esprito mais livre que ela j
conheceu. Alguma coisa a atraa a ele. Ela no fazia ideia do qu. Ele era um palhao. Ele
a levara ao oceano. Era de uma cultura diferente, e ela no estava certa sobre sua idade,
mas imaginava que ele era de uma dcada diferente da dela.

Enquanto eles balanavam sobre as ondas, Teri pensou que ela devia se sentir atrada por
ele ser pastor. Quando estava perto dele, ela sentia uma estranha mistura de alegria e
paz, dois elementos que no estavam presentes naquela manh no veleiro com Scott. O
que Anita disse sobre o sermo de Gordon depois da ceia atrapalhada? Algo sobre o
ritmo esquisito da graa. Teri queria se sentir daquele jeito. Por um momento, ela
considerou se abrir com Gordon e pedir por um conselho sobre Scott. Mas alguma coisa
a dizia que ele tambm diria para que ela se separasse dele antes que se machucasse.

Eles seguiram algumas ondas at a costa, ento nadaram de volta para esperar ondas
maiores que os levassem novamente. Eles no conversaram muito, mesmo assim Teri
no se sentia desconfortvel. Ela se sentia muito livre, livre para ser ela mesma, livre para
dizer e fazer o que quisesse. Ela s se sentiu desconfortvel com suas coxas, assim que ela
e Gordon saram da gua. Mas seu desconforto era mnimo comparado ao que sentia
quando estava perto de Mark ou at mesmo de Scott. Gordon parecia ver tudo de um
jeito to espiritual que no notava aspectos menos importantes como a aparncia fsica.
Nesse ponto, ele a lembrava de seu pai.

Teri queria ter uma toalha agora. Suas roupas estavam quase secas, bem quentes. Ela
sacudiu a areia da saia e a usou para enxugar o rosto.


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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

Gordon sacudiu o cabelo na beira do mar. Ele a lembrou de alguns surfistas do colgio.
Eles tinham uma aparncia especfica, um jeito prprio. Gordon parecia um surfista
veterano.

- Por acaso voc surfa? Perguntou Teri quando ele chegou perto dela.

- Como voc sabe?

Teri deu de ombros.

- Voc parece gostar de gua.

- Uns chapas e eu chegamos s finais na Austrlia.

- Srio? Quando foi isso?

- Deixa eu ver... ah, uns dezoito anos atrs.

Teri riu.

- Eu estava no jardim de infncia.

- Ento acredito que voc no estivesse muito interessada em assistir as finais na telinha
naquele ano. Eu arrebentei meu tmpano em rede nacional. Esse aqui, Ele apontou para a
orelha direita.  A prancha foi pra baixo da onda e capotou desse jeito, Ele mostrou com
as mos.  Virou de lado e caiu em cima de mim, como um martelo batendo um prego
em uma folha de papel.

- Voc perdeu a audio nesse ouvido?

- Qu?

- Eu perguntei se voc... ela viu que ele estava sorrindo e percebeu que era uma
brincadeira.

- Eu posso ouvir os sons mais alto se estridentes. Mas a maior parte da minha audio se
foi. Acabou com meu equilbrio. Agora  sua vez.

- Minha vez de qu?

- Qual  sua maior deficincia fsica?

- Ah, eu pisei em um graveto de foguete semana passada, Ela mostrou a ele a marca em
seu p.

Gordon fez uma careta, como se estivesse com d. Parecia um bobo.

- Ta, no  l uma deficincia. Voc venceu.

- Eu tenho mais.

- Como assim? Disse Teri.  Voc tem mais deficincias pra compartilhar comigo?

- Eu no quero compartilhar com voc. S quero te falar sobre elas.

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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Por qu? Disse Teri, com vontade de rir.

Gordon ficou srio e demorou um minuto antes de dizer:

- Acho que voc precisa saber.

Teri tentou segurar o riso. Ela nunca conheceu algum que passasse a primeira conversa
falando de suas desgraas.

- Ta vendo esse dente de ouro aqui atrs? Ele virou a cabea pra trs e abriu a boca,
revelando uma prtese de ouro no lugar de um molar do lado direito.  Foi quando eu
tentei abrir uma garrafa de cerveja no dente.

- Ta brincando, n?

- No. Foi dois anos depois do acidente com a prancha. E ta vendo isso aqui? Ele mostrou
a ela uma fina cicatriz que ia do dedo mindinho at o pulso.  Foi num acidente de moto,
eu tinha quinze anos.

- Mais algum? Perguntou Teri, fazendo graa, quando ele terminou.

- No,  s. E so todos do lado direito. Meu lado esquerdo ainda est em tima forma.
Gosta de caf?

Teri se espantou com a pergunta fora de contexto.

- Sim.

- Legal.

Ento ficaram em silncio. Gordon olhou para o oceano, perdido em seus pensamentos.
Teri estava certa de que ele iria cham-la para tomar um caf. Por que mais ele
perguntaria se ela gosta?

- Eu me tornei uma nova criatura em Cristo h oito anos.

Teri nunca tinha ouvido algum expressar isso dessa maneira. Mas com o passando
obviamente selvagem de Gordon, talvez o mais importante para ele foi poder comear
uma nova vida quando se tornou um cristo.

- E voc?, ele perguntou.

- Acho que foi quando eu tinha trs anos. Ou quatro. Orei com minha me em meu
quarto uma noite e entreguei meu corao a Jesus. Voc sabe que meu pai  pastor, n?

Gordon balanou a cabea, afirmando.

- Voc no ri as unhas, n?

- No costumo, disse ela, comeando a perder a pacincia.  Por que voc quer saber?

-  que essa  a nica coisa que eu no suporto. Isso  Halloween.


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- Ta bom, ento. Disse Teri, olhando pra ele.   bom saber essas coisas sobre uma
pessoa, eu acho.

- Do que voc no gosta? Perguntou Gordon, seu olhar firme sobre ela.

- Sei l. Acho que dessas novelas que passam  tarde na televiso. E de brigar com minha
irm, que foi o que fiz esta tarde. Eu tenho que voltar e fazer as pazes.

Gordon continuou olhando para ela, como se tentasse ler seus pensamentos, como fez na
noite em que entregou aquela pizza. Agora ele a prendia com seu olhar. Teri quase sentia
como se ele a segurasse sem mover um msculo. Ela deveria se sentir desconfortvel,
mas no se sentia assim.

- Melhor ir, disse Teri, levantando e colocando os shorts.

Gordon se levantou tambm.

- Vou ficar aguardando pelo nosso prximo encontro divino, disse ele.  Esse foi qual? O
terceiro?

- Ento  isso que so? Coca na minha perna, entrega de pizza, e um quase afogamento 
todos encontros divinos, hein? Teri balanou a blusa e enfiou os braos pelas alas. -
Acho que o meu anjo da guarda e o seu deveriam almoar juntos. Quem sabe assim eles
podem prevenir algum acidente de carro ou barco virado no nosso prximo encontro
divino.

Gordon sorriu.




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CAPTULO DEZESSETE

Anita ajudou Teri a ajustas as alas da mochila e a aconselhou sobre o melhor nvel para
ajust-la na cintura. As duas irms fizeram as pazes na sexta  tarde quando Teri
retornou da praia, completamente exausta e totalmente humilhada.

Ela no viu Scott durante todo o fim de semana, o que deu a ela mais tempo para pensar
e orar, como sua irm aconselhara. Teri tambm retornara a ler a Bblia regularmente,
um hbito que tinha sido deixado de lado nas programaes das frias.

Agora era noite de domingo. Pela manh, Teri sairia com Dan e outros dez homens para
o acampamento `experincia-nica-uma-vez-na-vida'.

- Dan disse que tem mantas e travesseiros nas cabanas, ento eu s peguei pra voc um
lenol e uma fronha, disse Aninha  Eu tambm coloquei a capa de chuva nessa parte
aqui em cima. Ela retirou uma pequena e rechonchuda embalagem plstica cinza com
zper de presso.   pequeno, mas  eficiente.

- Acha mesmo que a gente vai pegar chuva por l? Tirando aquela chuva h uns
domingos atrs, o tempo aqui est perfeito.

- Pode acreditar em mim, do outro lado da ilha h um mundo totalmente diferente.
Lembra quando fomos a Hana ano passado? Esse  o lado seco da ilha. Vocs vo escalar
debaixo de uma floresta tropical-mida.

- Ta bom, ta bom. Acredito. Obrigada por me deixar usar suas coisas.

- Estou to feliz porque voc vai.

- Acho que eu tambm.

Teri pegou a mochila e apoiou-se na parede. Ela queria se sentar e ter uma conversa de
corao para corao com Anita, mas algo dentro dela no permitia que ela se abrisse.
Ela no disse a Aninha que encontrara Gordon na praia naquela sexta-feira, e agiu
durante todo o fim de semana como se no se importasse com o fato de Scott no ter
sequer para ela como disse que iria.

Teri no achava que estava pronta para passar os prximos dias em um quarto prximo
ao desses dois homens por causa da tenso que sentia.

E a tenso no era s com Scott. Agora ela tambm se sentia desconfortvel perto de
Gordon. Era ridculo ela se sentir daquele jeito, e ela sabia disso. No podia ser nada
romntico. Eles eram to opostos. Mas agora ela descobriu que estava estranhamente
atrada por ele.

Quando ela o viu na igreja naquela manh, ela desejou que ele se sentasse perto dela
como fez duas semanas atrs. Ele a cumprimentou, e seu sorriso e aperto de mo foram
calorosos e amigveis. Mas ele estava com Kai e a namorada. Gordon sentou-se com eles
do outro lado do corredor.



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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

Durante o culto, logo aps dos cnticos, anunciaram o "Coral Keiki". Todas as crianas
foram  frente e cantaram uma msica suave. Os primeiros dois versos foram em ingls,
o terceiro em havaiano. Enquanto elas se sentavam novamente junto a seus pais, o pastor
recitou um versculo que dizia que as crianas so beno do Senhor.

Teri podia sentir Gordon olhando para ela do outro lado do corredor. Ela virou a cabea
suavemente, o suficiente para que seus olhares se encontrassem. Ele sorriu e deu uma
piscada to de leve que ela ficou pensando se ele no tinha um problema naquele olho.
Ela voltou-se para a frente e tentou se lembrar qual olho piscara. Era o direito. Estava
explicado. Ele no disse que seu lado direito era todo defeituoso?

Se ele piscou, com certeza foi pra Aninha. Deve estar orgulhoso por ter pr-anunciado a
gravidez.

Ao invs de falar com Aninha naquela noite, Teri foi mais cedo para a cama. Ela e Dan
planejavam sair s 6:30 da manh seguinte para encontrar o resto do grupo no topo da
montanha.

Foi difcil pegar no sono com tantas situaes mal-resolvidas em sua vida. Tentando
evitar pensar nos seus problemas sentimentais, Teri comeou a trabalhar a situao do
emprego em sua mente. Uma parte dela queria ficar em Maui; outra parte no estava
pronta para abandonar a vida fcil e previsvel que ela levava em Glenbrooke. A vida aqui
no parecia normal para ela.

Dan continuava falando na ideia das tamales. Ele estava convencido de que se tivesse o
capital para comear, Teri poderia fazer tamales durante quatro dias na semana, seis
horas por dia, e eles poderiam ganhar mais do que ele ganhava hoje no resort.

Ela no se opunha  ideia das tamales. Era uma boa ideia. Mas quantas pessoas uma
pessoa pode fazer sem enlouquecer? Mesmo assim, poderia dar certo. Outra pessoa
construiu um imprio financeiro com nada mais que trabalho duro e uma receita de
biscoito. Dan tinha olhado alguns livros na biblioteca e estava estudando todos os
ngulos.

Se ela ficasse em Maui, quanto tempo poderia morar com Dan e Anita? E pra onde iria
seu relacionamento com Scott? Ele pareceu estar pronto para assumir um compromisso
quando eles estavam juntos. Ento ele passa dias sem ver ou ligar para ela. Ela sabia que
ele tinha uma extensa jornada de trabalho. Assim como Dan. Dan ainda tinha um
segundo emprego, e ela o via mais do que via a Scott. Ela caiu no sono enquanto
imaginava seu relacionamento com Scott.

Ela ainda estava pensando nisso na manh seguinte enquanto Dan dirigia na Estrada 30
que levaria  montanha vulcnica, Haleakala6. Teri estava pronta para ouvir outra
opinio e seu cunhado parecia uma boa escolha.


6
 Haleakala - http://static.panoramio.com/photos/original/7209693.jpg
http://www.hawaiianphotos.net/images/M-06%20Haleakala%20Sunrise%20Web-LG.jpg
http://www.cosmosvacations.ca/Common/Images/Destinations/haleakalanationalpark.jpg
http://downloads.open4group.com/wallpapers/haleakala-crater-haleakala-national-park-maui-
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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Voc acha que estou interessada em Scott porque nunca namorei nos tempos de
colgio?

- Sei l.  por isso.

- Eu j pensei nessa possibilidade mais de uma vez.

- Voc o ama?

- Eu no sei. Teri se sentiu desanimada por no conseguir responder a nenhuma
pergunta com convico.

Ela no achava que j tivesse se apaixonado realmente por algum. Com Luis,
logicamente, ela experimentou um certo nvel de amor. Mas seus sentimentos no eram
verdadeiros ou intensos a esse ponto.

O que ela realmente sentia por Scott? Ela experimentava uma cesta cheia de sentimentos
diferentes quando pensava nele, incluindo fogos de artifcio. Isso era importante.

- Aninha acha que ele no  o cara certo pra voc.

- Eu sei disso.

- Mas eu no me espantaria se ela estivesse com um pouquinho de inveja de voc.

- Inveja? Por qu?

- Porque voc  a irm caula dela, e voc est namorando o cara mais popular da classe
dela enquanto ela est amarrada comigo.

- Aninha no est amarrada. Ela  louca por voc! Vocs vo ter um beb. Por que ela
teria inveja de mim?

- Voc tem sua liberdade, disse Dan.  Voc ainda pode sair e se divertir. Ainda tem um
monte de opes disponveis. A vida dela  muito calculada. Por isso que eu acho que
esse negcio de tamales pode dar certo. Daria a ela algo novo para fazer. Ela est no
mesmo emprego h seis anos.

- No h nada de errado nisso, disse Teri.

- Voc conhece Aninha, ela gosta de variedade. Aventura. Ela est se mordendo por
dentro por no poder acampar. Ns dois amamos morar aqui, mas ela  a que mais
pegou o esprito da ilha.

- Eu no sabia de nada disso, disse Teri.  Por que ela no me conta essas coisas?

- Por que voc no conta para ela das suas lutas?

Ele a acertou em cheio. Teri tinha se resguardado de sua irm desde o incio das frias.
Por que ela pensou que elas eram prximas?


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http://www.bed-breakfast-maui.com/images/haleakala-crater-view.jpg
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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Vou te dizer o porqu, disse Dan.  Porque vocs duas passaram a maior parte de suas
vidas no aqurio da vida de filhas de pastor. Pra mim  bvio, mas Aninha no enxerga
isso. Vocs duas se condicionaram a viver de um jeito aceitvel s pessoas que esto te
assistindo. Mas agora no tem mais ningum assistindo, s que voc ainda no descobriu
quem verdadeiramente . Ento quando voc se machuca, o seu instinto aparece, e voc
se esconde onde ningum possa ver seus erros.

- Esta  uma psicologia bastante interessante, Dr. Dan.

Ele encolheu os ombros e falou com um exagerado sotaque alemo:

- Eu tenho observado minha paciente h muitos, muitos anos. Acredito que ela precisar
de mais alguns anos sob meus cuidados at estar completamente curada.

Teri deu um soquinho no brao de Dan. Ela o admirava. Aninha no fazia ideia de quo
valioso era seu marido. Ele a entendia completamente e a amava incondicionalmente.

Era isso que Teri queria. Verdade seja dita, ela era a invejosa, morria de inveja de Aninha
por ter uma pessoa to incrvel com quem compartilhar a vida.

O sol brilhava no cu claro da manh quando eles viraram para a Estrada 37 e seguiram
em direo ao vulco vestido de nuvens.

-  lindo, murmurou Teri.

A estrada passava por uma Maui quase interiorana. O verde exuberante das encostas e a
abundncia de flores coloridas lembrava a Teri o Vale Willamette7, no Oregon.

-  to diferente da praia. Vocs vm bastante aqui? Se eu tivesse o esprito da ilha, eu
passaria uns dias aqui.

- Infelizmente no. S viemos aqui algumas vezes. Com trabalho e tudo o mais  difcil
sair.

Eles passaram por algumas raquticas caixas de correio amontoadas no fim de uma
passagem ladeada de rvores alinhadas.

- Muita gente mora aqui? Perguntou Teri.

- Claro, bastante gente. Eu tenho uns amigos ali em cima em Ulupalakua que so
paniolos. Foi ao rodeio com eles ano passado em Makawao.

- Eu devia saber do que voc est falando?

- So pees de rodeio. Na verdade, paniolos  o havaiano para Espanoles.

- Pees da Espanha?

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 Vale Willamette - http://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/01/01/9d/bb/view-at-
willamette-valley.jpg
http://www.visitusa.com/wallpaper/valley3.jpg
http://www.ogpa.org/images/s_Western_Or.jpg
http://thesoggyblogger.blogspot.com/Willamette.jpg
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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Califrnia. Um dos reis havaianos, Kam III, eu acho, trouxe trs pees espanhis-
mexicanos da Califrnia h 150 anos para criar gado. Alguns paniolos que trabalham em
Ulupalakua hoje so descendentes desses trs.

- Uma histria e tanto, disse Teri.

- Verdade. Tem uma Maui completamente diferente pra c.

- Parece que sim, respondeu Teri, olhando pela janela a paisagem deslumbrante que
parecia passar por ela. Ela s estava ouvindo a metade do que Dan dizia. Alguma coisa
despertou nela quando ele mencionara os pees hispnicos da Califrnia. Ela percebeu
que, desde que chegou aqui, apreciou a maior diversidade cultural que j vira. Na sua
pequena cidade do Oregon, ela era uma entre poucos hispnicos que ali moravam. Isso
nunca foi problema, nem ela se sentiu discriminada alguma vez. Mas estava sempre em
sua mente o fato de que ela era diferente da maioria das pessoas da comunidade.

Em Maui, entretanto, a populao era como um caldeiro do qual ela no podia ficar de
fora. Pelo menos ela no se sentia como se fosse `de fora'. Alm do mais, ela parecia com
os nativos por causa da cor da pele. Essa era mais uma razo para que ela considerasse a
mudana para Maui.




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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

CAPTULO DEZOITO

- Aqui  o topo? Perguntou Teri assim que Dan virou para uma estrada com uma placa
que dizia "Bosque Hosmer".

- No, ns estamos s a dois mil metros de altura. O topo fica a mais de trs mil metros.
Aqui  onde encontramos o resto do grupo. A trilha comea subindo daqui.

- No acredito que uma estrada sinuosa como essa ainda vai mais pra cima.

- Ah, vai sim. Dan estacionou o carro e olhou pelo para-brisas se algum dos caras perto
da mesa de piquenique era do grupo.   a nica estrada do mundo que vai do nvel do
mar a trs mil metros de altitude em sessenta e cinco quilmetros. Ta se sentindo meio
tonta?

- No.

- Algumas pessoas ficam.  uma grande diferena de altitude. E  bem frio aqui em cima.
Eu fui ao topo uma vez que nevou.

- Neve? Em Maui?

Dan abriu a porta e gritou para ela:

- D at pra esquiar na Ilha Grande quando neva.

Teri pegou seu suter e saiu do carro. Estava frio. Ela avistou Scott nas mesas de
piquenique com Kai, Gordon e um bando de homens que ela no conhecia.

Scott imediatamente os deixou e correu at ela. Ele beijou carinhosamente seu rosto na
frente de todos e depois passou os dedos pelo cabelo dela.

- Senti saudades.

- Eu estava com saudades tambm, disse Teri. Ela descobriu que era fcil perdo-lo.
Depois de ficar com raiva e frustrada por ele no ter ligado, bastou uma frase doce e um
toque carinhoso, e ela estava rendida.

Com o brao de Scott em volta dela e seus dedos ainda brincando com os cachos, os dois
andaram at o grupo. Teri pde sentir o sorriso de Gordon antes de olhar diretamente
para ele. Ele viu cada passo seu e continuou olhando para ela depois que se sentou na
ponta da mesa de piquenique.

Ao lado dela, sacolas cheias de comida e outros suprimentos para o acampamento. Os
homens conversavam sobre como planejavam dividir aquilo tudo em vinte mochilas.

- Eu acho que ns que temos mochilas maiores conseguimos levar a maior parte, disse
um dos homens  Se sobrar alguma coisa, vocs e Julie podem dar conta.

- Esta  Teri, no Julie, disse Dan.  Acho que vocs no a conhecem.  a irm de Aninha,
Teri.


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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

O homem olhou para Scott e depois para Teri.

- Teri, ele repetiu.  Engano meu. Prazer em conhec-la. Meu nome  Ron.

Os outros homens se apresentaram, e ela tentou parecer calma e casual. A coincidncia
era muito bvia para ser ignorada. Primeiro Scott a chamara de Julie no veleiro, e agora
um cara que v Scott com ela presume que seu nome seja Julie.

Logo que encheram as mochilas, Teri puxou Scott de lado em direo a um bosque com
altos cedros e pinheiros.

- Quem  Julie?

- Me pegou, disse ele.  Julie, Teri. Os nomes soam parecidos. Imagino porque ele se
confundiu.

- E por que voc se confundiu no veleiro?

- Eu no me confundiu. Voc vai voltar com essa histria? Scott olhou para o cho e
balanou a cabea. Foi quase um gesto de pena.  Pensei que voc se esforaria pra
acabar com essa parania. Quando voc vai relaxar e confiar em mim?

Teri se sentiu envergonhada.

- Desculpa, disse ela.

Scott segurou no queixo dela e ergueu sua face em direo  dele.

- Sem mais `desculpas', lembra?

Teri fez que sim.

Scott pareceu que ia falar alguma coisa, mas foi interrompido por um frisbee que passou
a centmetros de suas cabeas.

- Opa! Desculpa a! Gordon veio correndo par recuperar o frisbee.

Teri se afastou e sentiu as bochechas esquentando.

- Esto todos prontos? Ela precisava falar com Scott, mas no aqui, nem dessa maneira.

- Parece que sim, disse Gordon.  Mas no se preocupe. Temos o dia todo para chegar l.

- Dan disse que voc j fez essa trilha, Gordon, disse Teri.

-  verdade. Alguns anos atrs. Subimos pela Fenda Kaupo e descemos para o oceano.
No d mais pra fazer esse caminho. Temos que descer pelo caminho que subimos.
Gordon comeou a andar de volta para as mesas de piquenique. Teri o seguiu com Scott
atrs dela, o brao dele sobre seu ombro.

- Ta sentindo o cheiro? Perguntou Gordon.

- Que foi? Dan e os caras j esto fedendo? Brincou Scott.


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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

Gordon ignorou Scott, olhou nos olhos de Teri e respirou fundo. Ela fez o mesmo.

- So os eucaliptos. No sentia esse cheiro desde que sa de casa.

Gordon respirou fundo novamente para sentir o cheiro dos eucaliptos. Teri olhou para
Scott e ele virou os olhos.

- Eu tambm gosto, disse Teri, sentindo de repente que precisava sair em defesa de
Gordon.  Em Escondido havia eucaliptos. Voc se lembra daqueles enormes atrs da
escola, Scott?

Scott olhou para ela como se a ltima coisa que ele fosse se lembrar do colegial fosse
uma rvore.

- Vocs fizeram o colegial juntos? Perguntou Gordon.

- Mais ou menos. Na mesma escola, mas em anos diferentes. Teri no achava que tinha
que explicar nada a Gordon, mas ela quis faz-lo.

Todos ajustaram as mochilas sobre os ombros, arrumaram as meias, amarraram as
botinas de escalada e comearam a caminhar. Teri tinha emprestado as botinas de
Aninha, que ficaram um pouco folgadas. Ela deu um jeitinho usando dois pares de meias,
que pareciam ter dado certo.

Eles andaram por uma estrada cheia de curvas, em fila indiana, at que chegaram no
comeo da Trilha Halemauu. No minuto em que a cratera se mostrou adiante deles, Teri
parou e prendeu a respirao. Ela no estava esperando todas essas cores. Nuvens finas
envolviam os cumes mais altos mais acima na estrada. Mas quando o grupo entrou na
cratera, o sol brilhou e um misterioso vento soprou sobre eles.

- No tem nenhum lugar assim no mundo, disse Gordon para Teri e os outros dois
montanhistas que tinham parado para recuperar o flego. Ele tomou um gole de sua
garrafa de gua.  Espere s at entrarmos. Voc vai pensar que est na lua.

- S pra constar, algum sabe a ltima vez que esse garoto entrou em erupo?
Perguntou Teri olhando as profundas fendas l embaixo.

- Acho que h uns dezessete sculos, disse Gordon.

- Isso no quer dizer que ele est pensando em expelir algumas baforadas to cedo, n?

- No,  inofensivo como um gatinho. Eles monitoram toda a atividade na Cidade Cincia
l no topo. Eu tinha um amigo que trabalhava l, disse Gordon  Eu vim na noite em que
o Cometa Halley passou. Tinha uma boa aparncia pelo telescpio. Um dos momentos
mais emocionantes da minha vida.

- Voc no precisa de muito para se entreter, no  Gordon? Disse Scott.

- No, geralmente no.

Eles seguiram trilha abaixo no silncio da cratera. A garrafa de gua de Teri, amarrada
atrs da mochila, batia em sua coxa enquanto andava. Beleza. Acaba com essa gordura,

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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

garrafinha de gua. Destri essa celulite! Ela pensou que talvez devesse trocar de lado no
meio do caminho, assim as duas coxas sentiriam o mesmo efeito no fim da caminhada.

Logo que cada um entrou em seu prprio ritmo de caminhada, o grupo comeou a se
espalhar. Ela estava a quatro caras do fim da fila, nem muito devagar, nem muito
interessada em puxar a tropa. Scott continuava acelerando o passo. Ele parecia querer
que ela ficasse atrs dele, mas a ele passava algum, e ficava uma pessoa entre eles.

Finalmente, depois da terceira ultrapassagem, ela disse:

- Vai adiante. Eu to bem no meu passo.

- Mas eu quero que voc v comigo, disse Scott.

- Eu vou tentar acompanhar, disse Teri, encolhendo os ombros.  Mas no garanto nada.
No  uma corrida,  s pra ser divertido.

Essa era a coisa errada para dizer a Scott. Teri percebeu que, sendo to competitivo, ele
achava difcil fazer disso mera diverso. Ele queria conquistar o vulco.

- S vai na minha frente, disse Teri.  Eu vou ficar bem. Te vejo na cabine, ou antes, se a
gente parar pra almoar.

- No se importa mesmo?

- No, divirta-se. Vai superar a si mesmo. Eu no to preparada pra isso.

Scott foi sem olhar para trs. Teri olhou para seus companheiros de trilha: dois homens
mais novos que ela, que at hoje ela no conhecia.

- E a meninos, prontos pra enfrentar a trilha?

Seu discurso com Scott deve ter feito algum efeito nos dois garotos, porque eles
comearam a andar mais rpido. Logo eles estava a uma boa distncia de Teri, e ela agora
era a ltima do grupo.

Isso no era o que ela queria. Ela no queria ser a fmea fraca que no podia suportar o
prprio peso ou acompanhar o ritmo dos homens. A verdade era que, eles todos estavam
em tima forma de tanto correr pelo hotel carregando bagagens pesadas por horas todos
os dias. Ela esteve descansando por mais de uma semana com o p machucado. E ele
parecia um pouco sensvel agora.

Por que eu vim nessa aventura? Quer dizer,  lindo, mas eu podia ter visto isso do carro e
depois voltado pra casa. Ento, conversando com Deus, ela orou Espero sinceramente que
voc tenha uma boa razo pra me trazer aqui.




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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

CAPTULO DEZENOVE

Enquanto Teri descia a Trilha Halemauu, passou pela sua cabea o fato de ela no fazer
ideia de para onde estava indo. Ela tinha ouvido mais ou menos os homens mencionarem
o nome da cabana onde eles planejavam passar a noite.

No deve ser muito difcil. Vou continuar na trilha at encontrar uma cabana. Eles j
devem estar l, relaxando, e vo me zuar por ser uma lesma. No estou nem a; quero mais
 curtir o passeio.

Ela pensou em como Gordon tinha parado para apreciar a fragrncia dos eucaliptos. Era
assim que ela queria apreciar esta aventura, fragrncia por fragrncia, vista por vista, e
som por som. O estranho na cratera era que, quanto mais fundo ela adentrava, mais
quieto era.

Como aqueles caras se distanciaram de mim to rpido? Eu no peguei um caminho
errado, n? No seria possvel. No deve haver muitos caminhos por aqui. Esse deve ser o
caminho certo.

Teri parou para tomar um pouco de gua em uma curva da trilha. Logo que parou,
descansando o p em uma rocha vulcnica, as nuvens que cobriam o centro da cratera
comearam a se dispersar. O arco-ris mais brilhante e colorido que ela j viu apareceu
na frente dela.

- Meu Pai, que coisa mais linda! Ela sussurrou. Espontaneamente, Teri colocou sua
garrafinha de gua no cho e comeou a aplaudir enquanto ria alto. Ento ela viu quando
o vento trouxe a cortina de nuvens sobre o vale mais uma vez, e o arco-ris voltou ao seu
reino invisvel.  Isso foi incrvel!

Voltando  trilha, Teri cantarolou o hino favorito de sua av "Grandioso s Tu" (ou Quo
Grande s Tu). Ao chegar no refro, ela cantava alto. Lgrimas formavam-se em seus
olhos. Ela no se lembrava da ltima vez que sentiu esse amor com Deus. Amor que a
preenchia como nada mais. Enquanto a satisfao saciava sua alma, ela desejou ter
algum com quem compartilhar esse momento.

Ento ela percebeu que precisava saber se algum dia Scott participaria de um momento
espiritual desses com ela. Ou Scott comeava a mostrar evidncias claras de seu
compromisso com Cristo, ou ela terminaria o relacionamento, com ou sem fogos de
artifcio.

Quando a trilha se tornou um caminho coberto de grama, Teri viu uma cabana e
acelerou o passo. Ela podia ver os rapazes sentados na grama, comendo e gritando
`Tartaruga!' enquanto ela vinha correndo.

- Podem me zoar o quando quiserem, disse Teri, tirando a mochila e derrubando-a no
cho  mas eu vi um arco-ris e vocs no.

Eles todos se olhavam como se dissessem `J vimos tantos arco-ris, que diferena faz um
a mais ou a menos?'.


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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- No era qualquer arco-ris. Era o arco-ris do dia, da semana, talvez do ano inteiro! Ela
dramaticamente gesticulava com as mos.  E vocs, seus burritos corredores, perderam.

- Burritos corredores, um deles repetiu, e todos riram. Teri desistiu e se sentou perto de
Scott, que estendeu a ela um pedao de carne seca.

- Ento, porque no entramos na cabana?

- No  nessa que vamos passar a noite, disse Dan.

- Onde ns vamos passar a noite, ou eu no vou querer saber? Perguntou Teri.

- Vamos apenas dizer que j andamos um tero do caminho at l, disse Gordon.

- Quer dizer que Teri chega l pela meia-noite, um dos homens brincou.

- Eu dou conta. No se preocupe.

- Bem, hora de andar, um dos homens disse.  Nos vemos na Cabana Kapalaoa  noite.

Teri tomou rapidamente um gole de gua.

- Vamos l, disse ela.

- Voc precisa comer mais que isso a, disse Scott.  Eu fico com voc.

- Voc no tem que esperar. Eu ando comendo.

- Tem certeza? Ele tirou um cachinho do canto da boca dela.

Teri se levantou e ofereceu a mo a ele, como se tivesse que ajud-lo a se levantar.

Ele rapidamente ficou em p e disse:

- Imagino voc escalando os Andes um dia. Queria voltar ao Peru. Quer ir junto?

Ela pensou se algum mais os ouvia. Todos os homens estavam arrumando seus pacotes.

- Acho que depende.

- Depende do qu? Disse Scott, ajudando-a a arrumar sua mochila. Ela percebeu que se
sentia muito mais disposta sem aquilo tudo.

- Temos que conversar sobre algumas coisas, disse Teri suavemente  Eu estive pensando
muito enquanto descia essa trilha.

- Ah, ? O cabelo de Scott no estava comportado como de costume, e os fios
desobedientes caam sobre sua testa.  Engraado, porque eu tambm pensei muito.

O resto do grupo comeou a andar enquanto Scott e Teri ficaram conversando.

- Eu quero voc na minha vida, Teri. Eu tento entender o que voc quer. Tento ir devagar
como voc pediu. Tento te dar algum espao. No te liguei todos os dias nem fui te ver o
tempo todo pra voc no ficar aborrecida.

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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Eu no fiquei aborrecida. Na verdade, eu... Bem, eu meio que fiquei chateada por voc
no ter me ligado ou ido me ver, especialmente quando eu estava com o p machucado.

Scott balanou a cabea.

- Parece que tivemos um mal-entendido, ento. Eu pensei que voc estava me afastando,
ento eu recuei. No  assim que eu queria que as coisas fossem. Mas  voc quem
decide. Est pronta para mudanas?

Teri hesitou. Ela achava que estava, mas no saber claramente onde Scott estava
espiritualmente era algo que ela queria resolver.

- Posso te fazer umas perguntas?

- Claro. Podemos andar enquanto conversamos?

Teri seguiu Scott trilha abaixo e disse:

- Scott, preciso saber onde voc est com Deus. Quero dizer, eu sei que voc disse que se
tornou cristo no Ensino Mdio, e que voc meio que se afastou na faculdade, mas que
agora queria voltar  igreja e tudo o mais. Bem, acho que quero ouvir seu corao.

- Como assim?

- Ah, quero dizer, voc  salvo? Voc ama a Deus? Pediu a Jesus para perdoar seus
pecados e entrar em teu corao? Ele  o Senhor da sua vida? Falar com as pessoas sobre
problemas espirituais nunca foi o forte de Teri. Ela desconfiou que estivesse sendo direta
demais.

Suas suspeitas se confirmaram quando Scott comeou a rir e disse:

- Cara, que igreja no ia querer voc como lder de escola dominical!

-  importante pra mim, Scott. Eu quero saber quanta importncia isso tem pra voc.

- Muita.

Ela queria uma resposta melhor.

- Eu acredito nas mesmas coisas que voc, amor. Parte da razo pela qual eu estou louco
por voc  que voc  uma tima influncia pra mim. Voc est com dvidas porque
ainda no fui pra igreja com voc? Voc sabe que  por causa da minha escala de
trabalho. Assim que eu estiver trabalhando l por tempo bastante para pedir mudana de
escala, eu comeo a ir com voc. Voc est planejando vir pra c, n?

- Eu no tenho certeza.

- Qual  sua dvida? Pensei que voc fosse pedir pra sua amiga em Glenbrooke o capital
pra comear o negcio das tamales pra gente iniciar nosso sonho. O Dan com certeza
concorda.

- Eu tambm acho que  uma boa ideia.  s que...


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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Voc no sabe como vo as coisas comigo, n? Eu acho que minhas intenes esto to
claras quanto poderiam. Eu quero voc aqui, amor.

Ao invs de se sentir mais segura e forte sobre seu relacionamento com Scott, ela se
sentiu com um p atrs, Voc me quer aqui, mas eu no sei o que eu quero. Tambm a
incomodava ele ter comeado a cham-la de 'amor'. Seria para evitar alguma outra
confuso com nomes?

Scott parou de andar e colocou a me de Teri sobre a sua. Seu belo rosto parecia sincero.

- Voc se lembra quando eu te disse para relaxar e deixar as coisas acontecerem?

Teri acariciou sua mo.

- Voc est certo.

Ele olhou em seus olhos e sussurrou:

- Vem, amor. Vamos deixar rolar.

Teri deixou que seus olhos respondessem. Ela tinha certeza que Scott a tomaria em seus
braos e a beijaria. Mas ele no o fez. Ele segurou sua mo bem forte e passou os dedos
em seu cabelo. Eles ficaram em silncio no vulco, olhando nos olhos um do outro.

- Melhor continuarmos andando, disse Teri.

Scott soltou sua mo sem uma palavra. Ela se sentiu um pouco desconfortvel com o
modo como ele a hipnotizava, brincando com suas emoes para obter uma resposta. Ela
o seguiu trilha abaixo tentando organizar seus sentimentos.

Eu estou sentindo essas coisas naturalmente ou Scott est me manipulando de alguma
forma? Nossa relao  to intensa. Eu queira saber o que ele est realmente pensando e
sentindo. Eu ouo suas palavras, mas acho que ainda no consegui ver seu corao.

Teri intimamente fez disso sua meta. Antes do fim dessa viagem, ela queria ver o corao
de Scott, como Gordon mostrou o seu quando disse "Bom trabalho, Deus!" quando eles
estavam nadando. Era assim que ela queria ver o corao de Scott.

A trilha tinha uma curva em uma placa que dizia Curva Silversword. Gordon ficou ali
esperando por eles.

- Estou fazendo as vezes de guia turstico, disse ele. - J ouviu sobre a silversword?

- Eu no, disse Teri.

- A gente tem que pegar essa curva? Perguntou Scott - Parece que a trilha segue reto
aqui.

- A curva te leva na mesma trilha, mas soma uns 400 metros de caminhada.

- Vamos tocar pra frente, disse Scott, seguindo a trilha.

Teri soltou sua mo.

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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

- Eu quero ver, Scott. No andei isso tudo pra perder todas as atraes locais.

-  s um monte de mato. Tem em qualquer lugar.

- Na verdade, corrigiu Gordon - A cratera  o nico lugar onde a silversword cresce. Na
verdade, elas esto espalhadas por toda a cratera, mas esse  o lugar onde voc pode
encontrar mais espcies concentradas no planeta.

Teri olhou para Scott com cara de 'eu avisei' e virou-se para se juntar a Gordon.

- Eu no vou perder isso de jeito nenhum.

Scott relutantemente a seguiu.

- Certo, disse Gordon, limpando a garganta para iniciar seu discurso de guia turstico. -
Bem, voc pode ver as silversword em vrias fases de crescimento.

- Parecem cactos, disse Teri. Ela observava aquelas plantas prateadas ao redor deles.
Algumas eram minsculos brotos nascendo no solo vulcnico. Outras eram do tamanho
dela, de larguras variadas.

- Na verdade, so da famlia dos girassis.

- Srio? Parecem mais com cactos. Teri parou de olhar para as pontas prateadas que
saam da base e se enroscavam. - Parecem porcos-espinhos vestidos de bailarina! Ele
olhou para Scott com o rabo do olho. Ele parecia entediado.

- Esses pequenos porcos-espinhos, continuou Gordon, aparentemente sem perceber a
observao dela - demoram de quatro a vinte anos para crescer,  medida em que
aparecem essas folhas em forma de estilete. Ento, de algum ponto misterioso, elas
soltam essa haste... Aqui, como essa.

- O que so essas coisas roxas?

- As flores. Elas podem ter mais de cem flores e crescer mais de 3 metros de altura. Elas
florescem apenas uma vez. Ficam assim por um ms, ento a planta morre.

- Incrvel, disse Teri. - Pense em ter que esperar vinte anos para florescer e ento morrer
depois de um ms.

- At parece que t falando de algum, disse Scott, seguindo  trilha, tentando faz-los
voltar.

- Seria uma tragdia, disse Teri, automaticamente seguindo atrs de Scott. - Esperar vinte
anos para se apaixonar, ento essa paixo dura um ms, e a pessoa morre.

Scott virou e olhou pra ela com uma cara de 'vai dormir, Teri'.

- Ah, Scott! Ela brincou, batendo atrs da mochila dele. - Cad seu senso de romantismo?




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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Cansou de esperar aqui ouvindo o Garoto Natureza e correu na nossa frente em direo
ao fim da trilha. Ele acelerou o passo. - Melhor a gente tentar alcanar. No quer que eu
perca meu senso de romantismo agora, quer?

Teri olhou para Gordon, que estava logo atrs dela. Ela deu de ombros e deu um sorriso
encabulado como a se desculpar pelo comentrio de Scott.

Os olhos azuis de Gordon se fixaram nos dela.

- Eu espero vinte anos. Ele disse alto o suficiente para que ela ouvisse.

Ajeitando sua mochila e focando na trilha, Teri pensou Esperar vinte anos pra qu? Se
apaixonar? Acho que voc no tem tanto tempo assim, colega! Daqui vinte anos, voc
ter...

- Gordon, quantos anos voc tem?

- Trinta e quatro.

Trinta e quatro parecia velho pra Teri. Ela no podia se imaginar com trinta e quatro
anos sem estar casada. Ou com trinta e quatro anos dizendo que esperaria mais vinte
pela pessoa certa. Quanto mais ela pensava nisso, mais achava que estava melhor com
Scott.

Ela se permitiu a sonhar acordada, casada com Scott, com dois ou trs filhos. Eles
estariam andando nessa trilha com os pequenos. Os meninos estariam calados com
botinhas de trilha tentando acompanhar os passos largos do papai. A pequena Emily, de
dois anos, iria aos ombros de Scott. Ela era loirinha como o papai, e seus cabelos eram
cacheados como o de Teri. Na sua imaginao, ela estava grvida do quarto filho deles,
saudvel e preparada o bastante para aguentar mais quatro meses de gestao.

Teri pensou em como seria maravilhoso estar grvida, carregar dentro de si uma pequena
vida que levaria uma parte dela e uma parte de... Scott? Scott. Sim, os filhos de Scott
seriam uma gracinha, sem dvida.

Mas ela se casaria com ele? Ele  mesmo o cara certo? Ele deixara suas intenes bem
claras. A menos que estivesse se sentindo forado.

Teri olhou para a paisagem assim que desceram em um vale cercado de cinzas. Sob seus
ps, pedras pretas brilhantes. Ele era a essncia da fora e da confiana. Scott Robinson
poderia ter qualquer mulher que quisesse, mas escolheu a Teri.

Vamos, Scott, me mostre seu corao, s assim terei certeza.




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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

CAPTULO VINTE

- Ns estvamos quase mandando uma equipe de buscas atrs de vocs trs, disse Dan
quando Teri, Scott e Gordon chegaram  cabana. Era noite e todos os outros j estavam
l h um bom tempo. Alguns deles estavam jogando po para algumas aves que tinham
se amontoado em volta dos degraus na frente da Cabana Kapalaoa.

- Parece que os gansos-nne encontraram vocs, disse Gordon, enquanto tirava sua
mochila.  Vocs sabiam que este  o nico lugar do planeta onde essas aves so
encontradas?

Teri ouviu Scott murmurar:

- Se o Garoto Natureza me disser mais uma curiosidade sobre esse vulco... O rosto de
Scott ficou vermelho, enquanto ele rangia os dentes e jogava a mochila no cho.

 Nas ltimas horas Gordon exerceu seu papel de guia turstico. Scott obviamente ficou
impaciente com ele. Chegando  cabana, Scott estava no limite. Teri, por sua vez, amou
ouvir todas as informaes sobre a natureza, mas ela parou de perguntar h quase uma
hora, para o bem de Scott, se obrigando a andar mais rpido.

A ltima hora pareceu mais longa que o resto do dia. Enquanto Gordon falava, o tempo
passava rapidamente, mas era justamente a agradvel conversa de Gordon que estava
enlouquecendo Scott.

- Ento, o que tem pra jantar? Disse Teri, esperando dissipar a tenso que sentia vindo de
Scott.

- Ns estvamos esperando vocs, disse Dan.

- O qu? Pra eu fazer o jantar pra vocs? Tenta outra.

- No, Teri. Pra comermos todos juntos, disse Dan.  O macarro est pronto pra ir pra
panela. Eu s no queria comear antes de vocs chegarem.

- Obrigada, Dan. Ela se sentou nos degraus de madeira que levavam  rstica cabana e
soltou um suspiro cansado.  Que foi? Ela perguntou, olhando para eles de novo.

- Por que vocs demoraram tanto? Um deles perguntou.

- Ns estvamos apreciando a paisagem, disse Teri  Por acaso vocs pegaram a curva das
Silversword?

Eles se entreolharam.

- No.

- Qual a graa de sair numa viagem dessas se vocs s querem saber de chegar no fim da
trilha?

- Cerveja? Se aventurou um deles, erguendo sua garrafa meio vazia.


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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Ei! Vocs esto me deixando de fora dessa! Disse Scott  Quem foi o gnio que trouxe a
Loira?

Teri viu Scott abrir uma garrafa e se juntar aos companheiros. Ela no pensou que se
importaria em ver Scott bebendo. Ainda assim, ela no tinha certeza. Gordon se juntou a
eles sem aceitar a bebida que ofereceram. Logo que ele entrou na rodinha, Teri se sentiu
excluda. Silenciosamente, ela se levantou e levou sua mochila para dentro da cabana.

Estava escuro l dentro. Dan estava mexendo um caldeiro sobre um fogo a lenha em
um canto da eficiente cabana. Uma mesa comprida preenchia o centro da sala com dois
longos bancos dos lados. Nas paredes estavam embutidas triliches. As camas mais baixas
j estavam ocupadas.

Teri achou uma cama bem no alto, perto da porta, e escalou para arrumar suas coisas. Ela
se sentiu como se estivesse de volta ao acampamento de vero.

A porta se abriu e a luz suave da noite iluminou a cama de Teri. Gordon entrou, olhou
para cima e sorriu para ela:

- Empoleirada a em cima, hein?

- Acho que foi tudo o que restou, disse ela.

- Quer uma ajuda a, Dan? Perguntou Gordon.

Teri desenrolou sua manta de l e assistiu os dois homens tentando mexer o caldeiro,
que parecia ter macarro demais. Eles tiveram que levar a panela para fora para despejar
o excesso de gua. No minuto em que saram, a tampa do molho comeou a tremer e
depois sacudir. O molho de tomate estava borbulhando. Teri desceu pelos lados das
camas e foi para a cozinha, a nica coisa que prometera a si mesma que no faria.

O jantar ficou pronto, com bastante comida pra todo mundo. Ela comeu
silenciosamente, observando os homens e a maneira como eles interagiam uns com os
outros. O lugar estava cheio deles. Na maior parte do tempo, eles agiam como se Teri
no estivesse l, e as conversas eram quase sempre sobre esportes.

Ento Dan e Gordon comearam a falar com Kai sobre ser um `homem de uma s
mulher'. Eles conversavam sobre ter um compromisso de uma vida inteira com uma
mulher.

Dan, certamente, era um grande homem. Teri imaginava Gordon fazendo declaraes
como as dele, logo esse cara com cicatrizes de moto que abria garrafas com os dentes.
Mas principalmente, ela imaginava Scott.

Scott deve ter pensado nela nesse mesmo momento, porque ele saiu de onde estava e
parou atrs dela. Com a voz rouca e baixa, ele sussurrou:

- Vamos l fora.




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Ela se sentia desconfortvel saindo assim to obviamente. Assim que se levantou, Dan a
encarou demoradamente com a expresso firme. Teri se lembrou de seu aviso fraternal e,
dando umas palmadinhas em seu ombro, disse:

- Algum mais quer dar uma volta com a gente?

Ningum respondeu. Teri saiu da cabana com Scott, sentindo-se menos fugitiva.

Assim que fecharam a porta, Scott colocou o brao em volta da cintura dela e disse:

- Por que voc fez aquilo?

- Aquilo o qu?

- Chamou todo mundo. Eu chamei voc, no eles.

- Achei nossa sada muito bvia. Scott estava olhando para ela. Seus olhos cinzentos
esperavam por uma explicao.   que  meio estranho ser a nica mulher.

- Por acaso voc se sente desconfortvel em ser a minha mulher?

Ela no conseguiu responder. Sua mente estava ocupada pensando em como seria ser a
nica mulher de Scott.

- Vem c, disse Scott.  Quero te mostrar uma coisa.

Ele caminhou com ela alguns metros na trilha at ficar escuro e silencioso. Pararam em
uma clareira plana. Scott tomou Teri em seus braos, aproximou-a e comeou a balanar
para frente e para trs, cantarolando em seu ouvido.

- O que voc est fazendo? Perguntou Teri, se afastando com uma risadinha nervosa.

- Vai me dizer que nunca danou sob as estrelas?

- Eu nunca dancei em lugar nenhum, disse Teri.

- Nunca?

Teri balanou a cabea.

- Voc viveu mais enclausurada do que eu pensava. Tudo bem. Podemos lidar com isso.
Primeiro, olhe para cima.

Ela olhou. O cu estava vivo, salpicado de estrelas.

- Que lindo, disse ela baixinho.

- Lindo como voc, Scott sussurrou  Agora coloque sua mo aqui em meu ombro.
Assim. Deixa eu segurar sua mo direita desse jeito. T, agora eu te levo e voc me segue.
Ele comeou a balanar os ps pra frente e pra trs bem devagar sobre o cho de areia e
cascalho.




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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri tentava relaxar.  isso o que voc queria, dizia ela para si mesma. Deixa rolar. No
congele. Ele est tentando abrir o corao.

Scott a abraou, cantarolando em seu ouvido. Teri estava comeando a derreter. Todas as
regras rgidas que a cercaram na infncia no mais serviam. Ela podia danar. No havia
nada de errado naquilo. Especialmente com algum que ela amava.

Acho que eu o amo, disse ela a si mesma. Eu no sentiria isso por ele se no o amasse. Isso
 bom. Conforme eu me soltar e me tornar mais parecida com Scott, ele vai me
corresponder e se tornar mais parecido comigo espiritualmente.

- Ficamos muito bem juntos, sussurrou Scott em sua orelha  Voc no acha?

- Uhum, Teri murmurou de volta.

- Eu no quero te perder. Me diz que voc vai se mudar pra c e ns viveremos juntos.

- T bom, disse Teri.

Scott parou de danar e se afastou alguns centmetros para olhar o rosto de Teri.

- T falando srio?

- Sim, ela sussurrou pra ele na noite escura  Eu estou falando srio.  isso! A nova,
aperfeioada, flexvel Teri!  Estou pronta para deixar acontecer.

- Que bom, disse Scott, aproximando-se novamente, cantarolando e retomando a dana.

Teri podia ouvir seu corao batendo dentro do peito.

- Voc no se importa de ir devagar, n?

- No ritmo que voc quiser, amor. Scott conduziu a dana num passo ainda mais lento. 
No ritmo que voc quiser. Ento ele inclinou sua cabea e beijou seus lbios, devagar,
gentil, por um longo tempo.

Teri no precisava de qualquer profecia. Scott era o nico para ela. Ela estava pronta para
ser sua mulher.




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CAPTULO VINTE E UM

Aquele doce sonho voltou  mente de Teri vrias e vrias vezes enquanto o grupo descia
a trilha no segundo dia. Danar com Scott sob as estrelas, decidir ficar em Maui e ser
beijada devagar e suavemente foram imagens que danaram na mente de Teri repetidas
vezes. De forma alguma ela analisaria esse romance.

Scott parecia diferente do homem impaciente de ontem.  claro que ele estava na frente,
com Teri logo atrs dele, e eles no estavam parando em nenhum lugar interessante para
ouvir o Garoto Natureza. Ao invs disso, Scott e Teri conversavam livre e abertamente,
como nunca antes.

- Quando voltarmos, disse Scott  precisaremos correr atrs de um alvar de comrcio
pra voc. Mas primeiro precisamos de um nome. E de uma conta no banco. No vai doer
ter alguns cartes de crdito e umas folhas de cheque  disposio.

- Acha mesmo que vai dar certo? Perguntou Teri.

-  uma tentativa, n? Como vai saber se no correr o risco?

Voc est falando sobre o negcio das tamales ou o nosso relacionamento? Teri percebeu
que no tinha medo de nenhum dos dois, e isso era bom.

Eles andaram apenas 6 km naquele dia. Por volta do ltimo quilmetro, eles andaram
com dificuldades na trilha lamacenta em uma floresta chuvosa, onde samambaias
cresciam nas rochas escuras. Eles estavam cercados de verde, um incrvel contraste com
a areia quente e escura do dia anterior.

Como a caminhada para a Cabana Paliku foi curta, eles chegaram ao meio-dia. Parecia
haver chuva e gua em todo lugar. O baralho comeu solto na grande mesa de madeira.

Teri perdeu trs vezes e ento desistiu. O baralho foi outro `vcio' esquecido na
juventude. Ela estava muitos anos atrasada para poder competir com os garotos, ento
resolveu explorar a rea sozinha.

A chuva tinha parado. A cabana parecia menor perto da parede de rocha vulcnica que
resfriara em seu caminho do centro da terra para o oceano. Agora a lava endurecida
abrigava samambaias e orqudeas silvestres.

Com as botas afundando na lama, Teri andou alguns metros trilha abaixo. Ento parou e
olhou para cima. Dois arco-ris perfeitos se formaram no cu claro de fim de tarde.

A vista fez Teri perder o flego. No havia ningum com quem compartilhar esse
momento. Ela desejou que Scott estivesse ali com ela. Num momento como esse, ela
ouviria o corao dele. Ele a envolveria em seus braos, e ela se sentiria segura e
confortvel.

Mas agora ela se sentia s. No era como ontem, quando ela aplaudiu e cantou a Deus ao
descobrir um arco-ris.

O que mudou em mim? Eu sinto que no sou mais a mesma.
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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

Suavemente ela comeou a cantarolar a msica que ontem a ajudara a expressar seu
jbilo. Ela forava seus lbios a pronunciar as palavras. A cano finalmente saiu,
relutante "grandioso s tu..."

Um bartono vindo de algum lugar acima dela acrescentou "ento minh'alma..."

Teri olhou em volta e encontrou Gordon em uma colina, entre samambaias e orqudeas.

- Me lembro de ouvir minha av cantando essa msica, ele gritou para ela.

Teri sorriu. A msica devia ser a favorita das avs pelo mundo todo.

- Eu tambm, ela gritou de volta.

Gordon pegou uma flor e desceu a colina. Teri estremeceu, ao pensar que ele certamente
cairia. Por um milagre, Gordon desceu em um passo to leve, que quase no parecia que
ele tinha estado naquela colina antes.

Ele veio em direo a Teri. Ela permaneceu onde estava, observando a maneira como ele
confidencialmente se aproximava. Ele tinha a mesma exuberncia com que enfrentara as
ondas naquele dia na praia.

Ao se aproximar de Teri, lhe estendeu a flor. Ele tinha aquela expresso de maluco
risonho em seu rosto.

- Algumas demoram poucos dias para florescer.

- Diferente da silversword, disse Teri, lembrando da aula de botnica do dia anterior.

- Esquisito, n? As plantas no podem resistir a florescer na hora determinada. Por que
resistimos?

Teri aceitou a flor e acariciou as delicadas ptalas. Ela no tinha certeza se entendera o
que Gordon quis dizer.

-  isso que voc chama de ritmo natural da graa?

Gordon pareceu surpreso.

- Isso mesmo! Onde voc ouviu isso?

- Aninha. Ela me contou sobre sua ceia criativa.

Ele caiu na risada.

- Frgeis humanos somos ns, desastrados frente  eternidade. Mal posso esperar pelo
dia em que nos encontraremos  mesa, na grande festa de bodas do Cordeiro...

- Gordon... Ele ainda estava perto dela, mas ela hesitava olhar para ele.

- Quero correr aos seus braos, disse Gordon, absorvido em seus pensamentos celestiais.




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- Gordon? Ela disse novamente, olhando para ele e esperando que ele olhasse para ela. 
Posso te perguntar uma coisa?

- Claro. Qualquer coisa.

- Acha que devo me casar com Scott?

Gordon deu um passo atrs. Ele no respondeu imediatamente. Ento, limpando a
garganta, disse:

- Temo que minha resposta possa ser tendenciosa.

- E a? Fala.

Suas habilidades como pastor naquele batismo foram grosseiras, mas para Teri ele
parecia um conselheiro honesto e gentil. Ela queria ouvir sua opinio.

Estendendo um brao, Gordon envolveu os ombros de Teri e deu um amigvel
chacoalho.

- Isso  com um brao, disse ele.

Ento ele a abraou com seus dois braos. Um abrao to forte e apertado que ela no
conseguia respirar.

- Isso, ele sussurrou em sua orelha   com dois braos.

Ento, to repentinamente como a abraou, ele a soltou e se afastou dela.

Teri recuperava o flego.

- A pergunta : Scott abraa seu corao com um brao ou dois? Responda, e voc saber.

Ela sentiu as bochechas corando e no olhou para Gordon. Ao invs de ajud-la com um
conselho, ele a deixou ainda mais confusa.

- Obrigada, ela murmurou  Eu vou pensar nisso.

Um sorriso se formou no rosto de Gordon.

- Ele  radical, n?

- Scott?

- No, Gordon riu  Deus. Os caminhos dele no so os nossos caminhos. Os
pensamentos dele no so os nossos pensamentos. Ele deve surpreender voc.
Surpreender ns dois.

Teri confessou. Ela confessou a Gordon que no foram muitas situaes em sua vida que
aconteceram conforme ela esperava. Mas ela pde ver a mo de Deus em cada situao,
se no durante uma deciso, ento certamente aps. Ela podia olhar para trs e
encontrar as digitais dele em todas as circunstncias.


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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

Gordon sorriu e disse:

- Ento  assim que se faz, no ? Olhar para as digitais de Deus. Gostei. Devemos fazer
isto. Observar suas digitais.

- Acho que est certo, disse Teri, virando a palma da mo para o cu. Percebeu que
estava comeando a chover novamente  Melhor voltarmos.

Eles patinaram na lama at chegar  cabana, onde o baralho ainda estava rolando.
Ningum pareceu notar que eles chegaram juntos.

Ningum, nem mesmo Scott, a viu colocar a orqudea entre vrios lenos de papel e
suavemente caminhar com suas pesadas botas. Ela colocou a frgil e enrolada flor no
nico local seguro que pde pensar, no topo de uma pequena caixa de lenos.

Teri pensou na estranha ilustrao de Gordon e imaginou se ela abraava Scott com seus
dois braos. Ela estava sempre com um p atrs. Ela dizia que isso era ser cuidadosa,
Scott dizia que isso era ser rgida. Teri estava determinada a abraar Scott com os dois
braos.

Naquela noite, depois do jantar, todos estavam sentados  mesa, conversando. Ela se
inclinou sobre Scott e levantou o brao dele para que ele a abraasse. Scott a aproximou
dele e, na frente dos outros, cheirou seu cabelo. A ateno era hilariante.

O resto do grupo os tratou diferente no terceiro dia de trilha. Todos eles concluram que
os dois gostariam de ficar sozinhos, j que deixavam claro que formavam um casal. Os
homens se aprontaram cedo naquela manh, antes mesmo de Teri ter terminado de
arrumar sua mochila. Scott tambm estava pronto. Mas ele ficou para trs, esperando
por Teri. Ela rapidamente pegou uma bandana e amarrou na cabea para segurar seus
cabelos rebeldes que agora estavam secos.

- Ta quase pronta? Scott perguntou enquanto ela amarrava os cadaros.  Vamos.

- To pronta, to pronta, disse Teri brincalhona, pegando sua mochila.

- A trilha hoje  de matar, amor. Vamos. Eles no vo querer nos esperar.

- Ento vamos l, disse Teri, passando por ele e abrindo a porta da cabana. Estava
chovendo de novo. Segundo Gordon, a mdia de chuvas nessa cabana era de 250
polegadas ou mais por ano.  Perai! Esqueci de colocar minha capa de chuva.

Agora Scott parecia impaciente. Ele manteve aquela expresso pelas prximas trs longas
e encharcadas horas. Quando chegaram  cavidade da cratera, nenhum dos dois estava
de bom-humor.

Scott pareceu ainda mais incomodado quando eles encontraram Gordon parado em mais
um `ponto de interesse'.

- Ah, que timo, Scott murmurou  O Garoto Natureza est nos esperando.

- Scott, disse Teri rapidamente  Ele s est tentando ajudar.

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- Ele me irrita. Esse cara no sabe quando parar! Voc o ouviu cantando hoje pela
manh?

Teri achou que acordar com Gordon cantando enquanto ele preparava o caf da manh
foi legal. Ele no estava cantando alto. Era quase como a sua risada; a msica flua para
fora dele. Ela j o ouvira cantarolando e assoviando vrias vezes durante a trilha.

- Seja legal, ta bom, Scott?

- E o que temos aqui,  grande Kahuna8 da Cratera? Scott gritou para Gordon. Teri
poderia dizer que a piadinha no foi de muito bom gosto.

- A fenda sem fundo, disse Gordon. Ele estava parado perto de uma grade que cercava
um buraco de aproximadamente trs metros de largura no cho preto do vulco. - So
vinte metros de profundidade.

- Tem certeza? Disse Scott.  Podemos jogar alguma coisa a pra comprovar?

Teri teve medo de que o `alguma coisa' de Scott pudesse ser o prprio Gordon. Scott
passou andando pelo ponto dramtico como se no tivesse inteno de parar para saber
mais.

- Tradicionalmente, eles jogam cordes umbilicais secos.

- S um segundo, disse Teri  Eu tenho que ouvir isso.

- Vai nessa, disse Scott.  Eu preciso continuar andando. Se eu quebrar o ritmo agora,
tenho certeza de que vou ficar com cimbra. Tenho certeza que vocs me alcanam em
cinco minutos.

Teri o viu partir e virou sua face surpresa para Gordon. Ela tinha esquecido o que Gordon
dissera e porque ela havia parado. Uma coisa era ela e Scott no andarem juntos no rime
iro dia de trilha. Mas agora eles estavam juntos. Eles eram um casal. Como ele podia
deix-la dessa maneira?

Gordon olhou nos olhos de Teri, seus profundos olhos azuis no se desviavam dos dela.
De alguma forma, ela se sentia calma.

- Desculpe, Gordon. O que disse?

Ao invs de continuar sua fala de guia turstico, ele olhou com simpatia para Teri.

- Voc est bem? Ele perguntou.

- Eu? Claro. Sim. Eu to bem. Ela forou-se a sorrir.  O que voc disse sobre esse buraco?
Vinte metros?

- Sim. Antigamente os havaianos vinham at aqui para jogar os cordes umbilicais dos
recm-nascidos. Acho que s dos filhos homens. Quantos filhos voc quer?



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    Kahuna significa `guardio do segredo'. Parece ser um sacerdote de uma antiga reigio havaiana.
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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

- Filhos? Quantos eu quero?

- Quantos filhos voc quer ter? Gordon repetiu.

Teri tentou sair do seu leve estado de choque e respondeu:

- Quatro. Talvez cinco.

Gordon sorriu e seguiu para a trilha. Ele perdeu o equilbrio por um segundo, e Teri
correu para segur-lo pelo brao. Os dois equilibraram um ao outro, a um metro da
fenda sem fundo.

- Isso foi divertido, disse Teri instantaneamente  Ns poderamos ter cado em uma
pilha de cordes umbilicais petrificados.

Gordon caiu na gargalhada.

- Venha, disse Teri.  Vamos alcanar os outros.

Teri marchou pela trilha silenciosamente por algum tempo, respirando com dificuldade.
De repente, Gordon disse:

- Acho que quatro  bom. Eu no gosto de nmeros mpares. Seis seria melhor que cinco.

Teri no fazia ideia do que ele estava falando e tinha flego de menos para perguntar.




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CAPTULO VINTE E DOIS

Teri sentou-se sozinha na areia assistindo as ondas quebrando na praia logo cedo. A
praia estava deserta, a no ser pelos ratos de praia que madrugaram naquele dia. Trs
dias se passaram desde que ela voltara da trilha na cratera, e ela ainda estava dolorida.
Em todo lugar.

 Naquela manh ela pegou o carro emprestado, prometendo voltar s 8:30. Ela precisava
sair de casa e ficar de longe de tudo e de todos para organizar seus pensamentos.

 Passando o dedo na areia fria, Teri mentalmente alistou seus questionamentos como se
estivesse listando verbos em espanhol no quadro para que seus alunos conjugassem.
Muitos alunos achavam esse exerccio chato porque muitos verbos eram fceis de
conjugar, desde que seguissem certas regras. Isso at que ela passasse aos verbos
irregulares, aqueles que no seguem qualquer regra ou raciocnio lgico. A resposta
correta para estes verbos s pode ser aprendida memorizando.

 Nessa manh Teri daria tudo para saber as respostas certas para os "verbos irregulares"
de sua vida. Ela no sabia responder corretamente. Ela no teve nenhuma experincia
que a habilitasse a memoriz-los. E as questes mais urgentes em sua vida no pareciam
seguir nenhuma lgica.

 Primeira questo irregular: Ela estava fazendo a coisa certa mudando-se para Maui? Na
noite anterior, com a ajuda de Dan, Scott formulou um plano para Teri. Ela voaria de
volta para o Oregon no voo j agendado para esta quinta-feira. Nos prximos dez dias ela
deveria cancelar seu contrato como professora, avisar o dono da casa onde morava, se
desfazer de todos os seus pertences, empacotar somente o estritamente necessrio e
retornar para Maui. Eles ficariam aqui correndo atrs do alvar de comrcio. Ah, e ela
asseguraria o capital inicial emprestado de sua amiga rica, Jessica.

-  isso que o senhor quer que eu faa, Deus?

Ela esperou que um estrondoso aplauso confirmasse sua deciso. Tudo o que ela ouvia
eram as ondas do mar. Elas corriam at ela, desenrolando sua espuma aos seus ps. Mas
no havia qualquer palavra escrita na gua que pudesse responder  sua pergunta. Ao
menos nenhuma que ela pudesse ler.

Teri tentou a questo seguinte.

- Pai,  de sua vontade que eu tenha um compromisso com Scott?

Ela ouviu cuidadosamente  brisa da manh, indo para o oceano. Mas ela no conhecia
seu poderoso idioma.

Com um exausto suspiro, Teri soltou uma ltima petio no ar matutino.

- Senhor, o que queres que eu faa?

Nada. Nenhuma resposta. Nenhum sinal.



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Ela s conseguia pensar em Gordon. Ela sorriu, lembrando do que ele dissera. "Ele 
radical, n?"

- Radical, ela sussurrou de volta para o vento e para as ondas.  Mas vocs j sabiam
disso, n? Ela pensou no familiar relato de quando Jesus ordenou s ondas e ao vento que
acalmassem. Somente aquele que  mais radical que o vento e as ondas pode fazer isso.

Teri se levantou e sacudiu a areia de sua cala jeans. Ela esticou as pernas arregaadas da
cala e voltou para o carro. Essa foi uma manh maravilhosamente espiritual, ela pensou.

Ela no se sentia to cheia espiritualmente desde a trilha pra fora da cratera. Scott pegou
ritmo junto com os outros rapazes na frente, e Gordon ficou para trs com Teri. Foi
difcil para ela admitir para si mesma, e para mais ningum, que a companhia de Gordon
foi o ponto alto da viagem. Ele deu a ela muito para refletir.

Ela tambm pensou no comentrio de Dan de que ela e Aninha cresceram no aqurio da
vida ministerial e se condicionaram a viver de modo aceitvel s pessoas que as assistem.
Do mesmo modo como Scott dissera a ela pra parar de se desculpar e dizer que sentia
muito o tempo todo.

Isso foi o bastante para digerir nesses poucos dias, especialmente na urgncia das
questes sobre seu futuro. Ela esperava organizar alguns desses pensamentos nessa
manh, mas agora, aqui estava ela, deixando a praia com mais perguntas do que quando
chegou. Ela s conseguia pensar no quanto ela gostaria de falar com Gordon, de ouvir
seu conselho pastoral, mesmo que na forma de enigmas malucos. Ao menos ele a ajudava
a pensar.

De volta  casa, Teri procurou o nmero de Gordon na lista de telefones da igreja no
balco. Ela discou, sem ter muita certeza sobre o que diria. Depois de tocar onze vezes,
ela desistiu.

Agora Teri no sabia o que fazer. Talvez ela pudesse conversar com Scott. Ela tentou o
nmero dele, mas caiu na secretria eletrnica.

- Scott, sou eu. Me ligue assim que puder. Eu preciso muito conversar. Eu sei que voc
disse ontem  noite que passaria aqui s cinco, mas se pudssemos nos ver antes, seria
timo. Tchau.

Tudo o que ela podia fazer era esperar. O dia passou lentamente. Perto das cinco, Scott
ligou para dizer que estava enrolado e que no poderiam se encontrar. Ele no deu um
bom motivo.

- Voc tem folga amanh de manh pra ir  igreja comigo? Teri perguntou. Ela odiou o
tom de choramingo que ouviu em sua voz.

- Hm, sim e no. Eu consegui folga, mas eu combinei que iria velejar com algumas
pessoas. Eles s podem ir nessa hora. Eu sabia que voc compreenderia.

Teri compreendeu. Talvez ela estivesse compreensiva demais. Ela tambm compreendeu
quando Scott ligou no domingo  tarde para dizer que estava cansado, prometendo que a

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veria na segunda  noite. Ela disse que compreendia quando ele chegou atrasado na
segunda-feira e ela, Dan e Anita estavam acabando de comer. Scott agia como se tudo
estivesse bem enquanto comia seu jantar requentado e conversava sobre os negcios
com Dan.

Quando Teri finalmente teve um tempo com Scott, ela estava cheia.

- Voc j se deu conta que eu vou embora em trs dias, n?

- S por uma semana e meia. Depois voc vem pra ficar.

- Talvez, disse Teri.

- Como assim `talvez'? Voc prometeu. Voc concordou em se mudar pra c, lembra?

-  uma deciso difcil, Scott. Nos ltimos dias eu estive pensando muito nisso, mas eu
no consegui te ver ou sequer conversar com voc. Pra falar a verdade, eu no estou certa
de que esta  a deciso certa.

Scott inclinou sua cabea e fixou seus olhos cinzentos nela. Eles pareciam nuvens de uma
grande tempestade.

- O que voc ta dizendo, Teri?

- Sei l.

- Ser que eu posso deixar as coisas mais claras? Eu quero voc aqui. Comigo.

Essas palavras ecoaram em sua cabea no seu sono perturbado aquela noite e na manh
seguinte enquanto ela e Anita faziam compras em Lahaina. Teri queria levar algumas
lembranas para casa e convenceu Anita a andar a Rua da Frente com ela para visitar
todas as lojinhas de turistas.

Acabou sendo uma boa atividade de irms. Elas passaram tempo juntas e ainda fizeram
um lanche bem leve em um caf. A conversa girava em torno do beb e do negcio das
tamales.

- Estou to feliz que voc vem pra ficar, disse Anita enquanto elas voltavam para casa 
Vai ser bom ter voc aqui.

Teri no tinha certeza se o comentrio de Anita tinha sido sincero ou se ela sentiu a falta
de confiana de Teri e estava jogando um verde. Teri quase se abriu para Gordon
domingo na igreja. Ela falou com ele rapidamente, queria pedir um conselho sobre as
grandes decises que tomaria, mas Anita estava com eles, ento ela no disse nada.

Olhando pela janela do carro para as exuberantes montanhas no oeste de Maui, Teri
achou que estava sendo paranica novamente. Aninha a queria aqui. Scott a queria aqui.
At mesmo Gordon dissera alguma coisa sobre esperar encontr-la aqui quando ele
voltasse do seminrio no recesso de Natal. Dan mal podia esperar para comear o
negcio das tamales. Ela era a nica que estava com um p atrs. Aqui estou eu
novamente, analisando toda a aventura da minha vida.

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Elas passaram pela rua de Scott no caminho para casa, e Teri viu o carro dele na frente.

- Para a, Aninha. Scott est em casa. Vou fazer uma surpresa. Ele me leva em casa
depois.

Anita parou devagar o carro do outro lado da rua.

- Teri, eu queria te contar uma coisa.

A mo de Teri estava na maaneta da porta, pronta para abrir e descer. Ela olhou para
sua irm impacientemente, preparada para defender a si mesma ou a Scott, como
sempre.

- Que foi?

- Dan disse que na trilha ele e os outros estavam falando sobre o beb e tudo mais. Scott
era um deles. Anita parou.

- E da? Teri podia sentir a temperatura subindo. Por que Anita tinha que tentar jogar
sementes envenenadas sobre Scott quando Teri estava prestes a v-lo? Por que ela no
falou nada quando estavam comendo?  Onde voc quer chegar?

- Dan disse que Scott deixou claro que no quer ter filhos. Nunca.

- E o que tem isso?

- Pensei que voc gostaria de saber, Anita disse rapidamente.

- Ta, agora eu j sei. Teri desceu e correu para a porta da frente. Por que ela faz isso
comigo? S porque ela sabe que eu quero ter uma penca de filhos, ela tem que me cutucar
com essa estupidez que supostamente Scott disse. Eu estava l e no ouvi ele dizer nada
disso.

Teri bateu no batente da porta, enquanto tentava ver alguma coisa pelo quebra-luz.

- Scott? Ela gritou.

Uma loira jovem e esbelta usando um vestido frente-nica saiu da cozinha e dirigiu-se 
porta.

- Oi, ela disse.

Teri encarou a moa.

- Scott est a? Eu vi o carro dele da...

- No, ele est trabalhando. Ns trocamos os carros hoje. Quer deixar algum recado pra
ele?

- No, disse Teri, dando um passo atrs.  Tudo bem, obrigada.




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Ela se virou para ir embora, mas seu choque e sua curiosidade no a deixavam ir. Ela
olhou novamente para a bela mulher parada na porta. Juntando toda sua coragem, ela
perguntou:

- Como  seu nome mesmo?

- Julie. Quer que eu diga a Scott que voc passou por aqui?

- No, Teri sussurrou tentando respirar enquanto ia embora.  No se incomode.




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CAPTULO VINTE E TRS

- Voc venceu! Teri gritou, entrando em casa tempestuosamente e batendo a porta de
correr atrs de si.  Voc esteve certa o tempo todo, Aninha. Pode ficar contente agora.

Anita estava ao telefone na cozinha. Ela escondeu a cabea e cobriu a orelha livre com
uma das mos.

- Sim, ela est aqui, Anita disse e estendeu o telefone a Teri   Scott.

- No quero falar com ele! Disse Teri.

- Ele disse que  importante, Anita continuava com o telefone estendido.

- Ah, claro que .

- O que eu to fazendo? Disse Anita para o ar  Eu no vou ficar no meio disso! Ela
colocou o telefone no balco da cozinha e saiu andando com as mos para cima em
rendio  Eu s moro aqui, ela falou abruptamente  No sei o que est acontecendo e
nem quero saber! Ela entrou no quarto e bateu a porta.

Teri foi at o telefone, que estava balanando no balco da cozinha. Ela podia ouvir a voz
de Scott.

Sentindo que um vulco estava prestes a entrar em erupo dentro de si, Teri pegou o
telefone e gritou:

- Eu no acho que voc tem coisa alguma pra me dizer, Scott Robinson, nada vai mudar
minha opinio sobre voc.

- Qual  o seu problema? Ele gritou de volta.

- Meu problema? Voc  quem tem um problema aqui!

- Por que voc est brava?

- Eu vou te contar porque eu estou brava. Ela tentou abaixar o tom de voz e conseguir
algum controle sobre suas emoes  Eu parei na sua casa porque vi seu carro e adivinha
quem atendeu a porta?

Scott no respondeu.

- Julie atendeu a porta.

- E da?

- E da que ela agia como se morasse l.

- Ela mora l.

Teri caiu na cadeira mais prxima. Sua mente estava confusa.



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- Julie  a namorada do Bob. Ela se mudou pra c tem algumas semanas. Eu no te
contei?

- Namorada do Bob? Teri sentia como se tivesse levado um soco no estmago.

- , a namorada do Bob. Voc est de TPM ou coisa parecida?

Teri no respondeu.

- Voc est a?

- Sim, disse Teri baixinho.

- Eu liguei pra dizer que fiz reservas pra ns s sete.

- Sete, Teri repetiu, sua voz ainda estava mida como a de um camundongo.

- Certo, disse Scott em voz calma, retomando o controle.  s sete. Passo a l pelas 6:30.
 um lugar bacana ento voc pode se arrumar um pouquinho mais.

- Ta, disse Teri.  Scott, eu... Ela estava quase dizendo que sentia muito, mas se lembrou
do quanto isso o irritava.

- Eu mal posso esperar pra te ver.

- Eu mal posso esperar pra te ver tambm, ele disse e desligou.

Teri ficou sentada ali por um longo tempo. Sua cabea estava uma baguna e suas
emoes estavam escorregando na beira de um precipcio. Anita saiu de seu quarto e
colocou uma cadeira perto de Teri. Ela sentou-se ali, esperando Teri falar.

-  isso o que o amor faz? Deixa as pessoas loucas? Teri finalmente disse com a voz
cansada.

- Na verdade deveria te deixar s, Anita disse suavemente.

- Sou eu, disse Teri, as lgrimas se formando em seus olhos.  Eu no sou boa com
relacionamentos. Voc j disse. Eu fico analisando o romance do lado de fora. Scott diz
que eu sou rgida e paranica. Ele est certo.

- No  voc, Teri, Anita disse com voz firme, porm gentil.  Quando o homem certo
entrar na sua vida, voc saber. No ser desse jeito.

- O homem certo? Scott  o homem certo pra mim. Nunca haver ningum mais perfeito
que Scott. Ele  o homem dos sonhos de qualquer mulher.

- Ento deixe-o para qualquer mulher, disse Anita, ficando de saco cheio  Ele no  o
homem certo pra voc. Pensa, Teri! Abre os olhos por um minuto e veja o que esse
relacionamento com Scott fez com voc. Voc no est sendo voc mesma. Voc est
mudando por este homem, tentando ser quem ele espera que voc seja. Isso no  amor.
 um monte de jogos. Por que voc est com medo de deixar esse relacionamento? Isso
no  saudvel.


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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

Teri estava muito cansada para argumentar.

- Me deixa sozinha.

Anita se levantou, mas no saiu. Ela pareceu estar prestes a dizer alguma coisa, mas
mudou de ideia e saiu da sala.

Teri forou-se a se levantar e foi ao banheiro onde ficou muito tempo debaixo do
chuveiro quente. Vou ver no que d.  tudo o que posso fazer. Vou naquele jantar ver o que
acontece. No consigo ouvir Aninha ou qualquer outra pessoa. Depois dessa noite eu
poderei conversar.

Scott chegou na hora, parecendo mais bonito do que Teri jamais tinha visto. Ele vestia
roupas casuais tpicas da ilha, mas no havia nada casual no jeito como ele olhou para
ela. Ela usava um vestido com um decote na frente que mostrava sua pele bronzeada.
Quando o colocou, Teri examinou sua imagem no espelho, criticando-se por no parecer
to bela e jovial como Julie em seu vestido frente-nica. Aparentemente Scott gostou.

- Oi linda, disse ele, trazendo-a pelo ombro  Ta pronta?

Teri olhou para ele e sorriu. Ele tinha cheiro de limpo, como o vento do oceano. Devia
ser o homem mais bonito que ela j viu na vida. E ele estava com ela, abraando-a,
sussurrando em seu ouvido, levando-a para jantar. Todas as suas emoes confusas
murcharam, e a fantasia voltou.

Ele dirigiu at Lahaina com um brao atrs do banco, mexendo com os dedos nos cachos
de Teri. No carro tocava um jazz meldico, nenhum dos dois falava. Teri presumiu que
as coisas seriam assim quando se casassem. Os conflitos deles eram todos por falha de
comunicao e pela indeciso que ela sentia quando eles estavam longe um do outro.
Quando estavam juntos, como agora, nada podia separ-los. Teri decidiu que quanto
mais cedo se casassem, melhor. Na verdade, se ela pudesse se casar com ele nesse
instante, ela o faria.

- Pensei em voc o dia todo, a voz de Scott era baixa, combinando com a msica  Essa
noite ser perfeita pra ns dois. A mo dele atravessou seu cabelo, e seus fortes dedos
massageavam sua nuca.

- Muito bom, disse Teri, a voz quase sumindo.

- Voc est se sentindo melhor do que quando te liguei  tarde?

Seus olhos se encontraram quando ele rapidamente olhou para ela.

- Eu te devo desculpas, Scott. Eu estava sem noo. Obrigada por ser to compreensivo.

Ela viu os lbios dele se curvarem em um sorriso.

- Sem problema, ele disse. Ento, tirando o brao, ele usou as duas mos para entrar em
uma vaga de estacionamento apertada na Rua da Frente.

- J veio no Kimos?

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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

- No vero passado. Sabia que o Dan trabalha a toda sexta  noite?

Scott abriu a porta dela e ofereceu sua mo para ajud-la a descer do carro.

- Eu devo trabalhar aqui nas noites de sexta, ele disse.  Eles cortaram minhas horas no
Halekuali'i. Da pra acreditar? Dezesseis horas por semana como manobrista e vinte e
quatro no servio de quarto. No  o bastante para pagar as contas. Quanto antes a gente
deslanchar com essas tamales, melhor.

O caminho entre o carro e o restaurante estava cheio de turistas. Mesmo assim, nesse
mar de gente, o primeiro rosto que Teri viu foi o de Mark Hunter. Ele estava andando em
direo a eles, envolvendo com seu brao uma pequena mulher de cabelos escuros, e ele
notou Teri tambm.

- Oi, Teri disse primeiro, parando no meio da calada e sorrindo para Mark.  Scott, voc
se lembra do Mark? Mark Hunter, Scott Robinson.

Os dois homens se cumprimentaram.

Depois nenhum dos dois sabia o que dizer. Dzias de pedestres passavam por eles.

- Estamos indo para o Kimos, disse Scott, dando uma dica para Teri de que ele queria ir.

- Dan me disse que voc vai essa semana, Mark disse rapidamente. Ele olhava para Teri
como se no houvesse mais ningum ali.

- Daqui dois dias, Teri disse olhando fixamente para Mark. Ela odiava esse n no
estmago, o sentimento de que as coisas estavam mal resolvidas entre eles.

- Scott, Claire, se importam se conversar com Teri a ss um minutinho?

Scott no soltou a mo de Teri ao mesmo tempo em que ela soltou a dele. Ela olhou para
Scott, e ele entendeu o recado, dizendo:

- Eu vou ao restaurante ver se nossa mesa est pronta.

- Estarei naquela loja, Mark, disse Claire. Ela sorriu para Teri.   um prazer te conhecer,
Teri. Mark fala muito de voc. Ela entrou na loja de camisetas e toalhas de praia.

Teri sentiu que estava corando.

Mark foi para o lado do prdio, para deixar os pedestres passarem pela calada.

- Teri, eu queria te ligar. Eu ia fazer isso. Na verdade, eu ia passar l pra te ver. Mas assim
 melhor. Eu queria muito te agradecer por, bem... Acho que por ter sido to direta
naquele caf da manh.

Teri sabia que Mark estava se esforando para formar tantas palavras to rapidamente e
ser to aberto. Ela imaginou que ele praticou isso mais de uma vez.

- Quero que saiba que o ltimo vero foi muito especial pra mim, ele continuou  Eu
gostei muito de estar com voc, e sempre terei timas lembranas do nosso tempo


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juntos. E todas as palavras que eu te disse nas cartas e nos telefonemas nesse ano que
passou foram sinceras. Estava ansioso para te ver neste vero. A voc chegou e...

- Eu sei, disse Teri  No foi a mesma coisa. No  culpa nossa. Relacionamentos mudam.
Claire parece uma mulher maravilhosa pra voc.

-  isso que eu queria te contar, disse Mark  Eu no enxergava isso. Durante meses ns
trabalhamos juntos, e eu nunca pensei nela em mais do que uma colega de pesquisas
porque estava esperando por voc. Ela sabia disso. Ento quando as coisas no deram
certo pra ns, eu fiquei muito mal. Depois que voc disse aquelas coisas, eu vi que estava
preso a uma iluso sobre ns. Voc entende o que quero dizer?

Teri fez que sim.

- Ento foi como se eu visse Claire pela primeira vez. Quero que saiba que eu no estava
saindo com ela nas suas costas nem nada disso. Eu sei que no chegamos a ter nenhum
compromisso, mas eu acho que ns dois queramos esperar pra ver o que aconteceria.

- Isso mesmo, disse Teri  No sei porque alguns relacionamentos duram apenas uma
estao.

- Isso no faz deles menos reais ou menos importantes. Voc me ensinou a alegria, Teri.
Voc v graa em toda situao, e eu sou melhor agora por ter estado com voc.

- Voc sempre ter um cantinho no meu corao tambm, Mark. Obrigada por me dizer
essas coisas.

Mark pegou na mo dela e apertou de leve. Ela apertou a dele tambm, e os dois amigos
trocaram sorrisos.

- Teri, Scott gritou da rua. Ele colocou dois dedos na boca e assoviou bem alto.

- Acho que nossa mesa est pronta, disse Teri.  Deus te abenoe, Mark.

- Ele tem feito isso, disse Mark, abraando-a rapidamente.  E que Deus te abenoe, Teri.

Ela se virou e acenou amigavelmente para Claire, que estava vendo-os de dentro da loja.
Claire corou ao perceber que tinha sido pega e acenou de volta.

Abrindo caminho entre os passantes, Teri correu at o restaurante. Por dentro ela estava
encantada. Que homem ntegro! Engraado ele dizer que eu o ensinei a alegria. Eu devo ter
mudado. Agora eu  quem fico pra baixo o tempo todo. Essa sou eu? Ou eu sou assim com
Scott, como disse Aninha? Acho que  hora de achar graa em toda situao novamente.

- Venha, Scott a segurou pelo cotovelo  Nossa mesa est pronta.

- Foram os cinco minutos mais bem gastos da minha vida, Scott, disse Teri, tentando
transmitir sua alegria enquanto a recepcionista os levava at a mesa.  Me sinto to bem
com tudo isso agora.

Scott afastou a cadeira para ela, e a recepcionista entregou o menu.


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- Obrigada, disse Teri  Eu estava bastante perturbada por causa da forma como as coisas
terminaram com Mark, e agora est tudo claro e aberto. Estou to feliz!

Scott se inclinou para frente e abaixou o menu.

- Como assim? Voc tava saindo com aquele cara?

- No vero passado. Eu no te falei?

Scott no parecia muito contente.

- Quer dizer que voc tava de rolo com aquele cara no ltimo vero?

- De rolo? Teri repetiu, rindo.  Acho que sim, se  assim que voc quer chamar. Ns
passamos um tempo juntos. Trocamos algumas cartas durante o ano. Alguns
telefonemas.

- E voc se encontrou com ele esse vero? Saiu com ele ao mesmo tempo em que estava
saindo comigo?

- No, claro que no. Quer dizer, Teri rapidamente se corrigiu  Ns nos encontramos
para tomar caf da manh uma vez, mas foi s pra conversar e descobrir onde ia dar esse
relacionamento.

Scott ergueu as sobrancelhas com um olha de crtica, indicando-a que continuasse.

- No ia a lugar algum, Scott.  isso que estou tentando te dizer. Voc est agindo como
se eu estivesse te traindo ou sei l! Agora Teri estava frustrada.  Eu no deveria ter dito
nada. A questo  que quando nos encontramos eu fiz o maior discurso. Eu disse que no
queria continuar. Ele no disse nada, mas essa noite ele me contou que concordou. Ele
est com Claire. Voc no viu como estavam felizes juntos? No vai implicar agora, n?

Scott ergueu o menu sem dizer nada. Teri tentou no deixar escapar a alegria que sentia.
Talvez Scott estivesse com cimes, como ela teve cimes de Julie. Mas no havia nada do
que ele ter cimes, assim como ela no tinha que ter cimes de Julie. Ela tentou dizer a
ele.

Ele abaixou o menu e disse:

- Vamos esquecer isso e comear de novo. Ele sorriu, e ela se sentiu um pouco melhor.

- O peixe parece bom, disse Scott, olhando o menu.  J sabe o que vai querer?

Os dois estavam escondidos atrs dos menus quando o garom chegou  mesa. Uma voz
com sotaque definitivamente australiano disse:

- Boa noite. Querem ouvir sobre os especiais da casa?




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CAPTULO VINTE E QUATRO

- Gordon? Desde quando voc trabalha aqui? Disse Teri, abaixando o menu, sorrindo
para o seu garom.

- Ei, Teri e Scott, ele disse  Que legal! Minha primeira noite no emprego, e eu posso
praticar com amigos. Vamos ver... Gordon comeou a ler os especiais da casa, na
caderneta que estava em sua mo  Atum fresco grelhado, com molho de limo, com
manteiga...

Teri olhou para Scott. Ele no parecia muito contente. Por que Scott no vai com a cara
do Gordon?

Gordon terminou a lista e olhou para Teri, esperando sua resposta.

- Vou querer o mahimahi, ela disse   meu peixe favorito.

-  o meu tambm, Gordon respondeu, anotando o pedido  E pra voc, Scott?

- Ponta de costela. Manteiga e creme de leite nas batatas.

- timo! Volto em um instante com as suas saladas, Gordon pegou os cardpios e,
olhando para Teri, disse  Voc est linda hoje.

Ela sorriu agradecendo, observando-o at ele ir embora, quando voltou-se para Scott. Ele
estava com aquela cara ciumenta de novo.

Uma mulher com um vestido traspassado apertado chegou  mesa deles com uma cesta
cheia de leis e corsages9.

Teri sentiu a doce fragrncia e olhou para cima para ver as flores.

- So lindas, ela disse, imaginando que Scott ouviria a dica.  Como se chamam essas
branquinhas? Ela apontou para um lei cheio de pequenos gominhos brancos.

- Anglica, ela respondeu.

Teri esperou Scott se ligar e comprar o lei para ela. Ele no comprou. Seu lado negro
parecia estar engolindo-o. Sem sequer notar a vendedora, ele disse a Teri:

- Qual  a sua hoje a noite? Virou um m de homens?

- Do que voc est falando?

A menina das flores saiu discretamente.




9
  O corsage  um mini-buqu com uma ou duas flores, arrematado com um lao que as meninas
(e at mulheres) usam numa festa que v com seu namorado.
http://www.talkwedding.org/pictures/white_rose_-corsage.jpg
http://www.decorativepackagingblog.com/wp-content/uploads/2009/04/corsage1.jpg

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- Primeiro o Mark l na rua e agora o Gordon olhando pra voc como se no houvesse
outra mulher nesse lugar.

- Por que esse cime todo hoje, Scott? Voc no se importou nem um pouco com o fato
de eu ter ficado com Gordon na cratera. Na verdade, voc me largou com ele durante
horas.

- S porque voc queria ouvir as histrias estpidas dele.

- As histrias dele no so estpidas. Gordon conhece aquele lugar. Eu estava tentando
aprender alguma coisa. Teri sentiu seu temperamento esquentando, e nem notou a
vendedora de flores retornando  mesa.

- Com licena, ela disse  Essa  pra voc. Ela colocou o lei de anglicas sobre a cabea de
Teri.  Com os cumprimentos do seu garom.

Scott imediatamente pegou sua carteira.

- Quanto ? Eu vou pagar, ele disse.

- J est pago, ela disse, e seguiu para a mesa seguinte.

Teri aspirou a doce e intensa fragrncia.

Scott parecia prestes a dizer alguma coisa quando Gordon chegou  mesa com as saladas.

- Pimenta? Ele perguntou, segurando o moedor sobre o prato de Teri.

- S um pouquinho. Obrigada pelas flores. So lindas. E muito cheirosas!

- Que bom que gostou, disse Gordon, dando uma volta no moedor.  Pimenta, Scott?

Ele ainda parecia zangado.

- Claro, ele murmurou, sem olhar para Gordon.

Gordon colocou o moedor sobre o prato de Scott. Antes que ele pudesse dar uma volta, a
tampa de baixo do moedor caiu, enchendo o prato de Scott de pimenta.

- Opa! Gordon rapidamente virou o moedor, jogando pimenta na cara de Scott enquanto
tentava conter o derramamento de pimenta.  Mil desculpas. Falha minha. Ele pegou o
prato e disse  Volto j com outra salada pra voc.

Scott bateu na camisa e na mesa com o guardanapo.

- Imbecil, ele murmurou.

- Foi um acidente, disse Teri devagar  No foi culpa dele.

- , mas ele tem uma tendncia a atrair acidentes, se  que voc ainda no percebeu.

- Eu sei, disse Teri segurando o riso  Ele caiu no mar outro dia tentando se equilibrar
nas rochas e acabou me levando com ele.


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- Quando foi isso? Voc no me contou.

Teri contou o incidente, explicando que ela tinha ido  praia para pensar e que
encontrou Gordon l.

- Ele chamou aquilo de encontro divino, ela disse, rindo.

- Tem certeza de que vocs no marcaram um encontro l? Voc no marcou de
conversar com ele como no caf da manh com o outro cara?

- Claro que no!

- Me parece que voc esteve bastante ocupada encontrando-se com outros homens nas
ltimas semanas. Enquanto eu estava pensando que estava te dando espao, tempo pra
pensar no nosso relacionamento.

- No acredito que voc est dizendo isso, Scott!

Gordon chegou com a outra salada.

- Sem pimenta dessa vez, disse Scott, seco.

Gordon, aparentemente nada intimidado, acenou com a cabea e seguiu para a mesa
seguinte.

- Voc no precisava ser to rude.

- Eu no fui rude. Scott comeou a comer sua salada.  No sei porque voc est to
disposta a comear uma briga hoje.

- Eu? Eu no estou tentando comear briga nenhuma!

Scott comeu mais um pouco da salada e disse:

- Por que no est comendo?

- Eu costumo orar antes de comer. Ento, suavizando o tom de voz, ela disse.  Voc
pode orar, Scott? Acho que poderamos fazer isso agora.

- Pode orar, ele disse, respeitosamente esperando que ela orasse.

- Eu gostaria que voc orasse, ela disse.  Acho que o homem tem que ir  frente,
especialmente em assuntos espirituais.

- Olha voc encalhada na sua infncia de novo, disse Scott  Homens e mulheres so
iguais. Tanto no relacionamento um com o outro, espiritualmente, tudo, sempre, no
mesmo nvel.

- Deixa pra l, disse Teri  No precisa orar, no.

- No, pode orar, disse Scott.  No me importo.

- Esse  o problema, Scott. Voc no se importa nem um pouco.


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- O que voc quer dizer?

- Nada. Deixa pra l. Vamos comer em paz, ta bom?

Scott pegou o garfo e voltou-se para sua salada, sem dizer uma palavra.

Teri fechou os olhos e silenciosamente orou. Oh, Pai, o que estou fazendo? Scott no  o
homem certo pra mim. Como foi que eu no percebi isso antes? Mostra-me o que queres
que eu faa. Arrume as coisas em seus lugares.

Ela abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi a mo de Gordon entregando uma cesta
de rolinhos.

- Como esto suas saladas? Ele perguntou.

- Esto boas, Teri respondeu, tentando agir como se nada estivesse dando errado.

- timo. Vou checar o jantar de vocs.

- Scott, Teri comeou a falar alguns minutos depois  No tenho certeza de que est
dando certo.

- Qual , amor, ele disse, retornando quele tom suave e confidente  Todos os casais
tm discordncias. Vamos seguir em frente, ta bom?

Teri balanou a cabea.

- Scott, ns somos diferentes demais.

- Vai comear com aquele papo racial de novo?

- No, eu quis dizer diferente aqui, Teri colocou a mo sobre o corao.  Acho que
deveramos ser iguais, como voc disse. Acontece que eu acabei de perceber que nossos
coraes no esto envolvidos de modo igual. Quer dizer, ns dois tentamos. Eu sei que
voc tentou e que eu tentei, tambm. S que estamos forando demais. Se ns estamos
pensando seriamente em casamento...

- Casamento? Disse Scott rindo.

Gordon chegou de repente  mesa, com o jantar deles.

- De onde voc tirou que eu estava pensado em casar?

Teri se sentiu envergonhada por Gordon estar ouvindo isso. Ela colocou de lado o prato
de salada para dar espao ao mahimahi que Gordon colocou  sua frente.

- E a ponta de costela, ele disse, entregando o prato de Scott.

- Eu vou querer mais raiz forte, disse ele, no se importando com a presena de Gordon.
 E mais creme de leite.

- Tudo bem, disse Gordon.  Algo pra voc, Teri?


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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

Ela no olhou pra cima, mas disse:

- Pode me trazer um ch gelado, por favor?

Ele sumiu, ento Scott inclinou-se sobre a mesa e acariciou a mo de Teri.

- Ei, no sei o que est se passando nessa cabecinha, mas nas ltimas semanas, eu estive
falando sobre ficarmos juntos. Sabe, um passo de cada vez. Eu no estava planejando que
voc se mudasse pra c para que pudssemos ento nos casar. Decises como essa levam
tempo.  um compromisso muito srio. Ainda chegamos nesse ponto.

Teri comeou a sentir a neblina da confuso enuviar seu raciocnio como aconteceu
muitas vezes nas ltimas semanas. Scott estava certo. Eles precisavam ir devagar. No foi
isso o que ela disse desde o incio? Por que ser que ela pensou que ele queria se casar
com ela?

Scott soltou sua mo e parte dessa poeira mgica a deixou.

- Enquanto voc estiver arrumando suas coisas na semana que vem, eu vou procurar um
lugar pra ns dois. Ser diferente quando voc vier pra ficar e nos passarmos todo o
tempo juntos.

- Um lugar pra ns dois? Disse Teri.  Quer dizer morar juntos?

- Claro. Voc no pode fazer tamales na casa da sua irm. Ela disse que no suporta o
cheiro forte.

Com o canto dos olhos, Teri viu Gordon se aproximando da mesa deles com uma
bandeja. Com a voz baixa, ela disse:

- Scott, eu no posso morar com voc.

- Por que no?

- Porque eu... Eu...

- Se ns vamos investir nesse relacionamento, Scott disse  Devemos seguir o caminho
completo.

As palavras que ele escolheu causaram pnico em Teri.

- O nico jeito de saber se vai dar certo  morando juntos.

Gordon ouviu isso. Ela sabia que sim. Teri no queria olhar para ele. Ele colocou a
tigelinha com a raiz forte na mesa. Ela olhou timidamente quando ele retirou a tigela
com o creme de leite da bandeja em sua mo. Teri percebeu o seu ch gelado
escorregando na bandeja, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. O ch gelado
chegou ao fim da bandeja, virou e jogou sua cachoeira gelada no colo de Scott.

- Seu idiota! Scott gritou, pulando da cadeira, com cara de quem daria um tiro em
Gordon.  Chega! Diga ao seu gerente que eu quero falar com ele. No, espera. Melhor
ainda, eu vou falar com ele.

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Scott empurrou Gordon com apenas um brao e, com o restaurante cheio de
espectadores, marchou com suas calas molhadas para a mesa na frente.

Teri escondeu o rosto em suas mos. Ela no podia acreditar no desastre em que essa
noite se tornara.

- Teri, a voz de Gordon parecia um calmante.

Ela espiou entre os dedos, mas no o viu.

- Teresa, ele repetiu.

Ela tirou as mos do rosto, e l estava Gordon, abaixado com um joelho no cho, em
frente  sua cadeira. Seu rosto parecia sincero, e sua conduta destemida diante daquele
acidente ou mesmo do medo do que aconteceria a ele depois que Scott terminasse de
falar com o gerente.

- Talvez essa no seja a melhor hora, mas Teri, eu tenho que dizer que estou apaixonado
por voc. No sei como dizer isso de outra forma. Teresa, quer casar comigo?

Ela o olhou espantada enquanto dzias de pessoas estavam sentadas ao redor deles.

- Gordon, ela disse com uma risadinha nervosa  As pessoas esto vendo isso.

- E os anjos tambm, ele disse, sem se mover.

Teri deu aquela risada nervosa novamente. Ela lanou olhares defensivos para as pessoas
em volta deles.

- Gordon, ela disse entre os dentes  Isso  ridculo. Levante-se.

- Eu vou levantar quando voc me der uma resposta.

Teri viu Scott vindo at eles com o gerente logo atrs.

- No. Gordon, a resposta  no. Por favor, levante-se!

Ele levantou, sereno, com os olhos presos aos dela. Ela sentia como se, sem ser
convidado, aquele homem estivesse olhando pelas janelas da sua alma.

- Eu posso esperar, ele disse baixinho.




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CAPTULO VINTE E CINCO

Teri estava parada no carrossel de bagagens do aeroporto em Eugene, Oregon, esperando
sua mala de lona chegar at ela. Teri levantou a mala esbaforida, e se arrastou at a
calada onde tinha combinado de se encontrar com Jessica. Logo que saiu do terminal,
Teri viu a caminhonete de Kyle. Kyle e Jessica estavam dentro dela e acenaram para Teri.

Kyle, o marido bombeiro de Jessica, desceu do lado do motorista e veio at Teri com os
braos abertos.

- Bem vinda ao lar, Teri! Se divertiu bastante?

- Nem pergunte, Teri murmurou, entregando a ele sua mala, que ele colocou na traseira
da caminhonete. Ela abriu a porta do passageiro, subiu no carro e deu um abrao em
Jessica.

Kyle tambm entrou e os dois olharam para Teri.

- Ento, Jessica disse, jogando seus cabelos cor de mel para trs dos ombros  Como
foram as frias?

- Exaustivas, disse Teri.  No quero falar sobre isso. Prefiro ouvir sobre a lua de mel de
vocs. Como foi o cruzeiro?

- Maravilhoso, disse Kyle, olhando para Jessica com cara de apaixonado recm-casado.

Eles se casaram h cinco semanas, dois dias antes de Teri partir para Maui. Ela foi uma
das bridesmaids e caminhou pelo corredor da pequena igreja de Glenbrooke com uma
braada de rosas cor-de-rosa. O casamento romntico foi lindo, e fez Teri mergulhar em
fantasias sobre Mark dias antes de v-lo. Engraado como tanta coisa mudou em pouco
mais de um ms.

- Que bom que vocs se divertiram, disse Teri  Talvez eu deva tentar o Caribe nas
prximas frias. Certamente no volto a Maui nunca mais!

Kyle entrou no fluxo do trfego em direo a Glenbrooke.

- Voc sabe que voc quer contar, ele disse.  O que aconteceu l?

Teri j era amiga de Kyle h muitos anos quando Jessica se mudou para a cidade. Mais de
uma vez Kyle e Teri tiveram conversas de corao para corao, do tipo que irmos
sempre tm. Teri considerava Jessica como sua melhor amiga. Talvez ela devesse chorar
suas pitangas para esses dois.

- Vou comear com as boas notcias. Minha irm est grvida, e at agora a gravidez foi
tranquila. O mdico disse que ela no precisa temer outro aborto dessa vez, e eu acho
que ela vai ficar bem. Dan est super empolgado, orgulhoso e tudo mais.

- Que timo! Disse Jessica.



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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

Ela estava sentada no meio, entre Kyle e Teri. Teri no pode deixar de notar como ela
estava perto de Kyle. Mais do que o necessrio para que Teri pudesse sentar. Quase
parecia que eles tinham se costurado um ao outro. Teri imaginou como seria se sentir to
perto de um homem. De certa forma, ela estava com cimes de que Jessica estivesse
experimentando algo que ela tinha certeza que jamais teria, no depois de tudo que ela
acabara de passar.

- Agora as ms notcias, disse Kyle.  Imagino que as coisas no deram certo ente voc e...
Como  mesmo o nome dele?

- Mark. , as coisas no deram certo com Mark. Ele est com uma mulher chamada
Claire. Ela  um doce e eu estou feliz por ele.

- Sinto muito, Teri, disse Jessica.

- Pera, tem mais! Eu encontrei um homem que estudou no mesmo colgio que eu e que
me deixou completamente confusa por semanas, tentando acreditar que algo duradouro
estava acontecendo entre ns. Eu me iludi completamente. No era a pessoa certa, afinal
de contas. Era como se eu estivesse resolvida a provar alguma coisa a mim mesma ou 
minha irm. Ns duas brigamos a maior parte do tempo em que eu estive l, na maioria
das vezes por causa de Scott, e eu quase deixei Glenbrooke e toda a minha vida aqui para
arriscar um negcio com Scott e meu cunhado. Ia fazer tamales. D pra acreditar?

- Tamales  uma boa pedida. Vocs esto com fome? Disse Kyle.

- Kyle! Jessica deu uma batidinha no brao dele.  Quando uma mulher est abrindo o
corao pra voc, voc no pergunta se ela est com fome.

- Desculpa a, ele disse, bem-humorado.  V em frente, Teri. Voc estava envolvida com
esse tal de Scott.

- Ns no estvamos envolvidos de verdade. Bem, eu achei que sim. Meu corao tinha
certeza disso. Sei l. To confusa. Eu s preciso ir pra casa e voltar  minha vida normal e
esquecer esse fiasco todo.

Graciosamente, Jessica mudou de assunto e comeou a contar a Teri sobre o grande
projeto deles, restaurar a velha casa vitoriana no topo da Rua Madison. Estava vazia h
mais de oito anos. Eles a compraram, contrataram uma equipe de trabalhadores, e
esperavam se mudar pra l antes do Natal. Agora eles estavam morando na casa de Kyle,
que era grande, num estilo campestre, na periferia da cidade. Jessica dissera uma vez que
no se importava em morar ali, mas era muito rstico para ela, com as vigas de madeira
atravessando o teto do andar de baixo. Teri imaginava que a manso Vitoriana era quase
o oposto da casa de Kyle. Mas Kyle parecia empolgado com o projeto.

Quando eles deixaram Teri em seu pequeno chal, Jessica disse:

- Tudo bem se eu passasse aqui por esses dias? Eu sei que voc quer se reorganizar e tudo
mais, ento me liga quando puder receber uma visita.




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Teri ligou para ela dois dias depois. Ela j tinha examinado, chorado e lavado sua alma o
bastante e estava pronta para ter companhia. Elas planejaram se encontrar ao meio-dia,
Teri fez uma salada para elas. Jessica chegou com uma cesta de croissants da padaria, e as
duas amigas se sentaram na aconchegante cozinha de Teri, prontas para retomar a
amizade. Muita coisa acontecera a elas no ltimo um ms e meio.

- Ento, Teri comeou  me conta sobre a vida de casada.  como voc imaginou que
seria?

- Acho que sim, disse Jessica. Ela no era uma mulher linda, mas era amvel, com uma
aparncia simples e gentil. Seu jeito reservado incentivou Teri quando elas se
encontraram pela primeira vez, j que Teri tendia a ter uma abordagem direta e franca
com tudo e todos. A amizade delas cresceu rpido, e Teri sentia que podia confiar de
corao em Jessica. Ela esperava que Jessica se sentisse assim com ela tambm.

- De certa forma, eu no me sinto casada, disse Jessica  No sei como explicar. Parece
tudo to natural pra mim, como se ns devssemos estar juntos, e j que estamos
casados,  claro que ns moramos juntos e comemos juntos e dormimos juntos. Ela
comeu um pedao de seu croissant, parecendo pensativa.  Teri,  estranho. O que eu
sinto por Kyle  to poderoso e intenso... Mas no nosso dia-a-dia,  to normal. Quer
dizer,  maravilhoso estar, sabe... Completamente unidos. Mas isso  to normal como se
fosse o jeito como deveria ser. Eu no estou explicando isso direito.

- Acho que entendi o que voc est dizendo. Eu meio que vi isso com a minha irm e o
marido dela.

- Acho que eu sempre pensei no casamento como um grande mistrio. Voc encontra a
pessoa certa, e vocs se tornam um, e de alguma forma tudo muda. As coisas no
mudam, na verdade. Elas continuam, s que agora so mais... Sei l... Cheias. Profundas.
Mais ricas e mais completas.

- Voc est me desapontando, J. Pensei que voc iria me contar todas aquelas histrias
romnticas de paixo selvagem e fogos de artifcio eternos.

Jessica sorriu, a cicatriz na sua boca se curvou levemente.

- Ah, pode crer que tem fogos de artifcio.

Por um momento ela apareceu flutuar.

- Bem, isso  reconfortante, disse Teri.

Jessica limpou a garganta.

- Essa parte do casamento fica entre Kyle e eu. Um sorriso doce surgiu em seus lbios. 
Eu estava falando sobre o dia-a-dia com outra pessoa.  engraado como opostos se
atraem. Eu nunca me imaginei casada com um homem como Kyle. Agora no consigo
me imaginar ao lado de mais ningum a no ser ele.

Teri pensou em Mark e Scott. Ela no se via com nenhum dos dois agora. Ela tinha
focado tanto no seu conceito de qumica entre ela e o Sr. Certo, e agora Jessica estava
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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

dizendo que o verdadeiro poder surge do comum, da amizade no dia-a-dia. Estranho.
Seu foco ficou em uma busca por romance, o que a levou a dois homens com quem ela
particularmente no gostava de estar.

- Jessica, acho que preciso de um conselheiro. Estou muito confusa. Eu no sei o que
buscar em um relacionamento. Talvez eu no seja daquelas que se casam. Talvez eu seja
daquelas que ficam solteiras pelo resto da vida. Mas se  assim, por que Deus me deu
esses desejos? Eu quero amar um homem com todo o meu ser. Eu quero filhos. Um
monto de filhos. Eu quero me casar. As lgrimas escaparam dos seus olhos e comearam
a escorrer em seu rosto.  A culpa  minha. Eu sou uma perdedora.

Jessica calmamente deu a volta na mesa e abraou Teri.

- Voc no  uma perdedora, ela disse firmemente.  Voc se lembra do que me disse no
outono quando algum deixou aquelas sacolas de comida na minha porta? Eu nunca vou
me esquecer. Voc disse `quando entregamos a Deus, ele age de uma maneira incrvel'.
Voc me disse que Ele age de maneira sobrenatural para que o melhor acontea. Naquele
momento, eu sequer estava ligada a Deus, mas as suas palavras me tocaram.

Teri enxugou as lgrimas com um guardanapo. Interiormente, ela se censurou por ter
ensinado a Jessica essas respostas fceis. Ela no se importava com Jessica devolvendo-as
a ela, quase um ano depois, mas Teri passara a ver a vida como um complexo
emaranhado de emoes e acontecimentos. Respostas fceis no funcionavam mais para
ela.

- J, eu aprecio o que est tentando fazer. Eu s estou percebendo que eu sou uma pessoa
muito mais intensa do que eu pensava, e estou muito mal tentando descobrir o que estou
fazendo de errado.

Jessica voltou  sua cadeira, e depois de um tempo disse:

- Conhece Robert Burns?

- Ele mora em Glenbrooke?

- No... Robert Burns, o poeta escocs. Eu tive que memorizar alguns trabalhos dele na
faculdade, e acabei de lembrar de uma das oraes dele. Se importa se eu a recitasse para
voc?

- Teri deu de ombros e Jessica comeou.

Tu sabes que Tu me formastes
Com paixes fortes e selvagens;
E ouvir  sua voz sedutora
Tem me levado ao erro freqente.

Onde errei intencionalmente,
Outra desculpa no tenho,
Mas, Tu s bom; e a bondade permanece
Pois deleita-se no perdo.


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Teri tentou lembrar a citao de Jessica depois que ela saiu. Ela concordou que suas
paixes eram, de fato, selvagens e fortes. E, quando ela pensou em perdo, uma longa
corrente de oraes saiu de seus lbios.

- Pai, eu errei em minhas intenes, no foi? Eu estava to ansiosa para amar e ser amada
que at desejei ter um compromisso com Scott quando ele sequer te conhecia. Eu estava
olhando para o exterior. O Senhor olha para o corao. Oh, Deus, por favor, me perdoa.
Purifica-me. Prepara-me para o homem certo. Um homem que te ame e que queira
passar o resto de sua vida me amando.

Isso a ajudou a colocar seu corao em orao. Contudo, Teri no pde deixar de sentir
que sua orao por um homem foi tambm uma brincadeira de uma sonhadora. Era
difcil acreditar que esse homem existisse no planeta Terra.




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CAPTULO VINTE E SEIS

Duas semanas aps seu retorno de Maui, Teri j estava voltando a ser ela mesma. A vida
em Glenbrooke era agradvel, e seus dias eram preenchidos com bons amigos e muitos
bazares de garagem. O intenso desejo por um marido que a levara a Maui parecia ter
ficado de lado enquanto ela se preparava para mais um ano de aulas na Glenbrooke High
School.

 Anita ligara no domingo seguinte ao seu retorno ao Oregon. Nos primeiros cinco
minutos de conversa, Teri sentiu que havia paz entre elas. Aninha mencionou
rapidamente que Dan estava pensando em fazer alguns cursos de administrao 
distncia. Depois daquela ideia das tamales, Dan se descobriu mais ligado aos negcios
do que imaginara. Aninha via isso como alguma coisa boa que veio de toda aquela coisa
das tamales, e ela agradeceu a Teri por permitir que Dan a arrastasse a planos to
extensos, mesmo quando para ela essa ideia parecia to forada. Teri se sentiu
confortada sabendo que Dan no estava bravo por ela ter desistido.

No quarto domingo depois que ela voltou, era a vez de Teri ligar para Aninha. Ela
decidiu que era hora de perguntar sobre Scott.

- Scott? Disse Anita, fazendo graa  Que Scott?

- Ai, Anita. Para com isso. Acaso voc o viu ou falou com ele?

- No desde o dia que voc foi embora quando ele veio aqui tentando te convencer a no
dar o fora nele.

- Eu no dei o fora nele. Teri disse, silenciosamente se lembrando de como foi aquela
conversa.

Scott apareceu na porta da frente quando ela estava saindo do chuveiro. Seu cabelo
estava pingando, e ela estava parada na sala, enrolada no robe de Dan, que estava
pendurado na porta do banheiro. Scott disse que queria saber se havia algo que ele
poderia fazer ou dizer para que ela mudasse de ideia. Ela disse a ele que estava bem claro
que eles estavam atrs de relacionamentos completamente diferentes. Ela queria um
relacionamento que levasse ao casamento. Scott disse:

- Eu no sou o tipo de cara que faz um compromisso de uma vida inteira como esse. Por
que voc no pode estar disposta a aceitar as coisas conforme elas vm?

Teri usou a frase dele para responder.

- Porque eu acho que no sou o tipo que aceito as coisas conforme elas vm. Eu preciso
de um compromisso de uma vida inteira.

Scott olhou profundamente em seus olhos.

- Ento, pra voc  casamento ou nada?

Teri acenou que sim.


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                               Sussurros  Robin Jones Gunn

- Que pena, Scott disse, passando o dedo no rosto dela e acariciando seus cachos pela
ltima vez.  Ns nunca vamos saber como poderia ter sido bom estarmos juntos. E com
isso ele saiu.

Teri espantou a lembrana de sua mente e disse:

- Scott e eu concordamos que no estava dando certo. No era pra acontecer. Eu no dei
o fora nele.

- Voc no precisa tentar me convencer que no era pra acontecer, Aninha disse  Eu
nunca achei que ia dar certo. S espero que voc no tenha sofrido tanto at chegar a
essa concluso.

- Sim, sapientssima e onisciente irm, eu sei, eu sei. Acho que eu meio que esperei
contra toda sorte que Scott comearia a ir  igreja sozinho ou sei l.

- No. Ah, mas Gordon manda lembranas.

Teri sentiu uma engraada sensao acolhedora nas palavras de Aninha. Mesmo Gordon
sendo to peculiar, ele era uma das lembranas mais queridas e amigveis de suas frias.
Ela nunca disse a Aninha ou a qualquer outra pessoa sobre o gesto ridculo de Gordon no
Kimo's. Ela no levou a srio o pedido de casamento cmico j que Gordon estava do
lado de Dan e Anita quando se tratava de opinies sobre Scott. Quando Gordon ouviu os
comentrios de Scott sobre no querer casar com ela, apenas morar com ela, Gordon
obviamente tentou chamar a ateno de Teri para que ela esquecesse Scott. Ele deve ter
pensado que a ttica funcionou, j que Teri e Scott terminaram. Mas ela j tinha decidido
isso antes de Gordon derramar o ch.

Ela no viu Gordon novamente antes de ir embora. Se tivesse, provavelmente ela teria
dado uma palmadinha em suas costas e agradecido por sua ltima tentativa de afast-la
de Scott, ainda que desnecessariamente.

- Como est o velho Gordo? Perguntou Teri.

- Vai embora amanh, de volta para o seminrio no continente. Ele pregou hoje de
manh, Teri, voc deveria estar aqui. Aquele homem tem a mo de Deus sobre ele.

- Que bom, n? Disse Teri  Se no fosse assim ele estaria tropeando em todo lugar.

- No  engraado! Voc no sabe que ele tem um problema de equilbrio?

- Sei, e como sei! Ela contou a Anita sobre aquela manh nas rochas quando ele a
derrubou no oceano.

- Eu no sabia disso! Por que no me contou quando estava aqui?

- No te contei um bocado de coisas, Aninha, e eu sinto muito por isso agora. Queria
poder comear esse vero de novo. Estou feliz por ter passado por tudo isso, mas eu
preferiria ter passado por essa coisa de relacionamentos no colgio, como a maioria das
pessoas. No fui a melhor nesse vero.


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- , eu tambm no estava muito no clima, e sinto muito por isso. Estou comeando a me
sentir melhor agora que estou entrando no segundo trimestre de gestao. Meu sistema
e meus hormnios parecem estar mais amigveis agora. Pelo menos  o que Dan diz.

- E o mdico? O que ele disse?

- Eu no tenho consulta pelas prximas duas semanas, mas tem ido muito bem. Com os
outro bebs eu no cheguei to longe, ento estou feliz por ter chegado at aqui,
tambm. Cada dia pra mim tem sido um passo de f.

- Sabe, mesmo esse vero no tendo sido como eu pensei, estou feliz por estar com voc
quando descobriu que estava grvida.

- Tambm estou feliz porque voc estava aqui. Quando volta?

- Ah... Quem sabe nunca mais.

Aninha riu.

- Ah, voc tem que ver sua sobrinha.

- Sobrinho! Dan gritou atrs dela.

- Voc ouviu?

- Sim. Diga a ele que ele est perdendo por dois a um a favor de uma garota.

- Eu vou dizer. Tenho que ir. Te mando uma fita com o sermo de Gordon desta manh.

A fita chegou uma semana e meia depois, e Teri a guardou na estante, que estava
juntando poeira h semanas. O ano escolar teve um incio, o que deixou Teri muito
ocupada. O diretor do Colgio Glenbrooke, Sr. McGregor, retornou aps ter sofrido um
derrame no ano anterior, o que o deixou afastado das atividades escolares durante o ano
inteiro. A diretora interina, Charlotte Mendelson, fugiu com o treinador do time de
futebol na ltima semana de aula. Para uma cidade pequena, foi um escndalo e tanto.
Muitos pais estavam desconfiados do tipo de escola que teriam para seus filhos no
outono. Mas com o retorno de Hugo McGregor, toda a comunidade pareceu respirar
aliviada e o envolvimento dos pais aumentou.

Nesse ano Teri tinha trs turmas de Espanhol Bsico, composta em sua maioria por
calouros10. Ela tinha duas turmas de Espanhol Intermedirio, que misturavam alunos de
vrios perodos, e a sua favorita, Espanhol Avanado, formada por catorze brilhantes
veteranos, era a ltima aula do dia.




10
  Nos EUA no existem turmas fixas. Existem alunos do primeiro ano  calouros, do segundo e do
terceiro ano  veteranos. Numa mesma turma pode haver alunos dos trs anos, assim como na
faculdade a gente tem colegas de vrios anos em algumas disciplinas. S que l geralmente no 
por repetncia ou por estar com a disciplina pendente. O sistema  mais flexvel. E as aulas so as
mesmas todos os dias. Por isso a Teri tem essas seis turmas todos os dias, nessa ordem.
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Como nos ltimos trs anos, Teri estava ajudando com o grupo de adolescentes da igreja.
Muitos dos seus alunos estavam entre eles, o que dava a ela um canal de comunicao
mais direto.

Kyle era o diretor voluntrio dos jovens, e Jessica estava envolvida juntamente com ele.
Ela dava aulas de ingls no colgio, e a sala dela ficava ao lado de Teri11.

Tudo parecia normal, estvel, comprometido, certo. Nenhum homem interessante havia
se mudado para Glenbrooke. Nenhum dos solteiros de Glenbrooke se interessara por
Teri. A mesma situao de sempre. Agora que estava confortvel em sua rotina, Teri se
sentia quase contente e completa em si mesma.

Somente quando sua vida estava de volta aos eixos que ela percebeu como este vero foi
maluco. Ela nunca mais se permitiria a transformar sua personalidade dessa forma em
busca de um esposo. Se Deus quisesse que ela se casasse, ela decidiu que ele deveria faz-
lo, como Jessica a lembrara, de um modo incrvel.

Na segunda semana de dezembro, Teri finalmente caiu em um forte resfriado que a
estava perseguindo desde o Dia de Ao de Graas12. Ela ficou de cama na tera-feira,
durante todo o dia. Na manh seguinte, ela acordou sem voz. Foi complicado ligar pra
avisar que estava doente. Ela sussurrou a mensagem na secretria eletrnica s 7:30,
desejando que a secretria conseguisse decodific-la. A laringite durou trs longos e
tediosos dias.

Na sexta-feira ela pegou a fita do sermo de Gordon, colocou-a no walkman, e comeou
sua terapia de fazer toneladas de tamales. Era a primeira vez que ela fazia isso desde
Maui, o que a fez se sentir melanclica.

Ento ela ligou o walkman e a voz suave de Gordon com seu charmoso sotaque encheu
seus ouvidos e percorreu seu interior. Ela nunca tinha ouvido ningum pregar com tanta
clareza e compaixo. Era como se ele estivesse falando a uma pessoa, partilhando seu
corao abertamente, sem vergonha. No centro do seu corao, estava o seu seguro amor
por Deus.

A abordagem era diferente da de seu pai. O pai de Teri pregava falando alto, com
palavras poderosas e gestos amplos.

Ela gostou tanto da mensagem de Gordon que a ouviu duas vezes e depois rebobinou o
finalzinho para ouvir as ltimas frases da sua bno novamente.

- At, disse Gordon  At aquele dia. E que vivamos hoje, como se amanh fosse aquele
dia.

Ela j tinha o ouvido dizer esse "At", mas nunca imaginou o que significava. Agora ela
pensava que a referncia a `aquele dia' deveria ser o dia em que o cristo morre e vai se
encontrar com o Senhor. Ou talvez o dia do retorno de Jesus. De qualquer forma, o

11
   Como no existem turmas fixas, os professores tm suas salas e os alunos trocam de sala nos
intervalos entre uma aula e outra.
12
   Feriado nacional nos Estados Unidos celebrado na quinta-feira da quarta semana de novembro.
No incio, era a celebrao de gratido a Deus pela colheita.
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                                Sussurros  Robin Jones Gunn

pensamento era intrigante: viver todo dia como se amanh fossemos nos encontrar face a
face com Jesus.



s seis da noite as tamales estavam prontas, e a cozinha, um desastre. A campainha
tocou. L estava Kyle, com uma caixa de pizza nas mos. Jessica estava atrs dele, com
uma sacola de supermercado.

- Voc sabia, disse Kyle com a voz grave  que a melhor cura para laringite  uma gigante
de calabresa?

Teri sorriu para seus amigos e os deixou entrar.

- Pelo cheiro parece que voc j est fazendo o jantar, disse Kyle, farejando o ar como o
urso Smokey.  E, se no se importa, o cheiro parece melhor do que o que ns trouxemos
pra voc.

Teri tirou da geladeira um grande saco plstico cheio de tamales e o entregou a Kyle com
um enorme sorriso.

- Ah, no, Teri. Eu estava s brincando. No quero pegar suas tamales.

Ela abriu a geladeira e o freezer ao mesmo tempo, mostrando seu enorme suprimento de
tamales.

- Voc fez isso tudo? Jessica perguntou, espantada. Ela no era do tipo que cozinhava,
cresceu cercada de empregados e cozinheiros.

Teri fez que sim e gesticulou para que Kyle pegasse as tamales e as esquentasse no forno
eltrico.

- Bem, se voc insiste, disse Kyle.  Talvez s uma. Ou duas.

- Ou o pacote inteiro, Jessica brincou. Virando-se para Teri, ela disse  Acabou de fazer
do meu marido um homem feliz. A nica coisa que eu sei fazer na cozinha  lasanha
congelada no microondas.

- Ah, J, no  assim. Teve aquela vez que voc fez aquele bolo de carne, muito bom.

- Detesto te decepcionar, querido. Aquele era congelado, tambm.

- Cara, que cheiro bom! Disse Kyle, entusiasmado com as tamales  Voc devia vender
isso, Teri. Faria uma fortuna!

Teri virou os olhos enquanto Jessica falou por ela.

- No se lembra, Kyle? Isso  o que ela iria fazer em Maui. O cara que ela estava
namorando e o cunhado dela estavam arrumando os negcios l para ela.

- Ah, , disse Kyle.

- Ele no lembra, disse Jessica para Teri, disfaradamente.

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Teri fez com a mo que ela no se importava. Ela pegou alguns pratos do armrio. Ela
tinha trinta e trs pratos no armrio, todos de porcelana chinesa, vindos de bazares de
garagem. Apenas dois deles eram iguais, esse era o esquema de decorao dela. A maior
parte da casa era em tons de marfim. As paredes, os balces, o cho, tudo off-white. At
o sof era um bege areia. Mas os acessrios eram de um vivo patchwork de cores. Ela
tinha feito coberturas para as cadeiras da cozinha, cada uma de uma estampa diferente.
O sof era cheio de almofadas de estampas e cores diferentes. Por toda a casa estavam
pequenos toques decorativos em cores vivas.

Algumas pessoas se incomodavam com isso, dizendo que no seguia um padro. Teri no
se importava. Aquilo era ela.

Sua vida combinava com a casa em todas as maneiras: o padro bsico estava l, mas os
detalhes eram menos previsveis.

Ela pegou alguns copos e estava quase enchendo-os com gua quando Jessica abriu a
sacola.

- Eu trouxe ch gelado, ela disse.  Ah, e  claro, ela alcanou no fundo da sacola uma
caixa de DoveBars  o ingrediente essencial para um jantar de sucesso. Como est o
nosso jantar? Jessica abriu o forno.  Ih, gente, ta comeando a derreter. Acho que 
melhor comer a sobremesa primeiro. Aqui, Teri. Jessica entregou a Teri uma barra de
sorvete e outra a Kyle.  Sade! Todos eles riram e "brindaram" as DoveBars.

Teri mordeu sua barra e pensou como ela era abenoada por ter amigos como Kyle e
Jessica. Ela teria perdido os dois se tivesse se mudado para Maui.

Nesse momento, o telefone tocou. Teri se levantou para atender. Seu "al" saiu esquisito.

- Teri est?

- Aqui  Teri.

Sua voz saiu to grave e rouca que a pessoa perguntou de novo.

- Teri Moreno est?

- Sou eu, ela disse  Estou com dor de garganta.

- Puxa, Teri, parece que voc est mal. Aqui  a Lauren. Espero no estar te
incomodando.

Teri no tinha notcias de sua colega de quarto na faculdade h meses. Elas mantiveram
contato em telefonemas ocasionais e mandando cartes de natal e aniversrio. Teri
gesticulou para Kyle e Jessica pedindo licena e foi com o telefone para a sala.

- Como voc est? Teri disse, rouca.

- Bom, na verdade, disse Lauren lentamente  Estou indo muito bem.

- Que bom!


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- Recebi seu carto de natal, continuou Lauren  da lembrei que a gente no se falava h
um tempo, ento voc no sabe o que est acontecendo na minha vida. Eu ia escrever,
mas achei mais fcil telefonar.

- Deixa adivinhar, Teri sussurrou  Vocs mudaram a data do casamento.

Lauren e Jeff noivaram na Pscoa. Eles estavam namorando h quase um ano, quando
Lauren voltou  sua cidade natal no Tennessee. Ela se formou dois anos depois de Teri, e
passou um ano tentando encontrar emprego na Califrnia. Finalmente, Lauren desistiu e
voltou pra casa. Foi quando ela conheceu Jeff. Ele foi a melhor coisa que aconteceu a ela
em anos.

Lauren fez uma pausa antes de dizer:

- Na verdade, ns terminamos. Eu sei que devia ter dito antes, mas eu no me toquei que
voc no sabia at receber seu carto de natal.

- Ai, Lauren! Sinto muito! Teri finalmente disse.

- Eu tambm, sussurrou Lauren, dolorosamente.




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CAPTULO VINTE E SETE

Quando Teri terminou de conversar com Lauren, estava exausta. Sua garganta estava
doendo por t-la forado.

- Desculpa, Teri sussurrou para Jessica e Kyle enquanto entrava de volta na cozinha. Eles
estavam em p perto da pia. J haviam terminado de jantar, e os pratos sujos estavam
sobre o balco. E eles estavam envolvidos em um meigo abrao, com os olhos fechados.
Nem perceberam que Teri tinha entrado. Era uma bela viso depois do que ela tinha
ouvido no telefone.

Teri abriu a garrafa de ch no balco, e Jessica se assustou e pulou pra trs, corando. Kyle
sorriu como se no tivesse nada do que se envergonhar e continuou com o brao sobre os
ombros de Jessica.

- Desculpa, era minha colega de quarto da faculdade. Teri explicou com dificuldade.  Ela
ligou pra dizer que terminou o noivado.

- Ela vai ficar bem? Perguntou Jessica.

- Parece que sim. Lauren  uma mulher forte.

- Onde ela mora? Perguntou Kyle.

- No Tennessee.

- Voc quer ir l ficar com ela? Jessica perguntou.  Eu sei que  meio longe, mas...

- No seria melhor pra ela sair de l? Kyle perguntou.  Ela pode vir pra c. H muitos
quartos l em casa. Quando a gente se mudar semana que vem, ela pode ficar o tempo
que precisar.

Teri encolheu os ombros, tentando expressar sem palavras o seu apreo.

- Eu no sei o que ela vai fazer. Parece que ela ainda no sabe qual  o prximo passo. Ela
trabalha num banco, mas isso no  o que ela quer fazer. Ela era uma artista na
faculdade.

- Ns estamos falando srio, disse Kyle.  Qualquer forma que pudermos ajudar,  s
dizer.

- Obrigada por trazer a pizza, disse Teri.

- Ah,  toda sua. Ns atacamos as tamales. Falando srio, Teri, so as melhores que eu j
comi na vida. Obrigado.

- Vai comer essa pizza? Perguntou Jessica.

Ela balanou a cabea.

- Vou colocar na geladeira, ento. Disse Jessica.  Ser um excelente lanche da meia-
noite.

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- A gente tem que ir, disse Kyle.  Quer que te traga alguma coisa amanh? Um ch ou
alguma coisa pra garganta?

Teri balanou a cabea. Mesmo parecendo estar bem mal, ela no se sentia to doente,
apenas chocada com o telefonema de Lauren. Ela pegou outro pacote de tamales e
entregou a Kyle.

- Ah, no. No posso aceitar.

Teri empurrou as tamales para ele.

- Se voc insiste...

- Avise se pudermos ajudar voc ou Lauren, tudo bem? Jessica perguntou, pegando a
bolsa no balco.

Teri se encantava com o modo como Jessica era desprendida. Ningum imaginaria
olhando para essa mulher que ela era dona de muitos milhes. Ela nunca demonstrava
isso, mas era a pessoa mais generosa que Teri j conheceu. Kyle era da mesma forma.
Nenhum dos dois eram espalhafatosos com o que davam. Eles ajudavam em silncio, de
forma prtica, como quando a pegaram no aeroporto quando ela voltou de Maui,
trazendo o jantar e oferecendo um lugar para Lauren ficar. Teri os acompanhou at a
porta e acenou enquanto eles chegavam abraados  caminhonete.

Que contraste! Teri pensou. Duas pessoas completamente apaixonadas e outras duas do
outro lado do pas que acabaram de terminar um noivado. Ser que eu teria terminado
como Lauren se tivesse ficado com Scott?

A noite foi sem descanso para Teri. Ela acordou por volta das duas da manh, suando e
com o corao acelerado. Seu primeiro pensamento foi de que algum tinha morrido.
Depois ela lembrou que no foi uma morte, mas o telefonema de Lauren que deixou suas
emoes na beira desse precipcio. Teri foi  cozinha tomar um copo de gua e deu de
cara com a montanha de pratos sujos na pia. Ela foi para a sala e se encolheu no sof com
suas almofadas.

De certa forma, era quase uma notcia de morte. Certamente sua amiga tinha recebido
um forte golpe em seu corao. Como um homem podia quebrar uma promessa como
essa?

Durante quase uma hora, Teri lutou uma guerra invisvel, tentando imaginar o que deu
errado entre Lauren e Jeff. Ele certamente a derrubara com uma rasteira s. Na
primavera anterior, ela ligou vrias vezes para contar detalhes dos planos de casamento.
Ela tinha mandado recortes da revista Noivas, para que Teri visse o vestido de noiva e o
vestido das bridesmaids. O casamento estava marcado para abril, no aniversrio de um
ano de noivado deles. Eles pareciam ter feito tudo certo, mesmo assim, acabou dessa
maneira.

Lauren no deu muitos detalhes por telefone. Ela parecia estar lidando bem com essa
situao. Ainda assim, seu corao devia estar muito machucado.


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Teri voltou para a cama. No nebuloso tnel de sua mente, entre dormir e acordar, ela
orou por sua amiga. E imaginou se o que aconteceu a Lauren aconteceria a ela algum dia.
Ela no conseguia se imaginar em situao semelhante: estando certa de que fez a
escolha certa e ainda, no meio dos planos de casamento, terminar, vendo todos os seus
sonhos desmoronando.

Quando ela acordou na manh seguinte, Teri se sentiu mais que um pouco balanada.
Nenhum relacionamento tinha garantias. Ela estava melhor por ter terminado seu
relacionamento com Scott  com qualquer outro homem, alis. Teri sentia que o nico
lugar seguro era ficar sozinha, solteira pelo resto da vida. Era a nica resposta confivel, a
nica garantia de que no seria machucada mais tarde.

Com a devastao do noivado de Lauren, veio a runa do sonho de Teri, o sonho de casar
e ter filhos. Ela no poderia, nem deixaria que seu corao fosse esmagado dessa
maneira.

Ela no disse nem demonstrou nada disso a ningum. Mas dentro do seu corao, em
placas de pedra, estavam as palavras: Nunca se apaixonar. Nunca se casar. Nunca ter
filhos.




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CAPTULO VINTE E OITO

A voz de Teri retornou bem a tempo para dar aulas na ltima semana antes do recesso de
Natal. Ela ajudou Jessica e Kyle com a mudana durante a noite e fez as compras de Natal
em um catlogo por telefone durante o horrio de almoo.

 Teri planejava ir para Escondido no Natal. Seu vo sairia no domingo  tarde, o que
significava que ela teria um dia e meio para arrumar tudo depois do ltimo dia de aula.
Ela foi para a casa nova de Jessica e Kyle no sbado de manh, com seu presente: vrios
pacotes de tamales. Kyle gostou demais. A casa nova deles era linda.

- Parece que vocs j esto bem arranjados aqui, disse Teri, olhando a sala de estar com
sua lareira decorativa de mrmore com sua estranha moldura em madeira. Os mveis e
as paredes no eram exagerados, mas eram definitivamente vitorianos, e combinavam
lindamente com o estilo da casa.

- Agora s precisamos de duas hortnsias na frente, e temos nosso lar. Disse Kyle.

Ele olhou para Jessica, e ela devolveu a expresso amorosa com uma ligeira intimidade.
Teri pensou que eles pareciam atrair um ao outro.

- Ah, disse Jessica, afastando devagar o olhar de Kyle, indo em direo  escrivaninha de
madeira.  Tenho uma coisinha pra voc, Teri, ela estendeu a ela um envelope  Eu sei
que no ta bonitinho,  que no de tempo de embrulhar. Vai, abre logo.

Teri abriu o envelope e pegou algo que se parecia com uma passagem de avio.

- Que isso?

- Pode usar quando quiser, pra onde quiser. S tem que ligar pra esse telefone a e dizer
pra onde e quando voc quer ir. Pensei que voc ia gostar pra usar quando o beb de
Anita chegar. Ou pra visitar sua amiga no Tennessee. Eu sei que  um presente meio
estranho, mas eu quis te dar algo til.

- Mostrar texto das mensagens anteriores -

Teri a abraou.

- Ai, que amor! Obrigada, J!

- De nada. E obrigada por nos alimentar com suas tamales na prxima semana!

- Acha mesmo que vo durar tudo isso? Perguntou Kyle.

Jessica sorriu e disse:

- Ta, acho que at as prximas duas horas.

- Quando voc vai? Perguntou Kyle.

- Amanh  tarde.


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- Quer uma carona at o aeroporto?

- No, resolvi ir dirigindo e deixar o carro l. Vou ficar s cinco dias fora. Teri colocou o
envelope na bolsa e abraou seus amigos.  Um Natal maravilhoso pra vocs! Tenho que
ir. Tenho mais oito pacotes de tamales para entregar, e ainda no fiz as malas.

- No esquea de agradecer sua me por te ensinar a arte de fazer tamales, gritou Kyle
enquanto ela saa  Diga que ns apreciamos isto, mais do que ela imagina.

Teri se lembrou disso alguns dias mais tarde, quando ela estava sentada  mesa de jantar
com sua famlia, comendo as enchiladas de sua me. A me de Teri passou os crditos 
me dela, que estava sentada ao seu lado.

Vov Maria se inclinou e pegou a mo de Teri. Ela disse:

- Voc aprendeu o que precisa para fazer seu esposo feliz  cozinhar bem.

- Agora ela s precisa de um esposo, um de seus irmos disse.

Eu no preciso de um marido!

Teri no podia dizer o que estava sentindo, decidiu que seria melhor agentar os
comentrios que certamente viriam por ela ser a mais velha solteira entre suas irms e
primas.

Isso machucava. Ela tentava ignorar, mas no decorrer do feriado, ela percebeu que era
uma solitria em sua famlia. No Natal, dezessete pessoas estavam aglomeradas na sala
de estar dos seus pais. Ela notou que todos tinham algum  todos menos ela. At sua
irm de catorze anos, a caula da famlia, ganhou um colar de corao no dia anterior de
um menino da escola que gostava dela.

Teri tentava se convencer de que podia ser solteira e ainda assim importante nesta
famlia. Sua Tia Yolanda era. Ela entrou no mundo dos negcios e agora era uma
executiva. Mas Teri no tinha essa ambio.

Uma de suas primas entregou a Teri seu beb de quatro meses para ajudar seu filho de
dois anos a abrir seus presentes. Teri assistiu a alegria da grande famlia e a farra dos
presentes, acompanhados de gritinhos felizes. Ela embalou o pequeno, e ele dormiu em
seus braos.

Ela sentiu uma profunda tristeza, mas guardou para si. Na maior parte, Teri se juntou 
sua famlia e  diverso natalina. Era uma poca sagrada para a famlia, e ela estava feliz
por estar com eles. Se ao menos ela no se sentisse s, e destinada a ficar sozinha para
sempre.

Na manh depois do Natal, o telefone tocou s 05:00 da manh, acordando Teri, que
dormia no sof. Sua me atendeu o telefone no quarto, e minutos depois desceu
correndo para o corredor.

Teri encontrou a me na cozinha.


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- Quem era?

Sua me parecia confusa e um pouco fragilizada.

- Era Dani. Eles esto no hospital. O beb vai nascer!

- Tem certeza, me?  s pra daqui dois meses.

- Ai, Teri, sua me disse, segurando suas mos  precisamos orar.

Enquanto as duas mulheres comeavam a orar, o pai de Teri juntou-se a elas em orao.
Antes que terminassem, quatro outros membros da famlia, inclusive V Maria, juntaram
suas oraes.

Quando foi dito o ltimo amm, a me de Teri foi fazer caf.

- Mame, disse Teri, indo atrs dela e lhe abraando  por que no vai ficar com Aninha?
Eu tenho uma passagem que voc pode usar. Pode ser usada a qualquer hora.

- No, eu no posso usar sua passagem.

O pai de Teri ouviu, e entrou na discusso, concordando que ela deveria ir, mas que eles
deveriam comprar uma passagem. Ento V Maria achou que deveria ir tambm.
Quando a discusso terminou, estava certo que Teri, Mame e Vov viajariam para o
Hava o quanto antes.

Teri foi at o telefone do quarto e ligou para a companhia area. Ela marcou para que as
trs pudessem ir naquela manh. Dez horas depois, as trs Moreno estavam em solo
havaiano.

- Voc disse ao Dan qual era o nosso vo, no disse? Mame perguntou, com linhas de
preocupao em seu rosto.

- Claro que sim, respondeu Teri.  Ele disse que no sairia do hospital, ento mandou um
amigo pra pegar a gente.

Elas ficaram juntas esperando a bagagem, todas ainda em choque pela rapidez com que
as coisas aconteciam. Ningum se aproximou delas dizendo que era amigo de Dani e que
estava ali para busc-las.

Assim que pegaram suas malas, Teri disse:

- Olha, vocs duas ficam aqui, eu vou dar uns telefonemas. Devia ter dito a ele que
alugaramos um carro. Ainda d tempo de fazer isso.

Teri se surpreendeu como o aeroporto estava mais cheio que no ltimo vero. Parece que
Maui era o destino favorito das frias de Natal. Ela no podia culpar a nenhuma dessas
pessoas por querer estar ali.

No minuto em que ela saiu do avio e a brisa da ilha a cumprimentou, ela se lembrou de
como amava aquele lugar e como ela queria se mudar para l antes mesmo da idia das
tamales e antes mesmo de conhecer Scott. Mais uma vez o desejo despertou dentro dela,

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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

e ela desejou ter se mudado para l, e no apenas visitar, especialmente nessas
circunstncias periclitantes.

Ela se dirigiu aos telefones, mas parou ao ver um rosto familiar. Fios de cabelos
castanhos rebeldes caam em sua face, e linhas de expresso saam do canto de seus
olhos risonhos. O australiano acenou para Teri e correu at ela.

Cuidado com a lixeira, Gordon!

Ele driblou a lixeira, passando raspando.

-  uma menina! Ele gritou, sem flego.  S um quilo e meio, mas est viva!

Teri sentiu vontade de abra-lo, mas com a pancada de adrenalina que suas palavras
trouxeram, ela se virou e correu para sua me e av, gritando assim que as viu. Gordon a
seguia.

- Como sabe? Vov perguntou, confusa.

Teri apresentou Gordon e deixou que ele relatasse a elas todas a histria. O beb havia
nascido h pouco mais de uma hora, e Aninha estava bem. Eles no saberiam muito mais
at que os mdicos terminassem os exames.

Gordon pegou a bagagem da senhora mais velha e mostrou a elas onde o carro estava
estacionado. Eles foram direto para o hospital.

Apenas duas pessoas de cada vez poderiam ver Anita, a enfermeira insistiu. Mame e
vov entraram no momento em que Dan saiu para dar um tempo e encontrar algo para
comer. Teri encontrou um sof num canto do corredor, e jogou-se nele.

Teri no percebeu que Gordon estava sentado ao seu lado antes que sua mente inquieta
comeasse a diminuir o ritmo. Ele deveria estar ali h cinco minutos, silenciosamente
folheando uma revista, sem falar, sem fazer nada, s estava ali com ela.

- Obrigada por nos pegar no aeroporto, Gordon.

Teri sorriu para ele. Ele devolveu o sorriso, e Teri sentiu como se algo dentro dela
voltasse a viver, como... Ela lembrou que no tinha visto Gordon nem falado com ele
desde aquela noite no Kimo's. Mas ela se sentia confortvel ali com ele. Parecia natural
para ele estar envolvido nessa crise familiar. Talvez fosse sua posio pastoral.

- Teri, Gordon comeou a dizer algo, mas parou. Ele a olhava intensamente, como se seus
srios olhos azuis investigassem atravs das janelas de sua alma.

O que est vendo? ela pensou, Como pode se conectar a mim desse jeito,
instantaneamente, sem ser convidado? Teri percebeu que no tinha nada a esconder
deste homem. Eles estavam unidos de algum modo. Talvez fosse por essa emergncia, ou
um resultado das longas conversas na cratera, ela no sabia ao certo. Mas nesse
momento, Teri sentia como se seu verdadeiro eu estivesse intimamente conectado a ele,
e ela no tinha feito nada para iniciar essa conexo.


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- Teri, ele disse novamente, inclinando seu ouvido bom para ela  Eu...

Antes que Gordon encontrasse suas palavras, a av de Teri entrou na sala e disse:

- Teresa,  sua vez.

Levou um tempo para Teri conseguir se desvencilhar daquele contato visual com
Gordon.

- Tudo bem, disse ela devagar, olhando para sua av.  Como ela est?

V Maria no respondeu. Ela olhava para Teri com uma expresso de deliciosa surpresa,
e ento olhou para Gordon como se o notasse pela primeira vez. Vov exclamou alguma
coisa em espanhol. Quando Teri se levantou, Vov sentou-se ao lado de Gordon, pegou
sua mo e disse:

- Ento, agora, me conte tudo sobre sua vida.




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CAPTULO VINTE E NOVE

- Oi, Teri disse, sentando-se gentilmente na beirada da cama de Aninha.  Estvamos
certas, hein?  uma menina.

Mame estava  cabeceira da cama, carinhosamente tirando os cabelos de Aninha de sua
testa.

- Ai, Teri, ela  to pequena, disse Anita.  To pequena. No sei como...

- Shh, interrompeu Mame.  No diga isso. Est nas mos de Deus. Shh.

Depois de alguns minutos de silncio desconcertante, Teri disse:

- Como se sente?

- Estou bem. Feliz porque vocs esto aqui. No precisavam fazer isso.

- Ah, precisvamos, sim. As Moreno se unem quando h algo importante. E voc  muito
Importante para ns, Aninha, disse Teri.

- Disse  Mame que h anos espero sua visita. Se tiver que passar por isso para que ela
venha, acho que no vou querer muitas visitas.

Teri sorriu. Anita no parecia bem. Talvez fosse a exausto do parto, ou a ansiedade para
saber o que aconteceria com seu beb.

- J deram um nome a ela?

Anita balanou a cabea.

- Ainda no estvamos prontos para a chegada do beb. No temos nem um bero, nem
nada. O plano era usar o dinheiro que ganhamos no Natal para comprar essas coisas.
Anita franziu a testa.  O Natal foi ontem ou anteontem?

- Foi ontem, disse Mame.  Precisa descansar, Aninha. Vai se sentir melhor depois disso.

- Quero esperar o mdico voltar. No vou conseguir dormir antes de saber alguma coisa.

- Por que voc no tenta descansar?, Teri sugeriu  Ns ficamos aqui. Prometo que te
acordo assim que o doutor passar por aquela porta.

Ento, como se as palavras de Teri fossem a deixa do mdico, a porta se abriu, e um
senhor de cabelos e jaleco brancos entrou no quarto.

- Bem, disse ele, parecendo surpreso ao ver Teri e sua me.  J tem visitas? Ele as
cumprimentou com um aperto de mo.  Dr. Vaughan, apresentou-se rapidamente.

- Estas so minha me e irm, A voz de Anita pareceu mais alta que o normal 
Acabaram de chegar do continente.




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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Vieram da Costa Oeste, certo? Ele disse, olhando para elas por cima dos culos. Ele
parecia simptico e amigvel. Teri no saberia dizer se ele viera trazer boas ou ms
notcias para Anita.

- Sul da Califrnia, Mame respondeu.  Quer que chame o Dani?

- No, acabei de falar com ele no corredor. Disse que chega aqui em um minuto.

Teri saiu para que Dr. Vaughan ficasse ao lado de Anita.

- Elas no precisam sair, precisam? Anita perguntou.

-  voc quem sabe, disse ele.

- Quero que fiquem, Anita segurou a mo de sua me, esperando as notcias de seu beb.

- Bem, ento vamos l, Dr. Vaughan ocupou o espao de Teri na beira da cama e abriu
sua prancheta Deixe-me passar tudo a voc  Primeiro, sua filha est pesando um quilo
e oitocentos gramas.

Teri viu Aninha apertar a mo de Mame.

- O corao dela  forte, seus pulmes ainda no esto completamente formados. Mas
no encontramos nenhum problema neles. Ela ainda no consegue respirar sozinha,
ento vai precisar de oxignio por algum tempo.

- Quanto tempo? Anita perguntou.

- Difcil dizer, por enquanto. Vamos saber melhor em uma semana, aproximadamente.
Nossa meta agora  manter o peso estvel e proteg-la de infeces. Ela est na
incubadora, mas  claro que voc e Dan podem v-la quando quiserem. Esqueci alguma
coisa? Ele olhou a prancheta.

- As chances dela so boas? Anita queria saber.  Quer dizer, ela vai sobreviver?

- Bem, claro que nesse ponto no podemos garantir nada, Dr. Vaughan disse
calmamente.  Mas eu diria que ela tem fortes chances. H seis meses tivemos um beb
com apenas um quilo e cinqenta gramas e um buraco no corao. Ns o encaminhamos
para Honolulu e ele voltou pra casa em trs ou quatro semanas. Eu o vi ontem. Forte e
saudvel. Sua garotinha tem quase dois quilos. Isso  bastante para a medicina atual.

Anita pareceu confortada. Teri sentia por ela. Ao menos seu beb estava vivo. Ao menos
ela no tinha maiores complicaes. Isso era o bastante para agradecer.

- Podemos v-la? A me de Teri perguntou.

- Pela janela do berrio. Ns estamos tentando mant-la o mais longe de contato com
germes quanto  possvel. O mdico levantou e sorriu para Anita.  Ela  linda, viu? Acho
que se parece com voc.

Teri viu lgrimas se formando nos olhos de sua irm.


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- Agora, quero que voc fique aqui por mais uns dois dias, Anita. Quero sua presso
estabilizada antes de te mandar pra casa.

- Eu prefiro ficar perto do meu beb, disse Aninha.

Teri saiu para o corredor e encontrou Dani na sala de espera com Gordon e Vov,
terminando um sanduche.

- O mdico est l? Dan perguntou, engolindo uma mordida.

- Sim, ele j nos informou. Acho que voc e Anita podem v-la quando quiserem. Aninha
parece to cansada. No sei se ajuda o fato de a gente estar aqui.

- Ajuda, sim, disse Dan, jogando o guardanapo do sanduche na lixeira e bebendo um
gole de seu refrigerante  Ns dois estamos contentes porque vocs vieram.

Eles discutiram o prximo passo e decidiram que o melhor seria que Teri, Mame e Vov
sassem com Gordon para a casa de Dan e Anita. O hospital ficava a quase uma hora de
carro da casa deles, e estava quase escurecendo. Elas no podiam fazer mais nada no
hospital, e uma boa noite de sono as prepararia para os prximos dias de viglias no
hospital.

A viagem pareceu ser mais difcil para Vov Maria. Foi rpido demais para ela. Ela ficou
confusa nos primeiros dois dias, mas ento seu corpo pareceu entrar no ritmo e ela
seguiu em frente. As mulheres se revezaram no hospital, passando horas e horas ao lado
de Dan e Anita.

Mesmo olhando vrias vezes pela janela de vidro para a pequenininha na caixa
transparente, no dava pra ver claramente.

Gordon veio com elas todos os dias. Algumas vezes ele as levava de carro at o hospital e
as deixava l durante o dia. Ele tambm sempre ligava para peg-las de novo e lev-las
para casa  noite. Parecia que ele dava mais caronas a Vov Maria que s outras. Teri e
Mame preferiam ficar mais tempo e voltar pra casa com Dan. Eles todos seguiam um
padro, as emoes subindo e descendo conforme as notcias de progresso ou regresso.

Nos primeiros dois dias o beb perdeu cento e cinqenta gramas, o que parecia muito
quando ela tinha to pouco para comear. Anita podia cuidar do beb, o que era bom, e
quando o leite veio, a pequenininha ganhou trinta gramas em um s dia. Ela ganhou
mais sessenta gramas no dia seguinte, mas no quinto dia ela teve febre e seu peso voltou
perto do que tinha ao nascer.

Anita voltou pra casa no terceiro dia  tarde, mas s para dormir algumas horas  noite.
Dan precisava voltar ao trabalho. Mesmo tendo trocado algumas horas com os outros
rapazes, tinha que trabalhar ao menos vinte horas por semana.

Uma semana se passou, cheia de altos e baixos. Todas elas dormiam em casa, ao menos
da meia-noite s seis todos os dias. Ento elas acordavam e iam para o hospital, onde
Teri, Mame e Vov passavam o dia em frente ao berrio e na sala de espera.



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Parecia que no havia nada que pudessem fazer. O beb parecia ficar mais estvel, mas
quem teria certeza disso? Anita estava com as emoes em frangalhos, o que levou Teri a
decidir ficar um pouco mais. Sua me e av tinham comprado passagens de volta para 3
de janeiro, e elas tinham que voltar pra casa.

A deciso foi difcil, especialmente para Teri, que j tinha usado quase todos os seus dias
de licena mdica. Ela teria que tirar uma licena permanente.

Ela conversou com Jessica sobre isso uma noite no telefone da sala de espera. Jessica a
encorajou, dizendo que ela fazia a coisa certa.

- Se voc voltar agora, disse Jessica  Seu corao vai estar to preso ao que est
acontecendo a, que voc no ser a melhor na sala de aula. Alm do mais, de certo
modo, ser uma beno para Marita. Ela precisa das horas.

Marita foi a substituta que chamaram em dezembro quando Teri estava com laringite.
Marita morava em uma cidade a trinta quilmetros de Glenbrooke e frequentemente
substitua no Colgio Glenbrooke. Sua especialidade era o espanhol, mas como Teri era a
nica professora de espanhol num raio de oitenta quilmetros, Marita no tinha muitas
chances de fazer aquilo que mais amava.

- Acho que voc est certa, disse Teri.  Ao menos sinto que deixo minhas turmas em
boas mos.

- Voc precisa ficar, disse Jessica  Ns vamos continuar pegando sua correspondncia. J
tenho uma caixa cheia delas. Quer que eu mande pra voc? No tem nada exigindo que
voc volte com urgncia. Fica tranquila a, ta bom?

- Certo, Teri concordou.  Voc tem o telefone do Sr. McGregor?

- No acha melhor que eu d esses telefonemas? Jessica sugeriu.  Ser mais fcil daqui.
Te ligo daqui alguns dias para dar notcias, ta?

- Obrigada, J. J te falei que voc  uma em um milho? No minuto em que Teri disse,
desejou engolir as palavras. Jessica detestava qualquer referncia ao seu dinheiro. Teri
no quis dizer nesse sentido, e esperava que Jessica no a entendesse mal. Antes que
Jessica pudesse responder, Teri disse: - Meu vizinho tem a chave da minha casa. Por que
voc no fala a Kyle pra pegar a chave e dar uma utilidade para aquelas tamales na minha
geladeira? As que esto no freezer, tudo bem; mas as da geladeira precisam ser comidas.
Talvez ele possa dividir com os meninos do corpo de bombeiros.

- Que bela idia, disse Jessica  Por falar nisso, tem visto Scott?

- No. Nem perguntei por ele. Isso aqui est uma loucura.

- Espero que no tenha se importado com a pergunta.

- No, claro que no. Engraado... Eu acho que s pensei nele umas duas ou trs vezes
desde que voltei. E sem nenhum sentimento.  normal?

- Voc pergunta pra mim? Vai ver que  um sinal de que est tudo acertado entre vocs.

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                                  Sussurros  Robin Jones Gunn

- Tomara, disse Teri. Gordon entrou na sala de espera e deu aquela piscada familiar para
Teri.  Preciso ir, J. Gordon est aqui.

- Gordon? Jessica repetiu.  Aquele que te pediu em casamento no restaurante?

Teri sentiu-se corar. Ela no se lembrava de ter contado isso para Jessica.

- Sim, ela disse em tom neutro.

- Ele tem estado perto de voc frequentemente?

- Sim, disse Teri novamente. No queria que Gordon soubesse que falavam dele.

- J o v com outros olhos?

Teri no respondeu. Do que Jessica estava falando? Ser que estava provocando Teri por
causa do incidente do restaurante?

- Nos falamos em alguns dias, disse Teri.  Obrigada por dar aqueles telefonemas por
mim.

- Sem problema. Te ligo depois, e voc me conta os detalhes. Tchau. Jessica desligou
primeiro.

- Encontrei Dan. Ele disse que finalmente deram nome  menina. Ta sabendo?

- Sim,  Grace Malia. Minha av gostou que pusessem em seu nome do meio a verso
havaiana do nome de Maria, disse Teri.  Ela j disse?

- Sim, disse Gordon sorrindo.  Tambm disse que voc tem os mesmos nomes do meio
que ela: Angelina Raquel. Seu sorriso aumentou, e ele repetiu o nome completo de Teri,
como se fosse um poema que decorara  Teresa Angelina Raquel Moreno. Agora estava
na lista para ele.




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CAPTULO TRINTA

- Enorme, n? Disse Teri, seca  Qual  o seu nome do meio?

- Thomas. Gordon Thomas Allister. Soa bem, no acha?

- , fica legal, disse Teri. Pareceu curioso pra ela que o seu nome no a incomodasse mais
como da primeira vez em que ouviu as pessoas o chamando de "Gordo". Ela sempre o
chamou de Gordon, parecia mais digno.

- Alm do seu nome do meio, sua av tambm me disse que vai embora com sua me
amanh. Voc vai com elas? Os olhos dele olhavam os dela.

Teri desviou o olhar. Ela no estava preparada para que ele olhasse sua alma como fez
anteriormente. Ela pegou a bolsa e a agenda de cima da mesa e disse:

- No, decidi ficar um pouco mais. Uma amiga minha est acertando uma licena maior
pra mim.

- Jessica? Gordon perguntou.

Teri olhou para ele.

- Sim, como sabe sobre Jessica?

- Voc a mencionou uma vez. Parece que  uma grande amiga.

- , ela , sim. Bem, acho que devemos avisar  Anita que j vamos. Acho que ela disse
que esperaria Dan chegar do trabalho.

Teri e Gordon desceram o corredor at o berrio. Mame e Vov estavam conversando
na frente da janela. Atravs do vidro, elas gesticularam para Anita que j estavam indo.
Anita estava vestindo uma roupa esterilizadas, luvas e touca, e conversava no canto com
uma das enfermeiras. Ela acenou e jogou um beijo.

Gordon ofereceu seu brao  Vov, como Teri sempre o via fazer, e ele seguiram at o
carro. Vov amava essa ateno. Parecia que ela amava Gordon tambm, porque estava
sempre falando dele:

- Ele  um homem to educado. To cheio de considerao. To dedicado aos outros.
Marque as minhas palavras: a mo de Deus est sobre aquele homem.

Teri ouviu ele perguntar  Vov se ela j sentira o cheiro das anglicas. Disse que tinha
algo no carro pra ela. Ela riu e balanou o brao como uma garotinha de escola. As
palavras dele lembraram Teri de quando Gordon comprou o lei para ela no restaurante.
Era um lei de anglicas. Ela amou a fragrncia das flores.

Quando Gordon abriu a porta do carro, aquele maravilhoso perfume doce invadiu suas
narinas novamente. Ele tinha trs leis de anglicas, um para cada uma delas. Ele passou o
primeiro sobre os cabelos brancos de Vov e beijou-a na bochecha. Vov o beijou de



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volta nas duas bochechas. Ento ele colocou outro lei em volta do pescoo de Mame e a
beijou no rosto.

Teri ficou esperando o dela, sentindo o corao bater. [i]Ele vai me beijar tambm?[/i]
Ela sabia que era o costume da ilha, mas por algum motivo saber que seria beijada no
rosto por Gordon Thomas Allister fazia borboletas voarem em seu estmago.

Ele colocou o lei sobre seus ombros e olhou para ela com uma intensidade que nunca
tinha usado antes. Quando ele olhou para ela, era como se no tivesse havido nenhuma
outra mulher no mundo, nem jamais fosse existir alguma outra. Ele soltou o lei e se
afastou sem beij-la.

Mas Teri se sentia beijada  e bem beijada. A intimidade que crescia entre eles era muito
mais poderosa do que qualquer coisa que ela experimentara com outro homem. Exceto
pela mo dele em seu ombro depois do "batismo" e do abrao na cratera, ele nunca a
tocava.

Teri sentou-se no banco de trs, ao lado de sua me e se aguentou silenciosamente
enquanto Gordon dirigia de volta a Lahaina. Ele e Vov conversavam, Mame ficava
dizendo como as flores cheiravam maravilhosamente bem.

-  uma pena que vocs no possam conhecer melhor a ilha, disse Teri.

- Teremos que voltar outra vez. Preciso convencer seu pai a vir, disse Mame  H anos
ele no tem frias de verdade. Assim que eu o trouxer para ver sua neta, acho que no vai
mais querer voltar.

- Maui faz isso com as pessoas, disse Teri.  Agora voc sabe porque eu quis me mudar
pra c.

Enquanto eles passavam pelas plantaes de acar em Lahaina, o sol se punha na tarde
comprida de inverno. Como madrinhas ocupadas  espera, nuvens brancas se reuniam
em vota do topo da montanha Moloka'i, preparando para vigiar o sol antes que ele
terminasse sua passagem pelo corredor celeste at o oceano.

- Estava pensando se me permitem que as leve para jantar esta noite, disse Gordon.

- Ah, que gentil, disse Vov  No precisa fazer isso por ns.

- Bem, na verdade, eu j fiz. Gordon fez a curva na estrada chegando a um
estacionamento ao longo da praia. Havia uma rea de piquenique com mesas, banheiro,
chuveiros e uma fileira de coqueiros. Ele estacionou o carro e veio para o lado do
passageiro, abriu a porta para Vov e a ajudou a sair. Depois ele abriu a porta para Teri e
sua me. Gordon abriu o porta-malas e tirou de l todas aquelas coisas de praia: uma
toalha, duas cadeiras de praia de armar, uma caixa trmica e um violo.

- Precisa de ajuda? Teri perguntou.

- Pode pegar essas duas sacolas de supermercado? Ser de grande ajuda.

Com as mos cheias, Gordon fez sinal com a cabea e disse:

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- Sigam-me, ladies. Seu luau ao pr-do-sol as espera.

Teri comeou a rir at cair na gargalhada. Pareceu um pouco com a gargalhada do
Gordon. Toda a semana foi to sria e tensa, que isso parecia loucura. Ela se sentia como
uma criana tirando um recesso no meio das provas finais.

Eles seguiram o caminho at a praia com cuidado redobrado. Talvez Gordon estivesse
indo devagar por causa de Vov. Ou talvez estivesse sendo cauteloso por causa da sua
tendncia a tropees, especialmente com as mos to cheias. Algumas pessoas estavam
desfrutando do pr-do-sol na praia, no tantas se comparar s praias em frente aos
hotis.

Teri nunca estivera nessa praia, era um belo esconderijo. Ela j passara de carro por ali
vrias vezes, mas nunca imaginou que havia uma areia to branca naquele lugar.

Gordon parou na areia e comeou a descarregar as coisas. Ele estendeu as toalhas e
armou uma cadeira para Mame e outra para o Vov. Elas estavam encantadas. O
homem no poderia fazer nada errado, at onde ia a preocupao delas. Teri colocou as
sacolas ao lado da caixa trmica e deu uma olhadinha dentro delas. Ela encontrou um
pacote de marshmallows, um pacote de inhame chips13, alguns pes de cachorro quente,
um saco de carvo, e um rolo de toalhas de papel. Esse seria um luau nico.

- Certo, ladies, ele disse  Tenho algumas bebidas havaianas aqui. Que tal mamo com
coco?

Vov Maria aceitou a garrafa com o suco gelado da caixa trmica e olhou para o pr-do-
sol  sua frente.

- Que bonita!, disse Vov  Que noite perfeita, perfeita!

- Eu apenas as trouxe ao mais requintando dos estabelecimentos. Agora se me permite,
tenho que por o camaro no churra14, como se diz. Ele pegou um pacote de salsichas da
caixa trmica e pegou a sacola com o carvo e os fsforos.  Fiquem  vontade para se
servir das bebidas aqui.

- V ajud-lo, disse Vov Maria, cutucando Teri.

- Ajudar em qu? Ele no precisa de mim.

Vov virou os olhos e deu um leve aperto na bochecha de Teri.

- Oh, Teresa,  claro que ele no precisa de voc. Mas ele quer voc l. Esse  o sonho de
toda mulher.

Teri balanou a cabea para sua av dramtica e pegou um suco de abacaxi com manga
na caixa trmica.

- Se no te conhecesse melhor, diria que est caidinha por ele, Teri brincou.

13
  uma iguaria havaiana.  como batata Ruffles, s que ao invs de batata,  inhame.
14
  uma expresso australiana: I have to put the shrimp on the Barbie. Barbie  apelido para
Barbara, e  o apelido qeu eles carinhosamente do para a barbecue, a churrasqueira.
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- Bom, pelo menos algum aqui admite isso!

Teri ficou entre a me e a av, sentando-se na toalha de costas para Gordon. Ela esperava
que ele no tivesse ouvido nada da conversa.

- Que lindo pr-do-sol.

- Por que voc no enxerga que Gordon  o homem pra voc, Teresa?

- Vov, por que fica dizendo isso? No daria certo. Ele  nove anos mais velho que eu.

- Seu av  sete anos mais velho que eu.

-  ridculo! Esse homem vem de uma cultura diferente,  diferente de mim, e tem um
passado selvagem. Ele no bate com minha lista de qualidades, Vov.

- Talvez voc precise de uma nova lista, como a que Deus escreveu.

Vov comeou a recitar I Corntios 13 em espanhol, na parte que diz que o amor 
paciente, benigno, no arde em cimes ou suspeita o mal. Olhando significativamente
para Teri, ela encerrou dizendo que o amor jamais acaba.

Teri olhou por sobre o ombro para Gordon, que estava a vrios metros assando as
salsichas15. Como poderia dizer  sua av que ela precisava de fogos de artifcios e que
no estava certa de que havia fogos de artifcio entre eles?

Teri tinha que admitir, mesmo que ele nunca a tenha tocado, ela sentia que ele o tocava
com os olhos, ainda que no o tocasse com as mos ou os lbios. A sensao daquelas
poucas vezes foi poderosa.

Ainda assim, era loucura. Ela e Gordon? Nunca.

- Ponha algum juzo na cabea dela, disse Vov, desistindo e passando o basto para a
me de Teri.

A expresso suave de Mame mostrava que ela estava do lado de Vov antes mesmo de
dizer qualquer palavra.

- Acredito que ele pode te fazer mais feliz do que voc pode imaginar. E acho que voc o
faria o homem mais feliz do mundo. Ele ama voc, Teri.  bvio, pelo jeito que ele te
olha e na forma como te trata. Ele no  um rapazote. Ele  um homem maduro, slido,
que vai fazer o seu corao cantar, se voc se abrir para ele.

- Vocs duas tiveram uma reunio com Gordon e arranjaram esses discursos? Teri estava
comeando a se sentir presa a uma armadilha, chateada por estarem todos chegando a
concluses sobre sua vida sem antes consultarem o que ela pensava sobre isso.

-  claro que no, disse Mame  Quando  que tivemos tempo pra isso? Essa  a
primeira vez que falamos desse assunto.

15
  O cachorro quente de l no  como o daqui, com molho, salsicha cozida e aqueles incrementos
todos.  po, salsicha assada/grelhada e aqueles molhos a gosto: catchup, mostarda...
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- Vocs duas precisam saber de um detalhe pequenininho, disse Teri, diminuindo o tom
de voz.  Eu no o amo. Esse no  um pr-requisito para o casamento?

Mame e Vov trocaram sorrisos e acenos.

- Que foi?

- Desde pequena, voc sempre foi a ltima a descobrir o que estava acontecendo, disse
Mame suavemente  Mesmo que voc ainda no saiba disso, acredite: Voc est
amando. Gordon  o homem4.

Agora Teri estava fervendo. Sentindo-se insultada pela concluso de sua me, ela se
levantou num pulo e desceu para a gua, murmurando pelo caminho.

- O que elas sabem? Por que acham que eu no estou enxergando direito? Mame
Intrometida e Vov Abelhuda. Quem foi que as chamou? Essa  a minha vida, no delas!

O que mais a incomodou foi quando sua me disse "Gordon  o homem." No dia em que
ela o conheceu, quando ele derramou Coca nela, Gordon dissera `Voc poderia
facilmente ser a mulher'.

Ela ficou de frente para a brisa do oceano e silenciosamente gritou para Deus na
vastido. Que piada  essa? Todo mundo encontrou um parceiro pra mim, mas e eu? Vai
deixar isso claro pra mim se, por algum estranho milagre, ele for o cara certo?

Teri se lembrou de fazer uma orao parecida na praia pela manh h meses atrs, s que
ela perguntava sobre Scott. Deus estava silencioso naquela manh. Ele no mandou uma
resposta com as ondas.

que Teri pensava era como seria correr para a gua agora, de roupa e tudo. Ela j caiu no
mar vestida uma vez. Quando foi?

Ah, . Com Gordon. O que h de errado comigo? Aqui estou eu, tentando buscar a vontade
de Deus, e fico pensando em nadar com Gordon.

Ento, como comportas que se abriam, um nmero de pensamentos sobre Gordon
vieram: memrias das longas conversas na cratera, quando Scott estava impaciente
demais para esperar por ela; o jeito bondoso como Gordon comprou o lei para ela
quando Scott estava muito envolvido consigo mesmo para perceber que ela o queria; e o
modo como Gordon nunca se mostrou ciumento quando estava claro que ela e Scott
eram um casal.

Teri percebeu que acabara de passar pelos itens da lista de qualidades de um bom
marido de Deus, e Gordon preenchia cem por cento.

- Ele me ama mesmo, Deus?

Teri sabia a resposta. Gordon a dissera no Kimos, quando se prostrou em um joelho. Por
que ela enterrara o episdio to fundo, a ponto de ter tudo e se esquecer disso?




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Ento ela percebeu que fizera isso com outras questes em sua vida. Eles sempre
pareciam ressurgir mesmo assim. Decidindo que o nico jeito de resolver era pensar
nisso mais tarde, Teri voltou para a toalha. Amanh sua me e av iam embora. Uma vez
longe de Gordon, iam acabar esquecendo dele, e parariam de incomod-la com esse
assunto.

- Bem na hora, disse Gordon assim que ela se sentou na toalha.  Temos um jantar
maravilhoso aqui.

Ele tinha trazido pouco mais de meia dzia de salsichas em um espeto de churrasco.
Mame tinha aberto o pacote de pes e pegou o catchup e a mostarda na caixa trmica.

- timo! Disse Gordon  Que tal orarmos agora?




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CAPTULO TRINTA E UM

O luau no poderia ter sido mais perfeito  exceto pelo constante martelar no corao de
Teri. Ela se sentia nervosa, como se o grupo precisasse ir, ir embora da experincia
melosa e retornar ao pnico da crise em torno da pequena Grace Malia.

- Vai fazer uma serenata para ns agora? Vov Maria perguntou assim que ele terminou
seu cachorro quente.

- Muito bem, disse Gordon, esfregando as mos e abrindo a capa do violo. Ele afinou o
violo na noite fresca e comeou a cantarolar suavemente. Uma cano saiu de seus
lbios, e flutuou entre eles com a brisa noturna.

Teri tentava ficar sentada, prestar ateno e ouvir. A cano foi linda. Mas ela no podia
deixar de estremecer.

Gordon ainda estava cantando. A cano falava de Deus, nosso Pai celestial, indo
alcanar seus filhos. Um dos seus braos era a lei, o outro era a graa. A figura mudou, e
a cano descreveu um amante indo alcanar seu verdadeiro amor. O brao da lei e da
verdade no era o bastante. O Pai s poderia trazer para perto de si a sua amada criana
quando a envolvesse com seus dois braos. O ltimo verso da cano falava sobre o
amante com os braos estendidos, esperando pelo abrao.

- Que cano linda! Que figura! A me de Teri parecia extasiada.  Nunca ouvi algum
explicitar com tanta preciso. Braos de Deus? Foi assim que voc disse? Onde eu posso
obter uma cpia dessa msica? Quero lev-la  minha igreja.

- Acho que posso gravar uma fita, disse Gordon.

- Quer dizer que voc a escreveu? Mame perguntou.

Teri achava a cano linda tambm. A imagem que se formou em sua mente era
poderosa, tendo esclarecido algo com que ela lutara por anos. Devemos viver debaixo de
regras? Ou devemos viver como queremos e depender do perdo de Deus? A imagem de
dois braos serem necessrios para o abrao respondeu a questo. Devemos viver com
ambos. Nem um, nem outro. Ambos.

Agora Teri se sentia ainda mais desconfortvel. Ela se sentia mais vulnervel do que se
permitira sentir h meses.

- Acho que deveramos voltar, disse Teri, levantando-se e limpando-se  Anita e Dan
devem estar em casa agora, imaginando onde estamos.

- Ah, Teri, no seja uma gatinha nervosa. Olhe s pra voc! Vov ralhou  Ns podemos
dar um tempo aqui. Dan e Aninha nunca voltam antes da meia-noite.

- Ela me disse mais cedo que voltaria depois que amamentasse Grace s seis, pois queria
passar um tempo com vocs antes de irem embora.

- Podemos ir, disse Gordon. Ele recolheu as coisas do piquenique e ajudou Vov Maria a
voltar para o carro.
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Mame e Teri andavam atrs deles. Mame disse:

- Teri, se isso ajuda, eu sei que seu pai o aprovaria.

- Me, voc no est me ouvindo! No estou interessada em um relacionamento com o
Gordon, ou com qualquer outra pessoa. Estou bem feliz sendo solteira.

Mame olhou para ela, ctica. Teri olhou para baixo, imaginando se ela poderia se
convencer com essas palavras.

Ela pensou em Lauren. Aquilo era tudo o que ela precisava para renovar sua
determinao. Olhe para o que aconteceu a ela. E todos pensavam que Lauren e Jeff eram
perfeitos um para o outro.

Bom, nem todos. Os pais de Lauren no foram com a cara de Jeff no incio. Mas eles
aceitaram Lauren e sua deciso de se casar com ele.

Dan e Anita estava em casa, como Teri dissera. Todos eles foram conversar na cozinha.
Ento a campainha tocou.

Eles abriram a porta e uma dzia de amigos da igreja estavam l gritando "Surpresa!" L
estavam vrias pessoas carregando roupinhas de beb, um bercinho branco, uma
cadeirinha para carro, e uma caixa cheia de casseroles16 prontas para congelar.

Mark e Claire foram os ltimos a entrar. Mark segurava um pacote gigante de fraldas
descartveis. De certo modo, elas pareciam deslocadas em seus braos. Teri sorriu para
Mark e depois para Claire.

- Ai, eu no contei, disse Anita baixinho, chegando atrs de Teri  Se casaram na semana
antes do Natal. Ela se virou para o homem com a caixa de casseroles e disse  Sim, claro,
o freezer est vazio. Pode colocar l. Muito obrigada, gente. Que timo!

- Oi, Mark disse para Teri  Soube que estava aqui.

- E eu acabei de saber que se casaram, Teri tentou cobrir o choque estendendo calorosos
desejos de felicidades aos dois  Parabns! Eu no imaginei... Ela no sabia o que dizer.

Mark ps o brao em volta de sua esposa e disse:

- Acho que passei tempo demais ignorando o bvio. Ento ele olhou de volta para Teri
com o jeito de quem pede desculpas  Quer dizer, no que eu quisesse que as coisas
tivessem sido diferentes ano passado nem nada disso...




16
  Casserole  uma comida que pode ser congelada para ser finalizada na hora de servir. So
camadas de carne (geralmente de frango) ou peixe (geralmente atum), legumes e alguma massa
de macarro, batata ou outra massa tudo isso banhado em um caldo que ajuda a comida a
terminar de cozinhar. Lembra uma lasanha, n? Mas com variaes, afinal no vive s de
macarro.  um modo de fazer uma comida. Um coq au vin em casserole  banhado em vinho e a
carne  de galo. Mas o mais comum  casserole de macarro com queijo.
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- Eu sei, disse Teri, inclinando-se para abra-lo rapidamente.  No precisa dizer nada,
Mark. Eu entendo, e estou feliz por vocs dois. Ela abraou Claire tambm e disse  Sabe
como Deus . O tempo e o jeito de ele fazer as coisas so sempre imprevisveis.

- Ele  radical, disse Gordon. Teri no sabia h quanto tempo ela estivera ao seu lado.

- Certamente, disse Mark  Radical. Ele cumprimentou Gordon com um aperto de mo. 
No te vi desde que voc voltou. Conhece Claire, no ?

- Claro. Nos encontramos na igreja algumas vezes. Parabns, Claire. Gordon disse,
dirigindo-se at ela e dando-lhe um beijo de aloha.

Engraado como Gordon beija a todos, mas no a mim. No que eu quisesse.

- Ento j terminou o seminrio? Mark perguntou.

- Sim, me formei h trs semanas e voltei pra Maui. Estou orando pra saber qual  o
prximo passo.

- Quais so suas opes? Mark perguntou, entregando o pacote de fraldas para Vov
Maria, que estava empenhada em ajudar Aninha a organizar tudo.

- Tenho uma oferta de uma igreja em Sidney, mas prefiro ficar aqui e comear uma nova
igreja aqui. Talvez em Kihei.

- Parece timo, disse Mark.

- Precisamos de mais pastores na ilha, completou Claire. - Especialmente pastores como
voc, com corao em Deus.

Teri era a nica quieta no grupo dessa vez, parada ali ouvindo todos dando seu conselho
a Gordon. Ela achou que isso poderia ajud-lo a redirecionar seus pensamentos.

- Bem, se ficar, acho que seria melhor se fosse como um homem casado.

Teri sentiu sua mandbula apertar.

- Ah, moleque! Disse Mark, num tom iluminado nada caracterstico  agora voc est
falando uma coisa interessante! Recomendo altamente a vida de casado. Ele deu um
tapinha no ombro de Gordon.  J encontrou a sortuda?

Gordon no olhou para Teri, mas usas palavras a atingiram diretamente.

- Eu a encontrei no ltimo vero. Ela ainda est tentando se decidir.

A  que est. Teri j estava decidida. Ela dissera a ele uma vez no Kimos, e diria a ele
cem vezes, se necessrio. No! No! No! Gordon, eu no vou me casar com voc.

- Com licena, disse Teri, sentindo suas bochechas corando  Vou ver se Anita precisa de
ajuda.

Ela passou pela sala apinhada de gente e entrou no quarto. Teri no notou que havia um
homem l montando o bero.

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- Teri, oi! Era Kai, o bartender da piscina que tinha acampado com eles.

- Oi, Kai. Ei, obrigada por trazer essas coisas e arranjar isso tudo pra Dan e Aninha. Ela
tentou parecer tranquila. De repente ela percebeu que todos os que estavam ali eram da
igreja. O que o colega de trabalho de Dan fazia ali?

-  um prazer. Jena e eu ficamos felizes em ajudar.

- Jena? Eu a conheci?

- Acho que no.  a minha esposa.

- Sua esposa? Teri sentou-se na beira da cama.  H alguma epidemia de casamentos por
aqui?

Kai olhou para Teri, a chave de fenda ainda em sua mo, e disse:

- Gordon no disse? Ele conduziu a mim e a Jena ao Senhor duas semanas depois que
voc foi embora. Nos batizamos e no mesmo dia nos casamos.

- Gordon?

- Sim. Bem, ele ajudou. Foi na igreja com o pastor. Por que parece to surpresa?

- Ah, por nada. Estou feliz, srio! Especialmente em ouvir que agora voc  cristo. E se
casou! Isso  timo.

- Bem, ns moramos juntos por quase dois anos, mas uma vez salvos, sabamos que
deveramos estar corretos perante Deus. E voc? Como esteve?

- Bem. Ela ainda estava aturdida com as novidades de Kai.

- Ei, tinha mesmo alguma coisa com Scott, n?

Teri se segurou.

- O qu?

- Sabe, tudo o que aconteceu depois que descobriram que o Moonfish tinha sido roubado
pelo colega dele. No ficou sabendo?

Teri balanou a cabea.

- Foi um cara que aportou o iate em Maalaea quem descobriu. Eles levaram Bob, mas
Scott conseguiu se safar, parece que provou que era inocente. Ele saiu das ilhas. Digo,
Scott. Acho que foi para o Peru. Eu vi Julie pouco antes de sarem e tenho quase certeza
de que ela disse que eles iam para o Peru.

- Julie? A namorada do Bob?

- Ah, namorada do Bob at a polcia bater na porta. A do nada ela passou a ser namorada
de Scott.


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- No acredito nisso, dise Teri, enfiando a cabea entre as mos.

- Ah, . Voc saa com ele, n? Esqueci. Desculpa.

- Tudo bem, Kai. Isso foi em outra vida. Teri precisava de ar fresco. Ela se levantou e
disse: - Obrigada novamente por ajudar Anita e Dani. E, mais uma vez, estou feliz de
verdade por voc e Jena. Que Deus abenoe o casamento de vocs.

- J tem abenoado, disse ele com um sorriso  Descobrimos h dois dias que ela est
grvida. Acho que assim que eles terminarem de usar essas coisas vamos precisar pedi-
las emprestadas.

Teri seguiu para a porta da frente. Bebs! Casamentos! Scott fugindo para o Peru com
Julie! Preciso sair daqui!




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CAPTULO TRINTA E DOIS

Teri evitou contato com Gordon e com todos mais pelo resto da festinha. Aquilo era
demais pra ela. No fazia sentido. Nada fazia sentido. Ela ficou parada na frente, olhando
para o cu. H seis meses, as estrelas pareciam completamente diferentes. Ela lembrou
da noite em que Scott a levou  praia e estourou os fogos de artifcio. Suas prprias
palavras vieram perturb-la: Os fogos de artifcio me feriram.

Ela percebeu que quando se focava nos fogos de artifcio em uma relao, eles se viravam
contra ela e a feriam.

Certo, ento eu estava errada sobre Scott. Estava errada sobre Mark. Duas falhas so o
bastante para que eu no queira tentar de novo.

Ela ouviu a porta de correr se abrindo atrs dela. Teri foi para a sombra, no lado da casa.
Se fosse Gordon, ela no saberia o que iria fazer. Mas era Anita.

- Teri, voc est a?

- Estou aqui.

Anita juntou-se a ela na sombra.

- Voc est bem?

- Por que no me disse que Mark se casou? Por que no me contou sobre Scott?

- Porque eu no soube disso at hoje. Dan me contou sobre Mark e Claire no caminho do
hospital. Eu acabei de sair do quarto, Kai me contou sobre Scott. Desculpe, Teri. Como se
sente?

- Como se estivesse estragado tudo vrias vezes.

- Voc no estragou nada. Voc fez algumas tentativas que no deram certo. No tem
nada de que se envergonhar.

- Talvez no envergonhar, disse Teri. Talvez eu esteja lutando com o medo. Meu corao
continua batendo depressa; estou nervosa.

- Est com medo de tentar outra vez?

Teri fez que sim.

Anita colocou o brao em volta de sua irm e disse:

- Sei o que est sentindo. Perdi dois bebs. Estava com medo de tentar de novo. Com
medo do que poderia acontecer. E olha o que aconteceu. No foi perfeito. Gracie tem
muito com o que lutar. Mas ela est aqui. E eu estou aqui. E Deus est conosco.

Teri ouvia sua irm chorando baixinho, e no pode deixar de juntar suas lgrimas.




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- S quero que voc saiba, disse Anita, enxugando as lgrimas  que seja l o que voc
decidir sobre Gordon ou quem quer que seja, estou aqui pra voc. Quero ser mais que
sua irm, Teri. Quero ser sua amiga.

Elas se abraaram apertado, com os dois braos envolvendo uma a outra.

- Vem, vamos voltar. Quero que me ajude a encontrar um lugar pra todas essas
roupinhas de nenm.

- Grace pode ficar com meu cantinho no armrio, Teri sugeriu.

Elas entraram na casa, com os olhos vermelhos, abraadas. O grupo de amigos estava
comeando a ir embora. Teri se juntou a Anita para se despedir de cada um deles.
Gordon foi com eles, dizendo que levaria Mame e Vov amanh s seis para o
aeroporto. Teri se sentia aliviada por ele no ter dito nada mais, nem ter olhado para ela
daquele jeito. Ela se sentia muito vulnervel. Ela precisava de tempo para por as coisas
no lugar.

Durante a noite, enquanto ela estava deitada no colcho no cho da sala, a mente de Teri
corria em milhares de labirintos diferentes. No silncio profundo da noite, ela ouvia o
ventilador de teto girando e o suave ronco de Mame e Vov, que dividiam o sof-cama.
Teri no dormiu aquela noite. Mas quando o alarme tocou s cinco horas, ela obteve a
resposta que estava esperando.

- Aninha, Teri sussurrou, batendo suavemente  porta do quarto  So cinco horas. J
esto de p?

- Pode entrar, disse Anita. Ela estava sentada na cama, bocejando. Dan, estendido de
bruos perto dela, ainda dormia.

Teri entrou p ante p e sentou-se ao p da cama no lado de Anita.

- Preciso te dizer que decidi ir pra casa.

O semblante de Anita caiu.

- Eu ia ficar pra te ajudar a comprar as coisas do beb, mas ontem  noite voc recebeu
quase tudo de que precisava. Tambm pensei em te ajudar com as refeies, mas agora
seu freezer est cheio. Eu preciso ir. No tenho mais frias.

- Pensei que voc dissera que uma mulher tima te substituiria.

- Ela , mas se eu no voltar, vou perder meu emprego. Voc no precisa de mim aqui.
No h nada que eu possa fazer por Grace Malia. O mdico disse que, como ela parece
estvel, tudo o que voc precisa  esperar que ela cresa. No precisa de mim aqui.

- Mas eu queria que voc ficasse.

- Eu sei, mas, Aninha, tente entender. Preciso voltar pra Glenbrooke onde eu posso
pensar direito.

Anita soltou um suspiro.

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                                 Sussurros  Robin Jones Gunn

- Entendo. O que vai dizer a Gordon?

- Vou dizer pra me escrever. Teri se levantou.  Vou tomar um banho rpido. Minhas
coisas j esto arrumadas.

Anita relutantemente consentiu.

- Ta. Eu vou fazer um caf.

Mame e Vov no foram to compreensivas quanto Aninha. Teri comunicou sua
deciso a elas enquanto saa do chuveiro. Elas ainda estavam expressando sua indignao
quando Gordon chegou.

- Vai fazer alguma coisa com essa minha neta? Vov Maria dizia enquanto Gordon levava
as trs malas que agora retornariam ao aeroporto.

- O que quer que eu faa? Perguntou Gordon, esperando pacientemente  porta da
frente. Todos na casa estavam assistindo a cena.

- Quero que fique de joelhos e a pea em casamento.

- Isso eu j fiz, disse Gordon sem muita mudana em sua expresso.

Vov parecia em choque. Ela se virou para Teri com as mos nos quadris.

- E o que voc disse a ele?

- Vov, isso  loucura. Precisamos ir ao aeroporto. Teri fingiu estar procurando algo em
sua bolsa.

- Ela disse no, disse Gordon.

- E o que disse a ela? Vov perguntou.

- Disse que eu esperaria.

Vov estalou a lngua, e dando um tapinha no ar, saiu em direo ao carro, murmurando
em espanhol pelo caminho.

Teri se recusava a fazer contato visual com Gordon. Ela se afundou no banco de trs e
permaneceu em silncio durante todo o caminho at o aeroporto. Quando chegaram a
Lahaina, Gordon mexeu no retrovisor para que pudesse ver o rosto de Teri. Ela se
inclinou para a janela e olhou para longe.

A partida era dolorosa. Ela amava Maui. Mesmo se ela fosse admitir que ela amasse algo
ou algum... ela simplesmente no podia fazer isso agora.

No aeroporto, Mame e Vov fizeram o check-in primeiro, pois o vo delas para San
Diego partia vinte minutos antes do de Teri para San Francisco. Felizmente, Mame
tinha a cabea certa. Ela disse a Teri que enviaria os presentes de Natal de Teri que ainda
estavam em sua casa para o Oregon. Ou talvez mande por sedex. Ela veria o que ficaria
mais em conta.


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- Ok, Mame. Est bem. Tanto faz. Eu pago, se  o caso.

- No seja ridcula, no quero que voc me pague! Me liga assim que chegar em casa, ta
bom? Vamos nos revezar pra ligar pra c para ter notcias de Grace Malia como j
combinamos.

- Tudo bem, Mame. Teri ouviu a chamada de um vo.   o de vocs, disse ela.

Ela beijou sua me e depois se inclinou para beijar Vov Maria. Vov devolveu com um
suave beijo no rosto de Teri. Ento, segurando seu brao, ela disse em um sussurro:

- No seja estpida.

- Vov, disse Teri, afastando-se.

Vov balanou o dedo e disse:

- Voc sabe o que eu quero dizer.

Teri no sabia como responder, ento fingiu ser uma piada:

- Eu tambm te amo.

Vov beijou as duas bochechas de Gordon, e sem uma palavra, ela segurou seu rosto com
suas mos, olhou em seus olhos, e sorriu.

Gordon sorriu de volta, e ento, para a surpresa de Teri, ele disse a Vov:

- Hasta.

Como foi que ele aprendeu a falar `At' em espanhol?

Vov acenou com a cabea, concordando.

- Hasta, ela repetiu, como se no precisasse de qualquer explicao para a despedida de
Gordon.

Mame deu um beijo rpido em sua bochecha tambm, agradecendo exaustivamente por
tudo o que ele fizera na ltima semana.

- Imagino que esteja feliz em poder voltar ao seu ritmo agora. Nunca poderemos
agradecer o bastante por tudo o que fez por ns.

- Foi um prazer, de verdade.

Mame e Vov entraram na fila junto com os outros passageiros do avio e se viraram
para um ltimo adeus.

Depois que sumiram de vista, Gordon e Teri viraram-se silenciosamente e foram para o
fim do terminal para esperar pelo vo de Teri. Eles se sentaram perto um do outro e
olharam pela janela para o avio que em breve estaria levando Teri embora.




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Finalmente, Teri decidiu que deveria falar. Mas o que ela deveria dizer? Seu corao
estava quase saindo pela boca. Isso s acelerou o ritmo e suas mos comearam a ficar
pegajosas de suor.

Gordon parecia calmo, quase como se estivesse em profunda orao. Nenhuma palavra
veio aos lbios de Teri.

Logo o vo de Teri foi anunciado. Ela se levantou como uma caixa-surpresa, o corao
disparado.

-  o meu, ela disse.

Gordon foi com ela at o lugar que dividia a sala de espera e a fila de passageiros
embarcando. Ele ficou ali como uma rocha.

- Acho que sua resposta ainda  no, ele disse.

- No daria certo, Gordon. Somos diferentes demais. No estou pronta para um
relacionamento srio, Teri parou, tentando pensar se ela disse todas as razes que estava
alimentando. Ela pensou na sua necessidade por fogos de artifcio, mas no sabia como
explicar isso a ele, por isso disse: - E voc  muito mais velho que eu. No era pra ser. Por
favor, tente entender.

Ento, como se ele no estivesse ouvido uma palavra do que ela dissera, Gordon disse:

- Vou esperar bem aqui, at ouvir um sim. Ele fez uma pausa  At. Ele disse a palavra
firmemente, no como uma beno, mas como um batismo.

A fila tinha andado, e Teri precisava ir. As pessoas atrs dela estavam pressionando.
Gordon no fez qualquer meno de que iria abra-la ou tocar nela. Ela seguiu em
frente e olhou para ele por sobre o ombro. Seus olhos se encontraram, e de um jeito
misterioso, como se ele j tivesse feito isso antes, o olhar de Gordon a trouxe para ele, e a
abraou.

Teri desviou o olhar. Ela tinha que permanecer forte. Com a cabea tranquila. Essa era
uma deciso sbia, lgica. Era a deciso certa. Tinha que ser.

- Ticket, por favor, a comissria disse  porta.

Teri estendeu pra ela, recebeu de volta o pedao que continha o nmero de seu assento e
andou pelo avio sem olhar para trs.




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CAPTULO TRINTA E TRS

Uma vez sentada, depois de apertar o cinto e tendo o ar-condicionado soprando bem em
cima dela, Teri se sentiu um pouco melhor. Ela sabia que ficaria bem assim que o avio
levantasse vo.

O resto dos passageiros embarcou. Ela pegou uma revista  sua frente. Vrus de
computador esto em queda. Isso  bom. Relgios de viagem que podem ser
programados para despertar com sua msica favorita.

Ela espremeu a revista na sacola e foi para mais perto da janela enquanto um passageiro
sentava-se na poltrona ao seu lado. Era um senhor com uma enorme barriga que enchia
todo o assento. Quando se sentou, soltou um alto suspiro, parecendo exausto da jornada
pela ilha. Teri evitou olhar para ele. Ela no queria comear uma conversa. Tudo o que
ela conseguia pensar era em como seria difcil passar por aquele homem quando quisesse
ir ao banheiro durante o vo de cinco horas de durao.

Ela procurou um chiclete na bolsa. Alguma balinha. Nada. No tinha anda. Sem pensar,
Teri comeou a comer as unhas da mo direita. Ela nervosamente balanava o p
enquanto monotonamente as comissrias instruam sobre as sadas de emergncia. O
sinal de apertar os cintos estava ligado, estavam prontos para sair.

Vai! Vai! Ta demorando! Vamos embora. Leva esse nenm pra pista, vai!

Dez minutos inteiros se passaram e a voz do capito veio pelo alto-falante.

- Est havendo uma reviso na pista. Este  um procedimento de rotina e a pista ser
liberada para taxear logo em breve. Por favor, relaxem e mantenham os cintos apertados.

Teri tinha comido todas as unhas da sua mo direita e estava comeando a comer as da
mo esquerda. Ento ela se lembrou de Gordon perguntando naquela manh na praia se
ela roia as unhas porque essa era uma coisa que ele no gostava. Ela roeu as unhas com
mais vontade. O que importa o que Gordon gosta ou no gosta? Ela sequer devia estar
pensando nele. Ela estava indo pra casa. Bloqueando-o da mente. O que ele estava
fazendo ali com ela, confortavelmente acomodado em seus pensamentos desse jeito?

Ela pegou a revista de novo e tentou em vo virar as pginas com seus dedos com tocos
de unha. Por que eu fiz isso? Por que ro as minhas unhas?

Ento, de repente, vieram as lgrimas. Ela no podia par-las. Lgrimas grossas corriam
por suas bochechas, caindo sobre a folha de revista.

Isso  loucura! Por que estou chorando? Deve ser por causa do stress com Aninha e o
beb e... e... Eu preciso de um leno.

Pegando a bolsa debaixo da poltrona  sua frente, Teri procurou um leno, um pedao
de guardanapo, qualquer coisa antes que seu nariz comeasse a escorrer com suas
lgrimas fora-de-controle. No fundo da bolsa, ela achou um velho, amassado e sujo
pacotinho de lenos com um ltimo lencinho restante. Ela tateou para pegar o lencinho
solitrio. Estava preso no fundo da bolsa.

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Com um puxo, o lencinho veio, junto com um objeto ressecado que caiu no seu colo.
Teri piscou para limpar a viso e pegou o objeto curioso. Era alguma flor amassada. Ela
assuou o nariz e colocou a florzinha marrom na palma de sua mo. Era uma orqudea.

Onde foi que eu peguei essa orqudea, e por que eu a guardei?

De repente, uma represa se quebrou em sua mente, e as memrias vieram em uma
enxurrada at o seu corao.

- Esquisito, n? Ela ouvia o sussurro de Gordon em seu corao - As plantas no podem
resistir a florescer na hora determinada. Por que resistimos? ... Acho que quatro  bom.
Eu no gosto de nmeros mpares. Seis seria melhor que cinco... Eu posso esperar...
Abraa seu corao com um brao ou dois? Responda, e voc saber... Frgeis humanos
somos ns, desastrados frente  eternidade... na grande festa de bodas do Cordeiro...
Quero correr aos seus braos!

O aeroporto comeou a andar devagar.

- Pare o avio! Teri gritou o mais alto que pde. Ela soltou seu cinto, pegou a bolsa e
gritou novamente  Pare o avio!

Uma das comissrias veio correndo  sua fila.

- Tenho que sair, disse Teri freneticamente para o grande homem que estava entre ela e o
corredor.

- No pode sair, o homem resmungou.

- Eu tenho que sair! Ela gritou e se arrastou entre os joelhos do homem, com sua bolsa
atrs de si. Ela sabia que todos os olhos no avio estavam sobre ela. Ela no se importava.

- Por favor, sente-se, a comissria disse, colocando gentilmente as mos sobre seus
ombros.

- Voc no est entendendo!  uma emergncia! Eu preciso sair desse avio. Agora no
pode abrir a porta e me deixar sair? A gente ainda no foi a lugar algum! Teri soava
frentica, mas era assim que ela se sentia.

- Mas j lacramos todas as portas, a mulher disse.

Outra comissria chegou e disse:

- Tudo bem. O capito deu permisso. Podemos deix-la sair.

Teri desceu o corredor, seus cabelos balanando selvagemente enquanto ela corria.
Outro comissrio que estava parado  porta aberta, perguntou:

- Quer assistncia mdica?

- No! Teri gritou por sobre o ombro. Ela correu pelo terminal, sua mente e emoes
correndo com suas pernas. Ela deixara Gordon h vinte minutos. Ele deveria estar a


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caminho de casa agora. Ela podia pegar um txi. Ou alugar um carro. Ou pegar uma
carona. No importa. Ela tinha que alcan-lo.

No momento em que chegou  sala de espera, Teri parou. Gordon estava parado onde a
deixara. Ele no tinha se movido um centmetro desde que dissera suas ltimas palavras
"Vou esperar bem aqui at..."

Teri ficou congelada, ofegante, seus olhos ligados aos dele. Ela disse em um olhar tudo o
que estivera escondido profundamente em seu corao por tanto tempo. Ele permaneceu
ali, sorrindo, absorvendo cada palavra de sua mensagem to clara.

Abrindo os braos para ela, Gordon convidou Teri para um abrao. Ela correu o mais
rpido que podia, colou seus braos em volta dele, e o abraou to forte que parecia que
seus coraes batiam em unssono. Nenhum dos dois soltou o abrao.

- Gordon, ela sussurrou, suas lgrimas molhavam o ombro dele  Eu te amo.

Ele suavemente a afastou um pouco, erguendo a mo para limpar as lgrimas da face
dela.

- Ento sua resposta  sim?

Teri olhou em seus persistentes olhos. Lgrimas esperavam para cair. Ela se lembrou de
quando ele a pediu em casamento no Kimos e dissera que os anjos estavam vendo. Ela
quase podia senti-los agora, chegando mais perto, prendendo a respirao, esperando
junto com Gordon pela resposta dela.

Teri sussurrou, alto o suficiente para que apenas Gordon e os anjos pudessem ouvir.

- Sim.

Trazendo-a para perto devagar, Gordon inclinou sua cabea, pronto para dar a Teri o
beijo que ele guardou para sua nica mulher.

Ela fechou os olhos. Os lbios de Gordon se encontraram com os dela. Em seu corao,
era Quatro de Julho17.




17
 Dia da Independncia dos Estados Unidos, dia tradicional de se soltar fogos de artifcio na
Gringolndia.
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Receitas Sussurradas

Fazer tamales dava energia a Teri Moreno. O processo longo e familiar a ligava s outras
mulheres da famlia. Ela participava da festa das tamales desde que era uma garotinha e
agora a receita, bem como os conselhos culinrios dos parentes, era um tesouro
guardado sem eu corao.

Quando minha cunhada, Kate, casou-se com a famlia Medina, foi convidada a participar
da festa de tamales da famlia. Vov Ruthie a ensinou como escolher as melhores
pimentas (Pimenta malagueta do Novo Mxico) e como enrolar as cascas de milho
corretamente.

Nunca vou esquecer o primeiro Natal em que Kate me mostrou seu freezer lotado de
sacos de tamales e disse que era um presente especial de sua nova famlia para a nossa.
Presente esquisito, eu pensei. Ento eu dei a primeira mordida. Todas as palavras nesse
livro que descrevem as tamales de Teri so verdadeiras. So muy deliciosas!

Para o caso de voc querer fazer sua prpria festa da tamale, aqui est a receita da famlia
Medina:

Tamales da Teri

(Os ingredientes so para preparar 100 tamales, pois segundo a Vov Ruthie "Se no for
fazer pelo menos cem tamales, no compensa sujar a cozinha")

5 kg de Masa pronta

1 pacote grande de cascas de milho

3 peas de carne para assar  de 2 a 3 kg cada (carne de vaca, porco ou ambos)

2 pacotes grandes de pimenta malagueta vermelha seca

Um dia antes

Pegue as trs peas de carne e coloque em uma assadeira grande. Esfregue 2 colheres de
sopa de sal na carne. Adicione 2 dentes de alho amassados e 2 a 3 cebolas fatiadas.

Asse em fogo alto at a carne ceder quando espetada com um garfo. (Aproximadamente
30 minutos por kg).

Depois que a carne esfriar, tire a gordura do caldo e reserve o caldo. Tire toda a gordura
da carne. Desfie a carne j fria em fiapos de 7 a 10 centmetros.

Preparando a pimenta malagueta

Limpe todas as sementes e talos das pimentas. Lave-as muito bem. Uma boa dica  usar
luvas de borracha bem limpas para impedir que o ardor da pimenta fique em sua mo. Se
no usar luvas, tome cuidado pra no colocar a mo nos olhos! Cubra as pimentas de
gua e cozinhe em fogo mdio at elas ficarem macias. Misture as pimentas enchendo o
liquidificador com pimenta at a altura de 4 xcaras. Adicione 1,5 xcara da gua em que

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cozinhou as pimentas (mais gua para ficar mais picante, menos para ficar mais suave) e
adicione 1,5 xcara do caldo que reservou da carne. Adicione tambm: 1 colher de
cominho, 1 colher de organo (d preferncia ao organo mexicano, com flocos grados)
meia colher de coentro, e duas colheres de sal. Misture por dois minutos at a mistura
ficar com cor uniforme.

Preparando a mistura de carne

Misture o preparado de pimenta com a carne desfiada. (Voc pode precisar fazer mais da
mistura de pimenta, dependendo do tamanho da carne). A carne no deve ficar nadando
uma vez que a pimenta for adicionada, ento adicione pimenta suficiente apenas para
cobrir a carne. Reserve  de xcara do molho de pimenta para a Masa.

Preparando as cascas de milho

Comece tirando toda a barba do milho e molhando as cascas. As cascas devem estar
macias e flexveis. Guarde as cascas em uma frma de assar at estar pronta para a linha
de produo. Pode usar cascas de todos os tamanhos. O melhor tamanho  de 12 a 15
centmetros.

Preparando a Masa

Masa  uma massa de milho que envolve a tamale. Pode ser encontrada na seo de
panificao de uma loja especializada em comida mexicana. Adicione um pouco de cada
vez do  de xcara de molho de pimenta para adicionar farinha para os 5 kg de Masa.

A Festa da Tamale

Vov Ruthie a grande mesa da casa com uma toalha de plstico, para que limpe mais
facilmente. Junte todo mundo em volta da mesa e arrume a linha de produo da
seguinte forma:

Passo um: Espalhe a Masa na parte mais larga da casca de milho usando as costas de
uma colher. Espalhe at ficar com cerca de trs milmetros de altura, cobrindo apenas 
da casca.

Passo dois: Coloque a mistura de carne por cima da Masa. Coloque carne o bastante
para que quando fechar a tamale haja uma cobertura de Masa com casca de milho.

Passo trs: Cubra um lado da palha de milho com o outro lado. Depois vire o fundo (a
ponta afunilada) da palha distante do lado da sobreposio. Arrume as tamales com o
lado da abertura para cima pra que a carne no caia.

Passo quatro: Comece a cozinhar as primeiras tamales enquanto as outras vo sendo
preparadas. Coloque as tamales em banho-maria sobre gua fervente com o lado da
abertura pra cima. Leva em mdia 30 minutos para cozinhar 1 a 5 tamales. Certifique-se
de que a gua no passe para a superfcie onde cozinham as tamales.

As tamales esto prontas quando a Masa parece uma massa de milho cozida e firme
(como uma massa de pamonha cozida). Tudo bem abrir a tamale pra ver se est pronta.
Se a Masa no estiver firme, feche de novo e cozinhe mais um pouco.
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                              Sussurros  Robin Jones Gunn

Passo cinco: Tamales prontas ainda no cozidas podem ficar na geladeira se forem
cozidas em um dia ou dois. Todas as outras podem ser guardadas em sacos para freezer,
com a abertura pra cima.

Quando for preparar tamales congeladas, deixe-as  temperatura ambiente por uma
hora, ou na geladeira durante a noite, depois cozinhe por 30 minutos.

Aproveite!




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                              Sussurros  Robin Jones Gunn

Querido Leitor

Acima da pia da minha cozinha h um corao de madeira. Ele  azul, com florezinhas
amarelas. Est escrito em letras brancas "Na ke Akua Ke Aloha". Meu marido, Ross,
comprou pra mim na nossa lua-de-mel no Hava h dezoito anos. Ns voltamos para l
vrias vezes durante esse tempo e at moramos nas ilhas durante sete meses.

Enquanto escrevia esse livro, eu me cerquei de fotos do Hava, ouvi msica havaiana e
mergulhei em doces memrias tropicais. Isso foi uma tortura porque l fora na minha
janela o cu cinzento de inverno do Oregon se recusava a deixar o sol aparecer e o
esqueleto desfolhado de uma rvore no jardim do meu vizinho cedia ao vento que
soprava do leste. Maui parecia longe demais. Palmeiras balanando pareciam apenas um
sonho.

Eu me sinto dessa maneira acerca do Reino de Deus algumas vezes. Eu sei que  real. Eu
tenho prova. Eu creio. Mas o mundo cinzento ao meu redor se recusa a deixar a luz do
Filho brilhar.  como Gordon diz nessa estria "Frgeis humanos somos ns, desastrados
frente  eternidade." Por um minuto eu corajosamente acredito que posso entender a
Deus, e no minuto seguinte, ele est cercado de mistrio, muito alm da minha
compreenso.

O amor parece ser da mesma forma. Eu acho que tenho tudo acertado, e ento eu pisco
os olhos e percebo que no sei a primeira coisa sobre como amar os outros ou como
deixar que os outros me amem. Como esto interligadas essas duas verdades: Deus e
amor. Como so infinitos seus segredos.

Talvez o amor entre em nossos dias tristes quando nos cercamos com sua verdade  no
importa quo longe parece estar no nosso mundo invernal. Ns acreditamos no sonho e
como humanos frgeis, ns desfrutamos da presena de Deus, do seu amor, em nossos
dias  mesmo arriscando um desastre.

A evidncia de Deus e seu amor infinito est  nossa volta. Podemos no senti-la no
terremoto, no vento, no fogo ou nos dias difceis. Mas ela vem em um gentil sussurro;
como as palavras no corao azul de madeira acima da minha pia. "Na Ke Akua Ke
Aloha"  "Deus  amor".

Sempre,

Robin Jones Gunn




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        Sussurros  Robin Jones Gunn




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